Todo início de ano nos vemos inclinados a revisitar metas antigas, deixar para trás hábitos que não fazem mais sentido, a doar roupas que não usamos, a fechar ciclos e começar tudo de novo com energias renovadas. A partir da ideia que temos 365 dias para reescrever um novo caminho para nossas vidas, e todas as conquistas dependem da estabilidade psicológica, a campanha Janeiro Branco foi idealizada em 2014.

Uma campanha com objetivo de chamar atenção para as questões de saúde mental, em que o “mês branco” alerta para o tema e propõe investir tempo em autocuidado e autoconhecimento para estabelecer na sociedade uma cultura de cuidados físicos e mentais.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é o país que apresenta maior prevalência de depressão na América Latina. É também o país mais ansioso do mundo. E, para profissionais da psiquiatria, a solidão é reconhecida como um gatilho - um impulsor - de transtornos de humor.

A psiquiatra Clarissa Lima, do Hospital São José, nos ajuda a entender um pouco mais sobre o assunto.

Dra. Clarissa Lima

Os casos de pacientes com diagnóstico de doenças relacionadas à saúde mental tem aumentado?

Clarissa – Mais cigarro e bebida alcoólica, mais comida ultraprocessada, mais tempo de televisão e de internet, menos exercício físico, menos horas de sono, menos alimentação saudável: este tem sido, em termos de comportamento, o resultado da pandemia para um número significativo de pessoas.

Segundo uma pesquisa “ConVid Comportamentos”, realizada em parceria pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e coordenada por [Marilisa] Barros na Unicamp: 34% dos fumantes aumentaram o número de cigarros consumidos por dia e 17,6% das pessoas aumentaram o consumo de álcool. E, enquanto o percentual dos que realizavam atividades físicas semanais caiu de 30,4% para 12,6%, houve um aumento médio diário de 1 hora e 45 minutos de consumo de TV e 1 hora e 30 minutos de consumo de computador e tablet durante a pandemia.

Entre as muitas informações providas pelo estudo, uma, especialmente relevante para a definição de políticas públicas, foi que menos de 40% das pessoas com depressão receberam tratamento no ano anterior. E somente 15,4% receberam o tratamento adequado. A renda é o único fator determinante para o acesso ao tratamento: quanto maior a renda, maior o acesso.

O Burnout é uma das doenças que ficou em evidência em 2021 no que diz respeito a saúde mental, como avalia esse aumento da visibilidade da doença e de que forma podemos nos atentar para essa síndrome?

Clarissa – O nome “Burnout” vem da expressão em inglês “burn out”, que significa algo que parou de funcionar por falta de energia. É justamente isso que acontece com o cérebro! Após excessivos e prolongados níveis de stress, a produtividade se esgota. A síndrome foi identificada nos anos 70 e, hoje em dia, é considerada pela Organização Mundial da Saúde como uma das principais doenças dos europeus e norte-americanos, ao lado da diabetes e hipertensão.

Qualquer pessoa está sujeita a sofrer dessa síndrome, sua principal característica é o estado de tensão emocional e estresse crônicos provocado por condições de trabalho físicas, emocionais e psicológicas desgastantes, desta forma, a síndrome se manifesta especialmente em pessoas cuja profissão exige envolvimento interpessoal direto e intenso.

Para os sintomas físicos e doenças desenvolvidas devido à síndrome, o médico pode recomendar uma medicação adequada.

Durante o tratamento, é fundamental que o paciente volte a dormir e se alimentar bem. Entrar em contato com o que antes lhe trazia alegria, como atividades, passeios e exercícios específicos, também ajuda o paciente a relaxar e voltar a se divertir.

O processo de melhora não acontece do dia para noite, mas com paciência e dedicação ao tratamento, é possível voltar a viver normalmente e recuperar seus níveis de produtividade e capacidade profissional.

Como prevenir e quando procurar um médico?

Clarissa – O primeiro passo é procurar um clínico geral, que realizará exames e poderá encaminhá-la para consulta com psicólogo e/ou psiquiatra. Para evitar risco de contaminação pela Covid-19, diversas instituições de saúde estão realizando consultas on-line.

Uma dica importante é procurar o que faz bem. “A OMS define que ter saúde não corresponde somente ao corpo físico, mas também ao bem-estar psíquico, social e espiritual. E muitas vezes nos esquecemos disso, acreditando que saúde é somente ausência de doença.”

Algumas atividades que podem contribuir para aliviar a solidão, angústia ou inquietação:

  • Se conectar com a natureza,
  • Adquirir novos hobbies,
  • Consumir mais arte e cultura mesmo que virtualmente
  • Organizar a rotina com um plano de atividades do dia
  • Separar os espaços de trabalho dos de descanso,
  • Limitar o uso de redes sociais
  • Estabelecer limites para si mesmo, tirar 30 minutos a uma hora por dia para alguma ação de autocuidado
  • Praticar exercícios físicos

Não é preciso mudar tudo de uma só vez. Estabeleça algumas prioridades e procure reconhecer as pequenas conquistas do cotidiano. E caso esteja em sofrimento psíquico, procure por ajuda profissional, afinal, os tratamentos de saúde mental existem para isso.

Dra. Clarissa Lima CRM/SC 8740 - RQE 10.630 - Médica Psiquiatra