Uma medida protetiva emitida pela Justiça tenta garantir a segurança da estilista Jaqueline Kaiser, 32 anos, moradora de Jaraguá do Sul, e que ao mudar-se para Blumenau com o namorado, um programador de 33, passou a viver uma relação que resultou em tortura e espancamento.

Passadas duas semanas das agressões, ela tentar driblar o medo e esquecer as horas de terror que passou na mão do rapaz que conhecia há cerca de um ano. Uma relação iniciada em uma rede social, mas que trouxe consequências negativas e reais para a vida de Jaqueline.

Com a medida protetiva, Jaqueline passou a ser assistida pela Rede Catarina – rede de proteção à mulher promovida pela Polícia Militar. Ela também procurou um advogado e conta com ajuda psicológica.

A história de Jaqueline se diferencia das de milhares de mulheres que sofrem relações abusivas pelo fato de ela usar seu perfil nas redes sociais para informar aos amigos sobre a agressão e ainda lançar uma campanha para que os agressores sejam identificados com nome e foto.

Orientada por um advogado, ela acabou apagando a postagem com a foto do ex-companheiro, mas continua defendendo esta exposição.

Jaque conta que depois de seu desabafo recebeu centenas de depoimentos de mulheres apoiando a iniciativa e relatando também terem sido vítimas de agressões e se sentindo motivadas a relatarem seus dramas. Ela conversou até mesmo com uma ex-companheira do rapaz, que relatou também ter vivido uma relação turbulenta de cinco anos com ele.

"JAMAIS ME KAHLO! OK eu entrei em relacionamento tóxico! Sim ele me bateu! Ele me torturou?? Muitooo! Ele está solto! Eu refém do medo! Tem muita mulher com medo de expor o agressor...Agora pensa bem...se a moda pega de postar o nome a foto dos covardes! Vai ter muito valentão com medo dos olhares tortos no trabalho...dos amigos se afastando...Nós precisamos perder o medo raiz, a vergonha cultural, dessa cultura machista de bater em mulher! Basta eles tem nome...Tem rosto!! Eu perdi o medo!", escreveu no Facebook.

Suspeito parecia carinhoso e preocupado

Jaqueline manteve um namoro à distância durante dez meses, com o rapaz que morava em Blumenau, com encontros aos fins de semana. Com o relacionamento mais sólido, aceitou convite para morar com ele na cidade vizinha, para onde se mudou com a mãe de 59 anos, e a filha, de 6.

Porém,  na convivência diária relata que encontrou uma pessoa com uma personalidade totalmente contrária à que havia conhecido.

Jaqueline diz que no ínicio, ele demonstrava querer um relacionamento sério. Se dizia sozinho, sem amigos, não gostava de sair. Sempre ficava empolgado quando a via e fazia de tudo para agradar.

"Observava muito minha relação com meus amigos e às vezes demonstrava ciúmes. Fingia não interferir nas minhas amizades e na minha vida em Jaraguá do Sul, mas depois me cobrava o fato de eu sair com amigos e ele ficar em casa em Blumenau”, conta.

Depois de algum tempo, quando a visitava em Jaraguá do Sul, chegava alterado pela ingestão de bebidas alcoólicas, era muito quieto e não tinha empatia com o encontro.

“Ele chegava bêbado na sexta-feira, conversava sobre alguma bobagem e ia dormir. No resto do fim de semana, jogava videogame e contava sobre sua semana. Eu chamava ele para sair e ele não queria”, descreve.

Em Blumenau, a personalidade do então noivo mudava completamente. “Ele ia todas as vezes me buscar na rodoviária sempre muito feliz, muito afável. Sempre era mandão e já estava com a programação dos nossos próximos dias pronta. Nunca íamos para algum lugar público", conta.

"Eu sentia que estava vivendo uma rotina com ele. Depois, descobri que ele era usuário de drogas e entendi a agitação. Na casa dele, ele era livre para usar. Na minha não”, revela.

Ela também encontrou caixas de livros e materiais de apologia ao nazismo, sem falar que o suspeito tinha uma suástica tatuada, mas que dizia ser coisa do passado.

Mudança para Blumenau

A vítima conta que o plano do ex-companheiro era casar. A partir dessa ideia, ele começou a falar sobre a ideia de irem morar juntos em Blumenau.

“Com o tempo, ele foi me persuadindo. Estava decepcionada com questões profissionais em Jaraguá. Então, pensei em ir para uma cidade maior para ampliar o meu leque de possibilidades. Decidimos ir morar juntos e alugamos uma casa. Meus amigos acharam repentino, mas eu esperava que minha vida mudasse para melhor”, explica.

Já no primeiro dia, observou algumas mudanças de comportamento. Ela diz que ele se tornou completamente "opressor, machista e misógino".

Suas opiniões já não eram consideradas. As brigas, sempre verbais, se tornaram diárias e cansativas. A estilista começou a temer pela segurança da sua família e, na noite dia 21 de junho, um mês após a mudança para Blumenau, decidiu colocar um ponto final no relacionamento.

“Nós estávamos no quarto. Ele programando e eu explicando que não queria continuar com o relacionamento. Terminei tudo e ele calmamente concordou. Só lembro que virei as costas para ir até o banheiro tomar um banho, senti um golpe nas costas", conta.

Ela acordou horas depois, desorientada, e sem conseguir contar o que havia acontecido. "Minha mãe achou tudo muito estranho. Nunca havia me visto daquela maneira. Ela me contou que ele estava me carregando para fora do quarto e se espantou com a sua presença. De repente, me largou, pegou uma mochila e disse para a minha mãe que já estava indo embora.”

Jaqueline estava com diversas marcas pelo corpo. Chamou a Polícia Militar, mas não conseguiu explicar o que havia ocorrido por cerca de quatro horas. No dia seguinte, não conseguia comer e vomitava com frequência.

No lixo do banheiro, havia uma seringa. Após se recompor, com um encaminhamento dado pela Polícia Militar, procurou o Instituto Geral de Perícias de Blumenau. Lá, ela fez coleta de sangue e urina para análise toxicológica e realizou o exame de corpo de delito.

O legista observou que as marcas corpo contavam todo um enredo de agressão. Ela tinha marcas de espancamento, que foram tecnicamente feitas para não aparentar um espancamento mais grave. Há indícios de que ela teve mãos amarradas e foi posta de joelhos, foi induzida a beber e teve a boca amordaçada.

"Minha mãe estava no quarto do lado. Acho que ele me dopou com alguma droga injetável, pois não tive reação alguma. Foi horrível, perturbador. Vivo assombrada com os flashes do que aconteceu”, lamenta.

A reportagem de O Correio do Povo tentou entrar em contato com o suspeito, mas não obteve retorno.

Reparação só por via judicial

Do ponto de vista legal, a única maneira de buscar uma reparação pelas agressões sofridas é a Justiça. “Em tempos de rede social, quando você é agredido de alguma forma e isso tem contexto criminal, e você expõe o rosto e o nome da pessoa, sem a outra parte, você pode promover um linchamento virtual”, explica o advogado Marco Antônio André.

Ele explica que o direito brasileiro dá margem para a defesa do agressor, que como todos os demais criminosos, deve ser tratado como suspeito até ser investigado e condenado. Segundo ele, até quando a pessoa é condenada pelo Judiciário, o criminoso não pode ser exposto em rede social.

“A condenação pelo crime é aplicada somente ao criminoso. Mesmo se condenado, quando colocamos o rosto dele na rede social, expomos também os pais e outros parentes dele. É preciso tomar cuidado, porque daqui a pouco todos nós podemos nos tornar vítimas desse linchamento virtual”, salienta.

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