O professor de Libras Paulo Sérgio Praxedes do Monte Araújo, de 44 anos, e o marido dele, Carlos Francisco Priprá, de 42, presos por suspeita de estupro de alunos surdos em Jaraguá do Sul, aguardam audiência de custódia.
A Polícia Civil de Santa Catarina prendeu preventivamente os dois homens, suspeitos de abusar sexualmente de pessoas surdas ao longo de vários anos no município. O caso foi divulgado em primeira mão pelo OCP News, após uma das vítimas procurar o jornal acompanhada de sua defesa.
Paulo Sérgio é presidente da Associação de Surdos de Jaraguá do Sul e professor de Libras em escolas municipais e estaduais. Ele e Carlos Francisco foram detidos na noite de quinta-feira (30), no bairro Czerniewicz.
Após a prisão, ambos foram encaminhados ao presídio. A audiência de custódia está prevista para a tarde desta sexta-feira, quando a Justiça deve decidir se as detenções serão mantidas.

Foto: OCP News
Até o momento, ao menos cinco vítimas foram identificadas, todas surdas. Quatro delas já prestaram depoimento à Polícia Civil com o auxílio de intérpretes de Libras.
Os relatos indicam um possível padrão de abusos desde, pelo menos, 2008. Uma das vítimas afirmou ter sido abusada aos 12 anos, quando era aluna de uma escola municipal onde Paulo atuava como professor. Segundo a apuração, os fatos teriam ocorrido no banheiro da instituição, em mais de uma ocasião.
Outra vítima relatou abusos durante um retiro da pastoral de surdos, aos 15 anos. De acordo com o depoimento, Carlos a levou até um quarto e praticou atos libidinosos. Posteriormente, ao reencontrar o casal, Paulo teria afirmado que tinha conhecimento do ocorrido e manifestado interesse em presenciar novos episódios.
Um terceiro denunciante descreveu um caso ocorrido em julho de 2014, durante um deslocamento de carro. Segundo o relato, Carlos teria assediado e constrangido a vítima a atos sexuais durante o trajeto até o Aeroporto de Navegantes. A vítima afirma que os episódios teriam se repetido em eventos da associação até o ano passado.
Também há relatos de episódios em 2016, durante um evento pastoral em Caçador. Na ocasião, Paulo teria isolado vítimas em salas e banheiros para praticar abusos. Carlos também é apontado por ter assediado outras pessoas surdas no alojamento, inclusive durante o sono.
A investigação
De acordo com o delegado Augusto Brandão, da Delegacia da Mulher e da Criança e Adolescente de Jaraguá do Sul, a investigação começou após uma requisição do Ministério Público. A denúncia apontava que pessoas estariam sendo abusadas pelo presidente da associação e pelo companheiro dele.
Segundo Brandão, a apuração avançou de forma cuidadosa porque as vítimas tinham medo de relatar o que ocorria.
“As vítimas tinham verdadeiro temor de falar, de nos trazer o que estava acontecendo, porque os investigados utilizavam intimidação, chantagens emocionais, para que eles não levassem o conhecimento à autoridade”, declarou.
Até o momento, cinco vítimas foram identificadas. Quatro delas foram ouvidas pela Polícia Civil, enquanto uma recusou comparecer à delegacia. Conforme o delegado, os abusos teriam começado há pelo menos nove anos.
Ainda conforme a investigação, os abusos teriam ocorrido em diferentes locais e, segundo a polícia, eram acompanhados de ameaças, chantagens e intimidações para impedir que os fatos chegassem às autoridades.

Foto: Gabriel JR/OCP News
O delegado também relatou que um dos investigados costumava oferecer dinheiro às vítimas. Durante o depoimento de uma das vítimas, segundo Brandão, um dos investigados fez uma chamada de vídeo e pediu desculpas.
“Quando a gente estava tomando depoimento de uma dessas vítimas, ainda na delegacia, um dos investigados fez uma ligação por vídeo e meio que confessou, pediu desculpa, falou que era errado o que ele estava fazendo, demonstrando que tinha ciência do que estava fazendo, que era errado”, relatou o delegado.
A investigação também apontou que algumas vítimas apresentavam maior vulnerabilidade, inclusive por dificuldades de comunicação. Segundo a Polícia Civil, elas procuravam a associação para aprender Libras e receber orientação.
“Algumas dessas vítimas apresentavam uma certa ingenuidade, talvez pelo fato de não saberem comunicar, e são vítimas que procuraram a associação para aprender Libras, ou seja, para serem instruídas. E esses investigados abusaram dessa confiança que foi depositada para a prática desses abusos”, afirmou Brandão.
A Polícia Civil reforça que novas vítimas ou pessoas que tenham conhecimento de casos semelhantes devem procurar a Delegacia da Mulher em Jaraguá do Sul.
“É muito importante, caso alguém tenha conhecimento, seu filho, um parente, uma pessoa próxima tenha sido vítima, tenha ocorrido essa situação, que procure a Delegacia da Mulher aqui em Jaraguá do Sul”, orientou o delegado.
A reportagem do OCP tenta contato com a defesa dos investigados, mas, até o momento, não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.
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