Quando o casamento foi inventado, alguns milênios atrás, ele não se parecia com os relacionamentos que observamos e vivemos hoje em dia. Mudavam as prioridades, os objetivos, os rituais, as consequências. O casamento não era sobre amor, mas sobre filhos, heranças.

Já o amor romântico nos moldes como o conhecemos hoje em dia é mais recente, surgido na idade média. A união dos dois conceitos, casamento com amor, é ainda mais recente, sendo popular a cerca de um século. Antes disso, a concepção de casar com quem se ama era tido como um sonho imaturo de adolescentes que não sabiam nada da vida. Daí que vem aquele famoso entendimento de que os casamentos de antigamente duravam mais: certamente duravam, essa era a lógica. O casamento duraria, não importasse o que, afinal, o divórcio era ilegal. Uma exceção era a fidelidade.

Ao longo dessa história, o casamento sempre precisou da fidelidade da mulher. Todos que conhecem mulheres nascidas lá pelo começo do século passado sabem que maridos que traem eram comuns, e não era por isso que casamentos terminavam. Já quando era uma mulher que traia, geralmente acabava abandonada, sozinha, muitas vezes se forçando a se mudar de cidade ou de estado para fugir do julgamento da sua comunidade.

A figura da fidelidade servia para garantir ao homem que os filhos de uma mulher fossem seus, e a única forma de ter certeza era que ela não tivesse relações sexuais com mais ninguém. Também ajudaria nesse objetivo se ela crescesse aprendendo a não gostar de sexo, vendo sexo como algo ruim, talvez sujo, algo que se faz para agradar ao marido, mas jamais por vontade dela.

Os tempos mudaram. Hoje se espera que homens e mulheres sejam fiéis em mais ou menos igual medida, embora a traição masculina ainda seja vista como mais perdoável. A associação do amor ao casamento fez muitas pessoas associarem fidelidade ao próprio amor, acreditando que quem ama “de verdade” nem tem desejo por outras pessoas.

Mas não é só isso que se ouve em consultório. De fato, há pessoas que traem porque estão infelizes, insatisfeitas, carentes, seja por descaso ou impossibilidade dos parceiros. Mas não é sempre este o caso. As vezes a relação é ótima, mas a novidade é afrodisíaca, e a convivência com um parceiro acaba por mudar o tipo deste desejo. É muito difícil ter risco e segurança, novidade e familiaridade ao mesmo tempo. O desejo não se encaixa no contrato, e desejar uma coisa não impossibilita desejar a outra também. A existência de desejos não significa falta de amor.

Enquanto o desejo por outros seja normal, inevitável até, agir sobre ele pode demonstrar falta de cuidado em maior ou menor grau, desde um lapso de egoísmo, priorizando a própria satisfação do que os acordos com parceiros, até a uma forma deliberada de ferir o outro.

Infelizmente conversar sobre este desejo com os parceiros pode ser muito difícil, até ser tratado como uma traição propriamente dita. Com o diálogo impossibilitado, pode ser bastante difícil lidar com as pressões de vontades opostas ao mesmo tempo que se esconde tudo isso de quem se ama. O diálogo, mediado ou não por um profissional, poderia possibilitar perspectivas e soluções diferentes para estes impasses.

Francisco Hertel Maiochi - Espaço Ciclos

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