Extrovertido, amigo, companheiro e carinhoso. Esses são alguns dos adjetivos que foram utilizados para descrever o agricultor Evandro Schwirkowsky, de 23 anos. Nascido em Corupá, município de aproximadamente 15 mil habitantes no Norte de Santa Catarina, ele foi criado pelos avós e levava uma vida simples.

Quis o destino fazer com que Evandro estivesse na também na pequena Brumadinho, em Minas Gerais, no dia 25 de janeiro, quando ocorreu o rompimento da barragem de rejeitos de minério da empresa Vale na mina Córrego do Feijão. O corupaense sairia de lá no dia seguinte para encontrar o namorado.

 

 

O jovem morava desde 2014 com o companheiro, o garçom Edemilson de Jesus Silva, 34 anos, em um sítio dos avós na localidade de Rio Paulo Pequeno, em Corupá.

Eles haviam se conhecido pela internet no ano anterior e, após um tempo se relacionando a distância, o namorado largou o emprego em um supermercado em Florianópolis e foi morar com o Evandro.

Eles criavam animais e cuidavam da plantação de bananas e flores, mas veio a crise e Edemilson decidiu voltar para a capital do estado.

“A crise da banana estava complicada e nosso carro estava quebrado. Então, eu decidi ir no dia 27 de dezembro de 2018 para Florianópolis. Eu fui trabalhar na temporada enquanto ele cuidava dos animais e das plantas. Então, a coisa começou a ficar feia por lá. Ele estava sozinho naquele lugar", conta o companheiro do jovem desaparecido.

"A família dele diz que não tem preconceito da opção sexual dele, mas tem sim. Todos, menos os avós, fizeram pressão para ele sair de lá. Então, e eu falei para a gente ir para Salvador. Disse para ele vender algumas coisas e vir pra Floripa. No dia 4 de janeiro, nós fomos para Salvador de avião”, lembra.

Edemilson já conhecia Salvador, tinha amigos na cidade e conseguiu um emprego como garçom. Apesar disso, Evandro não se adaptou à capital baiana.

Evandro e o companheiro Edemilson | Foto Reprodução/Redes Sociais

Mesmo com vontade de conhecer a cidade pelas praias e o movimento, o rapaz do interior de Santa Catarina tinha muito medo da violência, principalmente de sair e ser vítima de um assalto, segundo relata o namorado.

“Nós achávamos o interior de Minas Gerais muito bonito. Evandro viajou para Brumadinho no dia 20 de janeiro. Ele saiu cedinho de casa e disse que ficaria três ou quatro dias para conhecer ou até conseguir um emprego", recorda.

"No dia 25, eu perguntei onde ele estava. Ele disse que estava em Brumadinho, perto de uma pousada e de um trilho de trem. Disse para mim que iria descansar, ir a um córrego para pegar água. Ele falou que iria retornar as mensagens, mas não disse mais nada”, descreve.

Material genético

Após saber do rompimento da barragem, Edemilson decidiu procurar a Polícia Civil e a Defesa Civil de Minas Gerais para comunicar o desaparecimento do companheiro.

Peritos do Instituto Geral de Perícias de Santa Catarina foram contatados na última quarta-feira (6) pela Polícia Técnico-Científica de Minas Gerais, para realizar coleta de material genético em familiares e pertences pessoais da possível vítima do desastre ambiental, que já contabiliza 165 mortes.

A família confirmou aos peritos que Evandro Schwirkowsky está desaparecido desde a tragédia. Além de material genético dos familiares, pertences pessoais como escova de dentes e roupas também foram coletadas.

O material está sendo encaminhado para o Instituto de Análises Forenses de Florianópolis, onde será feita a extração das amostras para obtenção do perfil genético. O exame deve ficar pronto em aproximadamente 15 dias.

Após, as informações serão mandadas às equipes de Minas Gerais, onde será feito o confronto com o DNA já coletado da vítima. O IGP não soube confirmar se algum dos cadáveres encontrados será submetido ao teste de comparação do DNA ou se a amostra ficará no banco de dados.

Família nega preconceito

A família não tinha contato com Evandro desde o dia em que foi para Florianópolis. Só souberam que ele estava desaparecido quando os agentes do Instituto Geral de Perícias apareceram para colher o material genético.

“Ele comentou uma vez que queria muito conhecer o interior de Minas Gerais, mas a gente não fazia ideia de que ele poderia estar lá. Pensávamos que os dois estavam em Florianópolis, como das outras vezes”, afirma o tio de Evandro, José Avelino, 70 anos.

Os parentes do corupaense negam que tinham preconceito contra o casal homossexual. “Ninguém se metia na vida deles. Eles ficavam lá no lugar deles e a gente no nosso”, comenta o tio.

 

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