O secretário de Estado da Segurança Pública, Alceu de Oliveira Pinto Júnior, conversou com a reportagem do OCP News sobre os números divulgados pela pasta no início do mês. Os dados apontam redução nos índices de violência e aumento de mortes em confronto com a polícia. Estratégia adotada pelo secretário é reforçar presença ostensiva da polícia com intuito de retomar domínio de áreas conflagradas, para, só então, entrar com ações sociais. Confira a entrevista: LEIA MAIS: por que a violência diminuiu e as mortes em confronto aumentaram Secretário, se os índices de violência reduziram, porque o nível de letalidade policial cresceu 71,4% em três meses de estatística? Alceu de Oliveira Pinto Júnior: A gente tem acompanhado de perto esses números. Não reduziu a atividade policial, aumentou e muito e em decorrência desse aumento foi que a gente conseguiu reduzir alguns índices. Em algumas regiões, aumentou esse resultado de confrontos também, a maioria na Grande Florianópolis, onde temos um perfil de criminosos um pouco diferente. Tem muito mandado para cumprir, e quando chega muito perto das lideranças, desses grupos organizados, acaba existindo o confronto, o policial tem que se defender e tem que defender quem está por perto. O senhor disse que está acompanhando esses números, então, existe alguma perspectiva de reduzir esse índice de letalidade da polícia? Alceu: Já é um número reduzido em decorrência do aumento da operações policiais que estão sendo realizadas, a gente tem trabalhado muito com inteligência pra evitar esse confronto, para pegar a arma no paiol e não na mão do criminoso. Se verificar o número de apreensão de armas, cresceu bastante. Esse trabalho de inteligência fez com que não tivéssemos um número maior de mortes em confronto. O MP manifestou preocupação com o aumento de mortes em confronto, não só em relação às circunstâncias das ocorrências, mas pela saúde desses policiais, uma vez que a morte não deveria ser naturalizada. Os policiais recebem algum tipo de acompanhamento psicológico? Alceu: Existe um cuidado de fazer o acompanhamento não só dos que se envolvem em morte em confronto, mas os que estão envolvidos em operações mais complexas. Os que estão no meio dos faccionados (em investigações) também recebem esse acompanhamento. Moradores da Vila União, uma das comunidades mais vulneráveis de Florianópolis, ouvidos pela reportagem, relataram episódios de violência policial durante abordagens e reclamaram da falta de canal para denunciar. O Estado está preparado para receber esse tipo de denúncia? Alceu: Toda denúncia ou informação que houver de algum procedimento que foi executado de forma inadequada será apurado de forma imediata. Claro que, pode existir o medo, mas, tenho certeza de que o medo do criminoso é maior ainda. Nas instituições públicas tem onde procurar: polícias, Secretaria de Segurança Pública e Ministério Público. A população não tem que ter medo da polícia, tem que ter medo do criminoso, pois é sobre esse que não se tem o controle. Por que a estratégia do Estado é entrar nas comunidades vulneráveis primeiro com a ação policial para depois reforçar as ações sociais e políticas públicas de saúde e educação? As duas coisas não podem andar juntas?  Alceu: É porque não tem espaço no momento. Em algumas comunidades, não tem como entrar com o braço social se há o crime organizado. Ele (o líder da facção), acaba ditando quem pode participar das aulas e das atividades. Então, é preciso, primeiro, desempoderar essas lideranças criminosas, para que, depois, as lideranças legítimas possam gerenciar as atividades sociais. Tem que deixar a comunidade em condições de se autogerir e não ser gerida pelas lideranças criminosas. Em Florianópolis e Joinville já está dando certo. Há locais em que já é possível entrar com a assistência social. A Vila União é uma das comunidades que está pacificada, mas ainda não viu os efeitos dessas ações sociais. Qual é o prazo para colocar a segunda etapa do plano em prática? Alceu: A partir do momento que identifica que aquela comunidade já pode ser objeto de assistência social, não gerando risco para quem vai praticar a atividade e nem para quem vai direcionar a atividade, imediatamente já podem ser desencadeados os programas do Estado junto com os municípios. O senhor acredita que até o final do ano veremos alguma mudança? Alceu: Já pode ir na Vila União, na Comunidade do Siri, você vê a diferença. O Norte da Ilha do ano passado e deste ano já apresenta outra característica. A gente colocou dezenas de jovens dentro da Acadepol, coisa que não se pensava antes, agora, a comunidade está segura para participar. * A reportagem esteve na Vila União há duas semanas e percebeu que a comunidade está vivendo momentos de paz. No entanto, nenhuma ação social foi implementada até o momento. Quatro dos cinco espaços públicos estavam desativados e abandonados. A promessa do Município é de revigorar pelo menos um espaço danificado para retomar as atividades de contraturno escolar.  LEIA MAIS: Por que a violência diminuiu e as mortes em confronto continuam aumentando “O confronto não é algo desejado”, defende comandante da Polícia Militar “Não existe segurança pública só com polícia”, defende presidente da Anaspra “O Estado só aparece quando é para meter o pé na porta”, critica defensora Radiografia da Vila União, uma comunidade esquecida pelo poder público Moradores desconfiam da segurança pública e temem retomada de facções Intervenção policial antes de ação social é a estratégia adotada pelo Estado