No mês de agosto de 2018, um casal e seus dois filhos se mudaram para uma casa alugada em Ubatuba, no litoral norte de São Paulo.

Antes de alugarem a casa, os futuros moradores foram informados que a proprietária da casa estava desaparecida desde 2013. Inicialmente, a família achou estanho, mas acabou alugando o imóvel mesmo assim.

“Achei estranho e não gostei muito. Mas a corretora insistia muito, porque acho que ninguém queria morar ali”, comenta a mulher.

A dona da casa tinha 62 anos de idade quando desapareceu. A polícia investigou, mas o caso não desvendado.

“A princípio, a gente até pensou que ela estivesse viva em algum lugar e perdida”, relembra o homem.

Nos primeiros meses na casa, os filhos do casal faziam piada sobre a proprietária estar enterrada no quintal da casa. Porém, eles não imaginavam que isso poderia ser realmente verdade.

Em janeiro desse ano, a família descobriu que os filhos estavam certos. O pai e o filho mais velho estavam arrumando o jardim quando viram um tecido enterrado. Antes de perceberem que se tratava de ossos, pai e filho acharam que era um simples pedaço de pano deixado no local anos atrás.

“Mas puxei e vi que era algo pesado”, diz o homem.

Eles continuaram cavando até que desvendaram o mistério. Eles encontraram um edredom enterrado, pegaram um em cada ponta e tiraram do buraco, a surpresa veio assim que toda a ossada saiu de dentro do edredom.

"Na hora, falei: 'achamos a dona da casa'. Fiquei sem reação. Foi horrível, você não quer acreditar que aquilo está acontecendo contigo. Parece que o tempo congela. Passa um milhão de coisas na cabeça. Perde o chão", complementou.

A descoberta deixou a família muito assustada e levou à reabertura da investigação. A polícia foi chamada e a imobiliária comunicou aos parentes da proprietária o que havia acontecido.

A senhora foi reconhecida porque junto à ossada tinha uma prótese metálica para a coluna que a idosa usava desde que passou por uma cirurgia, segundo uma amiga. Depois, uma análise da arcada dentária confirmou que era realmente a antiga dona da casa.

Para a família que foi morar no imóvel, foi bem difícil lidar com o fato de que uma mulher tinha sido enterrada no jardim da casa onde eles estavam morando.

"Ficamos bem assustados, mas vamos seguindo, trabalhando e na correria da vida vamos levando", disse o homem.

A investigação do crime

De acordo com a polícia, até então não havia suspeita de que a mulher pudesse estar enterrada no quintal da própria casa.

O casal acredita que se não tivessem feito a mudança no jardim, nunca teriam encontrado os restos mortais da idosa.

Foi instaurando um inquérito sobre o material encontrado e desarquivado o inquérito sobre o desaparecimento, aberto em 2013. Agora os dois procedimentos passaram a ser conduzidos juntos.

Desaparecimento

A idosa era professora aposentada e desapareceu em agosto de 2013. Os vizinhos estranharam o sumiço, não conseguiam contato com Luzia e resolveram acionar a polícia.

Uma das pistas encontradas na época foi o carro da idosa, localizado em outro bairro da cidade. O veículo tinha sido abandonado após um batida e estava com alguns objetos pessoais dela.

No Facebook vários amigos comentavam sobre o desaparecimento

"Cadê você?", escreveu uma mulher.

"Outra amiga comentou sobre a saudade da professora aposentada."

"Onde quer que você esteja, muita paz. Olhe por nós", escreveu.

"Muitas saudades. Uma amiga inesquecível. Alguém teria alguma notícia dela?", perguntou outra mulher.

Em janeiro de 2020, o Ministério Público pediu o arquivamento do inquérito porque não havia, até então, vestígios materiais que permitissem inferir com segurança que ela teria sido alvo de um ataque.

Ninguém foi preso e o desaparecimento seguiu como um mistério até janeiro passado. Após a localização da ossada, o Ministério Público pediu o desarquivamento da investigação e novas testemunhas foram ouvidas.

"Depois que o corpo foi encontrado, foi possível esclarecer mais coisas", diz o delegado Bruno de Azevedo Aragão, responsável atualmente pela investigação.

"Havia a esperança de identificar que ela foi vítima de estrangulamento, porque normalmente há fratura no pescoço. Mas a perícia não conseguiu chegar a essa conclusão, por causa da esqueletização (fase avançada da decomposição dos restos mortais)", diz o delegado.

"Como não foi detectada marca de bala ou faca, eu ainda acredito em estrangulamento. Porém, não é um diagnóstico fechado, até porque não conseguimos isso com a perícia por conta do tempo (que ela permaneceu enterrada)", acrescenta Aragão.

A ossada foi encaminhada para os familiares e ela foi cremada. Por meio de um advogado, os familiares informaram à BBC News que têm acompanhado a investigação e acreditam que logo haverá punição a quem cometeu o crime.

Até o momento, a polícia não sabe se o crime foi praticado por uma única pessoa ou se envolveu mais gente. A previsão é de que a investigação seja concluída em, aproximadamente, um mês. O delegado diz que pretende então esclarecer os detalhes do crime e indiciar os envolvidos.

* Contém, informações do Uol e BBC News Brasil.