Reportagem de Cláudio Costa para o jornal O Correio do Povo. O primeiro inciso do artigo 1º do Código de Trânsito Brasileiro considera como trânsito a “utilização das vias por pessoas, veículos, animais, isolados ou em grupos, conduzidos ou não, para fins de circulação, parada, estacionamento e operação de carga ou descarga”. Da antiguidade até o mundo moderno, a maior parte das atividades do homem passa pelo trânsito, ou seja, ele tem importância vital para as pessoas. Jaraguá do Sul não poderia ter um cenário diferente do resto do país e do mundo. As pessoas vivem e morrem no trânsito da cidade, que tem 0,67 veículo por habitante e uma média de dez acidentes por dia. O tenente da Polícia Militar Antonio Benda da Rocha, responsável pelo setor de trânsito na área do 14º BPM, afirma que o trânsito de Jaraguá do Sul é violento. Segundo ele, essa constatação vem do número de acidentes ocorridos na cidade, que atualmente conta com uma frota de 113.510 veículos. De acordo com a PM, em 2015, foram registrados 3.407 sinistros. Em 2016, houve o registro de 2.980 acidentes. Apesar da queda 12,5% em um ano, o número é alto. “Ainda é um número elevado porque dá uma média nove a 10 eventos por dia”, revela o tenente Benda. Os acidentes de trânsito estão entre as cinco principais causas de morte em Jaraguá do Sul, de acordo com o Sistema de Informações sobre Mortalidade. Em 2016, 15 pessoas perderam a vida no trânsito da cidade. O dado não leva em conta o número de vítimas mortas após internações nos hospitais da cidade, mas é alto. Principalmente quando comparado com o número de homicídios. Em 2016, houve seis assassinatos na cidade, ou seja, nove mortes a menos que em acidentes. tabela acidentes “São números assustadores. A sociedade está perdendo a sensibilidade de se indignar com as mortes no trânsito. Se há um episódio de homicídio, há um certo grau de indignação. Se há uma morte no trânsito, muitas pessoas acham isso quase que natural”, critica o tenente Benda, ao ressaltar que em muitos casos as mortes no trânsito também são criminosas. É natural que a movimentação de pedestres e veículos cause, em algum momento, um conflito no trânsito. De acordo com o tenente da PM, o ideal seria que não houvessem acidentes. Por isso, o grande número de ocorrências na cidade não pode ser ignorado. “Em 2016, houve 838 pessoas feridas em acidentes (contra 927 em 2015). Neste universo, há pessoas com sequelas permanentes e pessoas que poderão vir a óbito meses depois do sinistro”, enfatiza. Falta de consciência prejudica a Sociedade Os prejuízos que envolvem os acidentes de trânsito vão muito além do impacto imediato. Benda destaca que os feridos ocupam espaço nos centros de emergência e leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva), demandando investimento de recursos públicos. No ano passado houve um aumento de 48% no número de internações de vítimas de acidentes com carro no município. Em 2015, os 3.407 acidentes de trânsito contabilizados em Jaraguá do Sul geraram um prejuízo passivo de R$ 24 milhões. As consequências se estendem para o âmbito social. Trabalhadores ficam afastados das empresas e, em muitos casos, parentes precisam se dedicar aos cuida dos dos feridos. Se o trabalhador que sustenta a casa ficar ferido e precisar de cuidados, o fato pode convulsionar todo o sistema familiar. IMG_1243 A maior causa de acidentes é a falta de atenção (72,06%), seguida pela desobediência à sinalização (8,89%) e pela direção sob o efeito de álcool (3,36%). O tenente Benda alerta que os carros são armas, peças de metal que alcançam alta velocidade. “Isso exige que a pessoa redobre a atenção, pois aumenta o risco de um acidente. Hoje, o comportamento humano mudou, as pessoas estão mais aceleradas. O próprio celular deu uma dinâmica diferente para o dia a dia do ser humano. Isso tudo gera uma desatenção no comportamento humano e provoca o acidente”, enfatiza. “O ser humano tem que se adaptar a essa nova realidade e pensar que, se ele relegar aos princípios básicos de segurança, vai causar um acidente”, completa. Segundo o tenente Benda um transito seguro é feito por todas as pessoas. É preciso que o pedestre atravesse a rua na faixa, o motorista respeite ciclistas e pedestres e os motociclistas respeitem as regras básicas de segurança no trânsito. “Todos esses agentes têm que participar de uma forma bastante ativa para que esse ambiente seja efetivamente seguro. O motorista não pode achar que está fazendo certo ao denunciar o local de uma barreira de trânsito, mas sim denunciando uma manobra irregular de um motorista, onde o motorista estacionou o seu veículo de forma irregular. É isso que gente quer, que todo mundo participe da organização do