O avanço das fabricantes chinesas no mercado automotivo global já faz parte do planejamento estratégico da Ford. Durante uma reunião interna realizada na última quinta-feira (30), o CEO da montadora, Jim Farley, afirmou que a empresa trabalha com a possibilidade de marcas da China passarem a atuar nos Estados Unidos dentro dos próximos cinco a dez anos.
A declaração foi feita a funcionários da companhia e ocorre em um momento em que o mercado norte-americano mantém rígidas barreiras comerciais para veículos produzidos na China. Mesmo assim, a direção da Ford avalia que a entrada dessas fabricantes no país é apenas uma questão de tempo.
De acordo com informações publicadas pelo Valor Econômico, Farley e outros executivos da empresa discutiram o cenário durante uma sessão de perguntas e respostas. A avaliação predominante é de que esse movimento deve ocorrer mais próximo do prazo máximo estimado, ou seja, dentro de cerca de dez anos.
As declarações coincidem com o debate em andamento no Senado dos Estados Unidos sobre a ampliação das restrições à comercialização de veículos chineses. O mercado norte-americano é considerado um dos mais importantes e lucrativos da indústria automotiva mundial.
Competição com fabricantes chinesas preocupa setor
A preocupação da Ford acompanha o crescimento acelerado das montadoras chinesas em diversos mercados internacionais. Empresas como a BYD vêm ampliando sua presença fora da China e aumentando a concorrência com fabricantes tradicionais.
Jim Farley já havia manifestado, em outras ocasiões, preocupação com a capacidade de inovação e competitividade das empresas chinesas, especialmente no segmento de veículos elétricos.
Em fevereiro deste ano, a Ford anunciou o desenvolvimento de uma nova geração de carros elétricos com preços mais acessíveis. O objetivo é oferecer modelos capazes de competir em custo e eficiência com os produzidos pelas fabricantes chinesas.
A necessidade de enfrentar essa concorrência também foi destacada por Bill Ford, presidente executivo da companhia. Em um evento promovido pela Axios no início deste mês, ele afirmou que a indústria americana precisa disputar espaço com as empresas chinesas em igualdade de condições, em vez de depender apenas de barreiras comerciais.
Restrições continuam em vigor
Atualmente, os Estados Unidos aplicam tarifas de aproximadamente 100% sobre veículos elétricos importados da China. Além disso, o governo americano mantém regras que restringem o uso de determinados softwares e componentes chineses em veículos conectados, alegando preocupações relacionadas à segurança nacional e à proteção de dados.
As restrições ao uso de softwares deverão entrar plenamente em vigor até os veículos do ano-modelo 2027, enquanto as limitações para componentes de hardware têm implementação prevista até o ano-modelo 2030.
Essas medidas foram adotadas em janeiro de 2025 durante o governo de Joe Biden e permaneceram em vigor na administração de Donald Trump.
Ford já enfrenta concorrência chinesa em outros mercados
Embora as fabricantes chinesas ainda não tenham presença significativa no mercado automotivo dos Estados Unidos, a disputa já acontece em outras regiões, especialmente na Europa.

Montadora afirma que o crescimento das empresas chinesas tem elevado o nível de competitividade do setor | Foto: Ford/Divulgação
Nesse cenário, a Ford anunciou recentemente uma joint venture com a chinesa Geely, parceria que recebeu críticas de parte de parlamentares norte-americanos.
A montadora, no entanto, afirma que o crescimento das empresas chinesas tem elevado o nível de competitividade do setor e impulsionado ganhos de eficiência entre os fabricantes tradicionais. Segundo a companhia, esse ambiente competitivo exige operações cada vez mais enxutas e inovadoras para manter espaço no mercado global.