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Depressão sazonal: inverno reacende alerta sobre transtorno que atinge 12,7% dos brasileiros

Foto: Divulgação/Idomed

Por: Elisângela Pezzutti

22/07/2026 - 15:07

Há quem sinta o inverno catarinense muito além do frio na pele. Para uma parcela da população, as sucessivas frentes frias também trazem humor mais baixo, sono em excesso e uma sensação de desânimo que não passa com uma noite bem dormida. Quando esse quadro se repete todos os anos, na mesma época, e gera prejuízo no trabalho, nos relacionamentos ou na rotina, pode não se tratar de uma simples tristeza de inverno e sim de depressão sazonal, um subtipo de transtorno depressivo reconhecido pela psiquiatria.

A depressão já é um dos problemas de saúde pública mais expressivos do país, mesmo fora do inverno. Levantamento do inquérito Covitel 2023, com dados reunidos no Observatório de Saúde Pública e relatados pelo Ministério da Saúde, mostra que 12,7% da população brasileira convive com depressão – entre as mulheres, o índice sobe para 18,1%, contra 6,9% entre os homens. Em comparação internacional, o Brasil também aparece na liderança: segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o país tem a maior prevalência de depressão da América Latina, ficando atrás apenas dos Estados Unidos entre as nações das Américas.

“A depressão sazonal é um subtipo de transtorno depressivo maior ou transtorno bipolar caracterizado por episódios que ocorrem em uma época específica do ano, tipicamente no outono ou no inverno, com remissão completa nas outras estações”, explica o psiquiatra Ian Arantes Pereira, professor do Idomed. Ele diz que o diagnóstico segue os mesmos critérios de qualquer quadro depressivo, mas exige um padrão sazonal comprovado em pelo menos dois anos consecutivos, com desaparecimento total dos sintomas quando a estação termina. “Isso diferencia o quadro clínico de um desânimo comum, que não chega a comprometer o funcionamento da pessoa”, afirma.

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Entre os sinais mais frequentes estão a necessidade aumentada de sono, o humor deprimido, a perda de prazer em atividades antes consideradas agradáveis e a queda de energia. Pereira pondera que a diferença central está no impacto funcional. “A depressão sazonal causa comprometimento funcional significativo no trabalho, nos estudos, na vida social, o que não acontece com uma tristeza comum de inverno.”

Por que o corpo reage assim à falta de sol

A explicação está em mecanismos biológicos, a luz solar funciona como o principal sincronizador do relógio circadiano do corpo humano, e sua redução no outono e no inverno prolonga a frequência de melatonina, hormônio que regula o sono. Segundo Pereira, esse excesso de melatonina tem efeito depressogênico e ainda reduz a produção de serotonina, já que os dois hormônios disputam a mesma matéria-prima, o triptofano. “Pessoas com depressão sazonal têm seus relógios biológicos desalinhados em relação ao ciclo dia-noite externo”, resume o psiquiatra. A isso somam-se mudanças de comportamento típicas da estação como menos atividade ao ar livre, mais isolamento social e queda na prática de exercícios, que reforçam o quadro.

O cenário climático projetado para o inverno catarinense de 2026 combina episódios pontuais de frio intenso, principalmente no início da estação, com um segundo semestre mais úmido e nublado por influência do El Niño, segundo boletins da Epagri/Ciram e da Secretaria de Estado da Proteção e Defesa Civil (SDC/SC). Julho e agosto devem concentrar mais chuva e maior nebulosidade no estado, justamente as condições que mais reduzem a exposição à luz natural durante o dia.

Quem tem mais risco e quando procurar ajuda

Mulheres, jovens entre 18 e 30 anos, pessoas com histórico familiar de depressão sazonal e pessoas que já convivem com outros transtornos psiquiátricos – como os quadros ansiosos – formam os grupos mais suscetíveis, segundo Pereira. Ele alerta que os sintomas não costumam desaparecer sozinhos com o passar dos dias. “Apesar de estarem limitados à estação, as pessoas com quadros sazonais podem permanecer sintomáticas por cerca de 40% do ano”.

A recomendação é buscar avaliação profissional quando o humor deprimido, a perda de interesse, a queda de energia, a baixa autoestima ou o sentimento de culpa passam a interferir na rotina diária. Pensamentos relacionados ao suicídio ou à autoagressão, por sua vez, são sinais de alerta que exigem atendimento imediato. Para familiares e amigos, o psiquiatra sugere uma abordagem cuidadosa: expressar preocupação sem julgamento, citar mudanças específicas percebidas na pessoa, oferecer ajuda prática, como marcar uma consulta ou acompanhar o primeiro atendimento e nunca minimizar o que ela está sentindo.

Hábitos que ajudam a atravessar o inverno

Pequenas mudanças de rotina, segundo o médico, já fazem diferenças óbvias. Caminhar ao ar livre nas primeiras horas do dia, sempre que o tempo permitir, ajuda a regular o padrão de liberação da melatonina, e combinar essa exposição à luz com exercício físico – caminhada, corrida ou pedalada – potencializa o efeito. Manter um horário fixo para dormir e acordar, inclusive nos fins de semana, preservar o ritmo circadiano mesmo quando a motivação está baixa. Sustentar contato social, hobbies e uma rotina estruturada de trabalho, alimentação e lazer também funciona como proteção, mesmo quando o ânimo natural para essas atividades diminui.

Quando o quadro de depressão já está instalado, o tratamento deve ser definido por profissionais, de acordo com a gravidade dos sintomas e o histórico de cada paciente. “O tratamento precisa ser individualizado. A automedicação e a banalização dos sintomas atrasam o início do cuidado e podem agravar o quadro do paciente”, reforça o especialista.

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Elisângela Pezzutti

Graduada em Comunicação Social pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG). Atua na área jornalística há mais de 25 anos, com experiência em reportagem, assessoria de imprensa e edição de textos.