trânsito”, avalia. IMG_1266 Motociclistas são as principais vítimas Os motociclistas são as maiores vítimas dos acidentes de trânsito. Em 2016, sete em cada 10 internações por acidentes de trânsito em Jaraguá envolveram motociclistas. Até novembro do mesmo ano, 181 condutores foram internados com traumas, um recorde. O tenente da PM destaca que a culpa dos acidentes com motocicletas não é apenas dos pilotos, mas também de outros fatores – como o desrespeito aos limites de velocidade e da sinalização de direção por partes dos condutores de automóveis. Benda observa que os motociclistas precisam conduzir as motos como os outros veículos, ou seja, circulando atrás dos automóveis. “Eles convulsionam um pouco o trânsito, porque não conseguem seguir as regras de circulação. Há, por exemplo, multas de R$ 3 mil no caso de ultrapassagem com um veículo trafegando no sentido contrário”, ressalta. O tenente da PM também lembra que muitos condutores não usam roupas e calçados adequados para andar de moto. Esse fator pode diminuir muito o risco de ferimentos em quedas e batidas em outros veículos. “Uma queda, mesmo em baixa velocidade, pode causar ferimentos no joelho, pernas e outros membros”, reforça. Para o tenente da PM, há um fator importante para ser observado quando o assunto é o motociclista: a pressa. “Todo mundo gosta quando a sua pizza chega quentinha em casa ou quando o motociclista traz rapidamente aquela encomenda que a gente pediu. A gente precisa investir no binômio educação e fiscalização. É preciso fiscalizar e gerar campanhas para conscientização das pessoas que ocupam os espaços públicos”, pondera Benda. Fiscalização e educação no trânsito   De acordo com o tenente Benda, uma fiscalização efetiva do trânsito reflete na segurança pública. “Toda a situação de segurança pública passa pelo trânsito. O trânsito é o reflexo de uma ordem ou desordem social”, explica. Para ele, um transito organizado e fiscalizado traz uma percepção maior de segurança. O 14º Batalhão de Polícia Militar investe em fiscalização em Jaraguá do Sul e nos outros municípios da região. “A PM realiza palestras nas empresas, campanhas educativas e tem uma fala importante quando o assunto é o trânsito, multiplicando a mensagem de que é preciso ser responsável no trânsito, que é preciso respeitar as regras de segurança”, observa. Além da questão educativa, a Polícia Militar realiza a prevenção aos acidentes. “Nós realizamos a fiscalização dos veículos com barreiras policiais. Todos os dias, os policias estão autuando e passado de fato a caneta. Não é uma questão de indústria da multa, é uma questão de fiscalização efetiva do comportamento dos motoristas. A multa é sempre resultante de uma infração de trânsito, ou seja, nenhum policial olha para cima e inventa a multa. A multa é resultado de um ato ilícito de trânsito cometido pelo motorista”, enfatiza o tenente da PM. Acidente tirou a vida de jornalista Altamir Ricardo de Souza, 44 anos, foi uma das nove pessoas que morreram no trânsito de Jaraguá do Sul no ano de 2013. O jornalista, servidor concursado que atuava no setor de Comunicação da Prefeitura, foi vítima de uma batida entre dois veículos na rua Reinoldo Rau, no Centro, no dia 16 de dezembro, por volta das 23h45. O motorista que provocou a colisão estava embriagado no momento do acidente. O veículo que provocou a batida estava acima da velocidade permitida, furou o sinal vermelho e atingiu o carro de Altamir. Com o forte impacto causado pela colisão, o jornalista foi arremessado para fora do carro. Ele não resistiu aos ferimentos e morreu na madrugada do dia 17 de dezembro. _EDU4276 Fernanda Lea de Souza Gadotti, 34 anos, irmã de Altamir, sofre com as consequências do acidente. O vazio deixado pela perda do ente querido não será mais preenchido. “Com a família unida, vamos ajudando um ao outro. A minha mãe não gosta mais de comemorar os aniversários, é uma coisa de deixamos de fazer com a perda dele. Altamir era muito próximo da família e caminhava todos os dias com a nossa mãe”, lembra Fernanda. A irmã do jornalista, que também era fotógrafo, lamenta a fatalidade causada por uma série de atitudes graves. Fernanda lembra do irmão como alguém que não cometeria os erros que culminaram na sua morte. “O Altamir era uma pessoa extremamente cuidadosa, metódica, que não consumia bebidas alcoólicas. Ele foi vítima de um acidente causado por três condutas graves. Poderia ser qualquer pessoa no lugar dele, era uma via movimentada”, confidencia, ao ressaltar que Altamir era uma pessoa alegre, que tinha muitos amigos e que era perseverante na realização dos seus sonhos.

ASSISTA ABAIXO UM VÍDEO SOBRE REFLEXÃO NO TRÂNSITO

https://www.youtube.com/watch?v=hhdmRdS0p7Y