Nós, seres humanos, somos criaturas complexas, e de uma natureza dupla. Somos criadores de mundos, divindades, mitos, arte, ciência, pontes e aeronaves, moldamos o planeta ao nosso gosto. Ao mesmo tempo, somos animais, homo sapiens sapiens, traçamos o nosso DNA até a primeira célula viva, compartilhando esta trajetória com todos os outros seres vivos no planeta.

Somos feitos das mesmas coisas, herdamos as mesmas estruturas básicas, passamos pelos mesmos estágios de vida. Nascemos, crescemos, morremos. No meio do caminho sofremos perdas, ferimentos e doenças, nosso corpo nos trai e nos falta e, mesmo com a melhor das medicinas que criamos, ainda estamos à mercê da natureza, como a atual pandemia nos demonstra.

Enquanto humanos, contamos as histórias das nossas próprias vidas, e as histórias das vidas das pessoas que são próximas a nós. Geralmente somos heróis da nossa própria história, enquanto outras pessoas são coadjuvantes, de interesses amorosos a vilões, ou somente figurantes.

É normal ter essa visão. Nosso cérebro evoluiu num cenário onde os grupos de pessoas tinham no máximo 200 pessoas. Não conseguimos dar conta de ver todas as pessoas com quem convivemos com “resolução máxima” de humanidade.

Mas hoje vivemos em sociedade, e convivemos com muito mais do que 200 pessoas. Sabemos que as nossas tendências reducionistas existem, graças ao nosso conhecimento sobre a nossa dimensão animal.

Através da nossa inteligência e cultura, pudemos descobrir as fragilidades e limitações que temos, mesmo que saber dessas limitações não garanta que conseguimos corrigi-las. Assim, temos é que levar nossas limitações em conta quando criamos as normas que temos para conviver.

Recentemente a Holanda recomendou que pessoas solteiras procurem um parceiro ocasional para transar, pela duração do lockdown. Fizeram isto porque sabem que pessoas têm libido, e que em nenhum cenário onde se recomendou que pessoas não transassem, isso funcionou.

Recomendar que escolham um parceiro em uma relação casual reduz os danos. Sabemos que quando as pessoas sentem que já estão violando uma regra, é fácil dali para frente simplesmente chutar o balde e violar outras. Sabendo que temos uma necessidade de contato e intimidade, manter uma possibilidade disto dentro das regras, com menos risco, ajuda toda a sociedade a manter uma atitude melhor.

Sabemos que quando encontrarmos qualquer pessoa, o que ela faz naquele momento pode ser a única coisa que veremos, e toda a nossa impressão vai se basear naquilo. Sabemos que nosso conhecimento é limitado, que o que vemos não representa o todo daquela pessoa.

A motorista talvez fosse geralmente cautelosa, mas dirigia desesperada com o parente doente no carro em direção ao hospital. O atendente seco no banco talvez tenha trabalhado com medo de se contaminar e levar uma doença aos seus pais, e por isto não consegue dormir bem há semanas.

Sabemos que ninguém é tão bom quanto seu melhor momento, ninguém é tão ruim quanto seu pior, e podemos tentar perceber que pode haver coisas que não conhecemos antes de um julgamento severo.

Se sabemos que temos uma limitação, podemos levar ela em conta nos nossos planos, tanto os individuais quanto os coletivos.

Francisco Hertel Maiochi - Espaço Ciclos

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