Estamos cada vez mais atentos para questões relacionadas à saúde mental nos dias de hoje. Esse olhar mais cuidadoso estende-se muitas vezes para nossas crianças. Escolas e profissionais de saúde frequentemente encaminham ou sugerem para as famílias que levem seus filhos para terapia.
Quando são crianças muito jovens, muitas vezes pais e cuidadores deduzem que o psicólogo possui algum ferramental que será capaz de melhorar os sintomas ou comportamentos considerados problemáticos em sessões individuais com a criança.
No meu trabalho como psicóloga clínica, recebo pais por vezes surpresos quando informo que o trabalho é com a criança, sim, mas também com a família. Quanto mais nova a criança, mais o trabalho passa pelas sessões familiares. Não é possível compreender um sintoma sem conhecer o contexto em que ele acontece. Por exemplo, se recebo uma demanda de uma criança que está muito agitada, sem conseguir acompanhar os combinados e regras da escola, algumas perguntas são fundamentais. Como é a rotina dessa criança? Ela dorme o suficiente? Como estão seus pais? Como é o ambiente familiar? Existem conflitos na casa? Problemas financeiros ou de saúde? Como é o uso de telas?
Se o sistema familiar precisa ser cuidado nenhuma ação do psicólogo aplicada isoladamente com a criança vai trazer uma mudança significativa. A criança muitas vezes manifesta em comportamentos difíceis aquilo que não consegue expressar de outra forma. Alguns pais recebem meu convite e explicação sobre a configuração do trabalho com certa ressalva. Sentem-se cobrados, como se a terapia pudesse servir para apontar falhas na educação e cuidados.
É de preciso deixar claro que nem de longe é esse o objetivo. Salvo em situações limite, quando existe violência ou qualquer tipo de abuso, pais são adultos com suas próprias questões fazendo seu melhor. É comum que entreguem muito mais dedicação para seus filhos do que aquilo que receberam de sua família de origem. O objetivo da sessão familiar não é culpar ou expor, mas sim entender que dinâmicas contribuem para que a criança esteja agitada (no caso do exemplo acima).
Assim, se você é pai ou mãe e foi chamado para a terapia do seu filho, não se assuste, cuidar do que acontece com a família é cuidar da criança. Mais ainda, o processo pode contribuir não só para uma melhora dos sintomas, como também para um ambiente familiar melhor para todos.