Foto Divulgação
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Me ocorreu que eu nunca escrevi sobre o que se faz em terapia aqui. Enquanto pensava nisso, e nas coisas que me marcaram em sessões na semana, me lembrei de uma música que não ouvia há muito tempo, chamada In my mind, da Amanda Palmer.

Parafraseando, ela conta que na cabeça dela imagina um futuro onde ela está magrinha, não tem mais ressacas, é disciplinada e se admira. Mas também se incomoda porque achava que já poderia ser essa pessoa hoje, e não é.

Acho que todos podemos nos identificar um pouco com esse sentimento, de sabermos que poderíamos ser algo, mas parece que não conseguimos, algo nos impede.

Em terapia, falamos muito de querer. E parando para ouvir, existe uma diferença muito pronunciada para quem ouve entre o “eu quero” e “eu queria”, mas que para quem fala, às vezes é indistinguível. Perceber essa diferença é uma das coisas que se faz em terapia.

Parece pouco, não é? Uma coisa sutil, mas com repercussões enormes.

“Queria” fala de quem eu acho que devo ser, um ideal. Fala de um futuro, e exigências, coisas que boas pessoas devem fazer. Como queremos ser boas pessoas, deixar nossos pais, família, amigos orgulhosos, achamos que temos que ser assim.

O “quero” fala do nosso próprio desejo. Das coisas que fazemos no dia a dia, dos nossos prazeres, das coisas que nos alegram, que nos fazem sentido, e às vezes das coisas que nos afundam.

“Queria” é a academia amanhã. “Quero” é o encontrar amigos e comer sorvete de hoje.

Claro, nem todo mundo quer o sorvete agora, e nem todo mundo queria ir para a academia, mas tem dificuldade. O que é desejo e o que é ideal muda para cada um. Mas dentro destes exemplos, podemos ter a impressão que o ideal é sempre melhor, e que terapia serve para conseguirmos ser quem queríamos ser.

E terapia pode ajudar transformar o “queria” em “quero”, percebendo que não dá para mudar ideal em desejo mudando só um pouquinho. Só vai para a academia e não come sorvete quem realmente se importa com isso, com exercício, corpo, contar calorias, etc.

Não dá para ser a pessoa que não se importa com isso, mas ainda faz tudo isso. Mudar o desejo implica mudar a si mesmo, como somos vistos, como nos relacionamos com os outros, e a terapia pode nos ajudar a fazer esta mudança.

Mas muitas vezes terapia é para perceber que esse “queria” não é nosso. No fim da música lá do começo, a Amanda se dá conta que é exatamente quem ela quer ser. Que no fundo ela nunca quis ser magrinha ou disciplinada, e que gostava muito é de viver como vivia.

Muitas vezes não vamos atrás desses ideais porque no fundo essas coisas parecem chatas. Muitas vezes são as vontades de outras pessoas para nós.

Terapia é para nos ouvirmos, para saber o que realmente queremos de verdade e não num futuro imaginado. Para perceber que não dá para mudar querendo se manter a mesma pessoa e para entender que as vezes já somos exatamente quem queremos ser e aceitarmos isso.

Terapia é sobre encontrar seus próprios desejos, separá-los dos desejos dos outros, aceitá-los como nossos, e fazê-los acontecer.

Francisco Hertel Maiochi - Espaço Ciclos

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