Esses dias, em uma conversa com minha esposa, falávamos sobre seleção de estagiário de Direito. Ela comentou comigo que colegas, profissionais da área, debatiam o que deveria ser colocado em um teste seletivo para uma vaga de estágio.

As profissionais, em sua maioria, diziam que o ideal seria pedir bom português, raciocínio lógico e interpretação de texto. Segundo relatos de suas colegas, “o resto depois a gente ensina, que tem jeito”.

No fundo, o discurso é o de selecionar quem conseguiu cumprir objetivos do Ensino Médio. Mas o objetivo não deveria ser selecionar o que detém melhor aproveitamento universitário? Deveria ser.

Mas a experiência - ao menos dessas empregadoras - mostra que temos de ser realistas: nossos estudantes universitários têm chegado ao Ensino Superior cada vez com mais déficit dos anos de estudo anteriores. Então, selecionamos aqueles que, pelo menos, cumpririam a base. Deste modo, o nivelamento é por baixo.

Dados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (SAEB) de 2017 mostram que, em matemática, 71,67% dos alunos têm nível insuficiente de aprendizado - 23% estão no nível 0, o mais baixo da escala de proficiência. Em português, 70,88% dos estudantes têm nível insuficiente de aprendizado - 23,9% estão no nível zero, o mais baixo.

Isso significa, em termos práticos, que os estudantes que as universidades estão recebendo não conseguem localizar informações explícitas em artigos de opinião ou em resumos, por exemplo.

Em matemática, a maioria dos estudantes não é capaz de resolver problemas com operações fundamentais com números naturais ou reconhecer o gráfico de função a partir de valores fornecidos em um texto.

A Católica SC, a exemplo de outras instituições de Ensino Superior como a Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), tem feito um trabalho de apoio aos estudantes dos primeiros períodos para preencher estes déficits por meio de assessoramento extraclasse em disciplinas como física, matemática e outras que se utilizam de conhecimentos de base.

Não deveria ser assim, afinal a educação é estruturada de forma seriada. Uma etapa deve ser concluída com sucesso para que uma próxima comece. Como poderíamos exigir que um estudante consiga aprender a trabalhar com funções se nem ao menos tem condições de ler um gráfico? Ou exigir que saiba resolver um problema complexo sem ter proficiência em leitura?

É como um processo produtivo. Em uma cadeia da indústria automobilística não é possível pensar em colocar o pneu sem que a roda já esteja disponível. Como também de nada adianta que a pintura externa esteja perfeita se o motor estiver com algum problema. O sucesso é uma sequência de fases cumpridas com êxito.

No entanto, na educação não lidamos com produtos e sim com pessoas, sonhos e o futuro do Brasil. Não podemos, como na indústria, descartar as pessoas que chegam com alguma falha nos processos anteriores.

Um dos indicadores adotados pelo MEC e levado muito a sério pela Católica SC busca medir a capacidade institucional em desenvolver academicamente o estudante.

Chamado de Indicador de Diferença entre os Desempenhos Observado e Esperado, o IDD é um índice de qualidade que busca mensurar o valor agregado pelo curso ao desenvolvimento dos estudantes concluintes, considerando seus desempenhos no Enade e no Enem, como medida de aproximação das suas características de desenvolvimento ao ingressar no curso de graduação avaliado.

Apesar dos esforços feitos pelos diversos setores públicos, notamos que o estudante ainda não está recebendo a educação que deveria nos níveis corretos.

Faz-se, portanto, necessário adotarmos o IDD como métrica de evolução e qualidade do Ensino Superior. Convido a sociedade e o mercado a identificar uma instituição de qualidade a partir deste índice.