Com a colaboração de Windson Prado

O Exército não tinha conhecimento da produção de peças para mísseis em uma empresa de Jaraguá do Sul. A informação foi confirmada pelo comandante do 62º Batalhão de Infantaria (62º BI), localizado em Joinville, tenente-coronel Reinaldo Sótão Calderaro, durante entrevista à reportagem da Rede OCP News.

A seção responsável pela fiscalização da produção de armamentos da unidade esteve na Belmec Indústria Mecânica no início desta semana para verificar a produção de materiais bélicos, seguindo denúncia inicialmente feita à Polícia Militar (PM).

A Belmec presta serviço para AEQ Aeroespacial, Química e Defesa, com fábrica em Curitiba, que tem atividades autorizadas pelo Exército e certificadas pelo Comando-geral de Tecnologia Aeroespacial, órgão subordinado ao Ministério da Defesa.

O comandante explicou que o 62º Batalhão de Infantaria abriu um processo administrativo após a inspeção no local feita em conjunto com a Polícia Militar. O objetivo é apurar porque a empresa, terceirizada, estava produzindo as peças de uma arma bélica sem autorização das Forças Armadas.

Foto Divulgação

O trabalho de fiscalização da produção de armamentos, segundo o oficial, é do Exército. O 62º BI e é regulamentado pelo decreto número 3.665, de 20 de novembro de 2000.

O batalhão, sediado em Joinville, fiscaliza 190 pessoas jurídicas e 1.200 pessoas físicas que trabalham com a fabricação de armas em 19 municípios que integram sua área de atuação, incluindo Jaraguá do Sul e Joinville.

“Essa empresa não estava sendo fiscalizada, mas presta serviço para a empresa de Curitiba, a qual está sob o controle do Exército. Todas as empresas têm que ter um certificado e um título de registro, seja elas terceirizadas ou não. Essas autorizações dão limites para as empresas produzirem, transportarem armas e etecetera”, comenta.

O tenente-coronel explica que durante a inspeção foi verificado que a empresa estava operando fora dos parâmetros de fabricação de armamentos exigido pelo Exército.

Então, os técnicos da Seção de Produtos Controlados do 62º BI, que cuida da fiscalização dos fabricantes, vão, em um trabalho conjunto com o Exército em Curitiba, analisar os processos que estão sendo utilizados pela Belmec.

“A nossa equipe está verificando os procedimentos que estavam errados, para que a empresa ajuste e seja responsabilizada. Eventualmente, ela pode ser advertida, punida ou sofrer algum tipo de sanção no sentido de adequar-se aos procedimentos”, adianta.

Carcaças de aço blindado

As três peças inicialmente identificadas como parte de mísseis são, na verdade, carcaças de aço blindado usadas na fabricação de protótipos de bombas de fragmentação aéreas.

Elas são largadas do ar e, quando caem, soltam dezenas ou mesmo centenas de bombas menores. A área que esse tipo de arma costuma atingir é extensa, equivalente a vários campos de futebol.

Foto Divulgação

Em consulta ao site da AEQ Aeroespacial, Química e Defesa é possível ver o catálogo de armas fabricadas pela empresa. Há pelo menos quatro tamanhos dessas bombas, com um alcance letal em uma área que varia entre 15 mil e 75 mil metros quadrados.

De acordo com o comandante do 62º BI, a Belmec fabrica apenas as carcaças dos equipamentos, ou seja, estão inertes e não oferecem riscos para a população.

“Eles estão na fase industrial de fabricação. São estruturas metálicas inertes e sem explosivos dentro, não existe o inicializador do explosivo. É apenas uma carcaça que um dia vai virar uma bomba de fragmentação aérea”, explica o tenente-coronel, ao apontar que não é possível dar mais detalhes por conta da necessidade de sigilo do processo.

O tenente-coronel frisa que a ação de investigação está sendo concentrada no Exército em Curitiba, mas conta com o apoio do 62º BI para gerenciar a questão em Jaraguá do Sul. As munições estão no estágio final de usinagem e serão remetidas para a capital paranaense.

A Seção de Produtos Controlados em Curitiba vai acompanhar a finalização da produção desses armamentos e enviar para os técnicos do 62º Batalhão de Infantaria as especificações para ajustar o que for necessário na produção da fábrica em Jaraguá do Sul.

As peças estavam na Belmec para um processo chamado usinagem fina, quando passam por uma máquina grande.

O oficial do Exército reitera que essa carcaça ainda será colocada em uma linha de produção para a instalação dos outros itens que formam essa munição. Calderaro informa que o processo não apresenta riscos para a população.

“Não existe nenhum risco, não existiu e nunca existirá. O Exército tem feito diversas operações com o intuito de fiscalizar todas as áreas, que abrange também a fabricação e a venda de armamentos. Só neste ano, nós fizemos cinco operações de fiscalização de produtos controlados. São ações nacionais que têm a fundição do material recolhido aqui na cidade”, salienta, ao recomendar que denúncias podem ser feitas diretamente à PM, que faz a ponte com as Forças Armadas.

A reportagem fez contato com a responsável pelo setor financeiro da Belmec, mas a empresa prefere não se manifestar sobre o assunto.

As informações são de que em Jaraguá do Sul cinco empresas estariam atuando na fabricação de peças para mísseis. O dono de uma destas empresas disse que por força de contrato de confidencialidade não pode dar informações.

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