Novos relatos de vítimas do técnico Joares Sérgio Silvano, 45 anos, chegaram ao jornal O Correio do Povo. Nesta quarta-feira (27), três homens, com idades entre 19 e 33 anos, contaram sobre os abusos e estupros de vulnerável cometidos pelo treinador.

Dois deles revelam que os assédios e as ameaças saíam do campo de futebol e continuavam na Escola de Educação Básica Julius Karsten, onde Joares dava aulas nas disciplinas de física, matemática e educação física.

Uma das vítimas, de 27 anos, conta que sofreu abusos quando tinha entre 15 e 16 anos. O então adolescente era um dos alunos de Joares em um projeto mantido em um campo no bairro Rau e na Sociedade Acaraí.

Os crimes ocorriam nos vestiários e repetidas vezes, mas sempre escondido dos demais atletas. Sob as ameaças do técnico, ele acabava se submetendo às investidas.

“Ele sempre esperava entrar no vestiário para passar a mão em mim e fazer sexo oral. Eu sempre tentava me esquivar, mas ele acabou fazendo algumas vezes porque me ameaçou. Ele me ameaçava de não me levar para Florianópolis para eu poder jogar nos campeonatos. Se caso eu contasse para alguém, ele dizia que iria me reprovar, que tinha muita influência dentro da escola para me reprovar”, revela.

Para evitar uma confusão maior, já que o seu pai era um dos membros da Associação de Pais e Professores, a vítima não contou sobre os atos praticados pelo treinador na época. Ainda adolescente, passou por psicólogos para poder superar as marcas deixadas pelos estupros de vulnerável.

Tirado do time

Outro homem, de 33 anos, ainda lembra do assédio cometido pelo treinador há aproximadamente 20 anos. Ele ingressou na escolinha mantida por Joares quando tinha 11 anos.

Durante as investidas, o técnico pedia para pegar nos órgãos genitais do menino. Por não concordar com os assédios, foi tirado do time, mesmo sendo superior tecnicamente. Acabou saindo da escolinha de futebol para não sofrer represálias na escola.

“Na época, ele era professor na escolinha e no colégio. Quase todo mundo que estava na escolinha de futebol era aluno na escola também. Quem não aceitava as opções dele, era tratado de uma maneira diferente, tinha treinamentos mais puxados. Eu me sentia injustiçado. Se eu fizesse algo, ele me prejudicaria na escola, pois ele me dava aulas de física e matemática. Para não ser prejudicado, acabei saindo da escolinha”, relembra.

O atleta acabou indo para outra escolinha de futebol, mas a perseguição de Joares não acabou. Como represália, o técnico acabou “queimando o filme” do garoto para o outro treinador.

Ele foi taxado de indisciplinado, alguém que não respeitava o treinador. “Quando vi a foto dele, me deu um baque. Isso me prejudicou muito. Hoje eu poderia ser um jogador de futebol”, lamenta.

Cicatriz para a vida toda

Vítima mais recente do treinador, o rapaz de 19 anos conta que treinou no Centro de Treinamento Falcão 12. Quando tinha apenas 10 anos, foi vítima dos abusos sexuais praticados pelo treinador. Ele afirma que nunca contou para o pai sobre os atos cometidos por Joares.

O jovem conta que chegou a questionar sua sexualidade, mas a maturidade o fez perceber que foi mais uma vítima do abusador.

“Tudo começou com brincadeiras de lutar no vestiário do Sesc e ali ele se aproveitava. Depois ele começou a pedir para colocar a mão em algum lugar por 10 segundos. Com o tempo, isso foi aumentando. Quando os treinos aconteceram no Marista, as coisas aconteciam em uma sala onde eram guardadas as bolas e equipamentos. Ele sempre pedia ajuda para pegar os cones. Eu cheguei a ganhar bolsas para colocar chuteiras, ganhei calção térmico, chuteiras. Ele também prometia titularidade em campeonatos”, explica.

Depois de um ano, os abusos ficaram cada vez mais frequentes e acabaram fazendo com que o garoto repudiasse aqueles atos. Ficou difícil até mesmo olhar para o técnico, sempre muito bem relacionado com os pais dos meninos que treinava.

“Eu não conseguia mais ver aquela pessoa, eu fiquei meio que traumatizado. Depois, você vai crescendo e vai se perguntando o que aconteceu. São marcas que ficam para vida inteira. Numa fase, quando eu tinha 12 anos, não conseguia nem pegar numa criança achando que estava fazendo algo errado”, analisa.

Denúncias

As investigações que culminaram na prisão do treinador começaram em fevereiro, após dois pais de vítimas procurarem a Polícia Civil. Oito vítimas foram identificadas pela Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente e à Mulher e ao Idoso (DPCAMI) de Jaraguá do Sul.

As vítimas já procuraram outras delegacias da região para relatar os abusos. Os crimes só prescrevem 20 anos após a vítima completar 18 anos. A delegada titular da delegacia especializada, Cláudia Cristiane Gonçalves de Lima, afirma que novos relatos servem para reforçar o perfil do técnico.

Joares foi preso na manhã desta segunda-feira (25), no campo em que dava aula. Um mandado de prisão preventiva foi expedido pela Justiça e outro de busca e apreensão foi cumprido na casa em que ele mora com os pais, no bairro Rau. O técnico está preso no Presídio Regional de Jaraguá do Sul.

 

Quer receber as notícias no WhatsApp?