Por Verônica Lemus e Patricia Moraes Autor de denúncia à Câmara de Vereadores, o ex-diretor administrativo da Casa, Gleison da Silva Collares, confirma que destinou parte de seu salário a Arlindo Rincos (PSD) pela indicação ao cargo comissionado. Em entrevista concedida ontem à reportagem do OCP, o ex-servidor manteve as afirmações que levaram à abertura de uma Comissão Processante para apuração do caso. A denúncia de Collares chegou à Câmara em forma de carta, assinada e com firma reconhecida em cartório, segundo destacou o presidente da Câmara, Pedro Garcia (PMDB), durante sessão legislativa que deu início à abertura do processo. A carta do ex-diretor foi a segunda enviada ao Legislativo. O primeiro documento afirmava que vereadores praticavam a cobrança de parte dos salários, entre eles Arlindo Rincos. A primeira carta era anônima. Porém, a segunda foi assinada por Collares, confirmando a prática da cobrança por parte de Rincos, mas indicando que não poderia fazer afirmações quanto a outros parlamentares. Collares atuou como diretor administrativo no ano passado, sendo nomeado pelo então presidente da Casa, José de Ávila, no dia 28 de janeiro de 2016. Ele foi e exonerado pela atual legislatura, em 26 de janeiro deste ano. Ontem, o ex-servidor contou mais sobre o caso. Cobrança teria começado durante negociação de cargos Segundo afirma Collares, a cobrança teria começado em meio às negociações dos cargos comissionados, que são ocupados por indicações políticas. “Quem sabe se tu virar diretor tu me ajuda com X (reais)”, teria dito Arlindo Rincos, pedido com o qual Collares acabou concordando. “Depois foi duas vezes (o valor), e depois já estava lá em três vezes, e se não for, tá na rua”, comenta o ex-diretor sobre como foram as cobranças durante o período. Ele também afirma que o dinheiro era repassado em dinheiro ao próprio vereador e não ao partido – como uma forma de contribuição partidária. Collares afirma que era bastante clara a condição: não destinar parte do salário a Rincos resultaria na demissão do cargo. Em relação aos valores, o ex-diretor conta que o montante final chegava a três vezes o valor cobrado inicialmente (que o ex-servidor preferiu não divulgar), contabilizando outros gastos. “Com tudo dava isso, porque assim, a gasolina era do nosso bolso, ele mandava fazer alguma coisa, tinha que fazer. ‘Ah não, estou indo pra casa’, que eu moro no João Pessoa, ‘não, não, tu vai lá no Ribeirão Cavalo fazer tal coisa’”, relatou. Atualmente professor estadual, Collares diz ainda que o valor pago a Rincos chega a ser mais do que ganha hoje na função. O ex-diretor permaneceu um ano no cargo e disse que decidiu não continuar como servidor da Câmara por conta do que teria acontecido. Questionado se chegou a manifestar ao parlamentar que não queria dar o dinheiro, Collares afirmou: “Manifestar, vou ser bem sincero que não. Sabe quando não existe (a possibilidade)? ‘Ou dá ou acho outro pra dar’, era muito claro isso”. Collares diz que não chegou a haver uma briga entre ele e Rincos, mas que teria havido um rompimento de sua parte. “O pessoal da Câmara sabia (do rompimento) porque eu dizia ‘olha, esse cara não apoio mais, não tem’”, relatou o ex-diretor, afirmando ainda que outros vereadores também saberiam do seu rompimento, entre eles Zé da Farmácia. “Tanto é que no final ali eu tinha medo, de repente, de depois da eleição ser demitido. O Zé disse: ‘Não, teu trabalho aqui dentro é impecável, nenhum vereador nunca reclamou nada, eu te mantenho’”, afirmou o ex-servidor. A cobrança de parte do salário de assessores é uma prática dentro da Câmara, diz Collares, a partir de comentários que teria ouvido. “Nada oficial, nada que eu possa dizer quem foi, mas se sabia disso. Até porque acho que se não fosse da prática de outros isso não se desenvolveria”, comentou. O ex-diretor nega que a denúncia seria parte de uma perseguição política contra Rincos, por ser da oposição, e afirma que não tem ligações com o atual governo. O objetivo da denúncia, diz Collares, é coibir a prática da cobrança, à qual diz que moralmente não poder ser conivente. “Decidi ganhar muito menos do que ganhava antes, mas prefiro pelo menos manter a verdade, botar a cabeça no travesseiro e estar tranquilo comigo mesmo”, declara. Arlindo Rincos diz que tem total interesse em esclarecer acusações Em nota oficial, divulgada no fim da tarde de ontem em sua rede social, Arlindo Rincos diz que tem “total interesse na elucidação das acusações” e informa que até o momento vem tomando conhecimento do caso através da imprensa. “Tendo tomado conhecimento através dos meios de comunicação da denúncia formalizada perante a Câmara de Vereadores de Jaraguá do Sul, torno público o meu total interesse na elucidação das acusações que recaem contra mim”. “Embora, até o presente momento, não tenha sido intimado para apresentar defesa ou prestar esclarecimentos, afirmo, antecipadamente, não ter dúvidas de que as provas que serão produzidas no decorrer das investigações comprovarão a retidão dos atos que pratiquei no mandato anterior”, diz Rincos em nota. A reportagem do OCP tentou contato ao telefone, mas não foi atendida pelo vereador. Denúncia semelhante foi feita em 2015, mas abertura de comissão foi negada Em 2015, o então vereador Jocimar de Lima (PSDC) também foi alvo de acusações de que ficaria com parte do salário de seus assessores. Junto à representação contendo a denúncia protocolada em novembro daquele ano na Casa, foram anexadas cópias de dois cheques de um ex-funcionário, nos valores de R$ 500 e outro de R$ 3 mil, com data de 2014. O dinheiro teria sido cobrado pelo vereador a título de contribuição partidária. Na época, pelo voto da maioria dos vereadores – entre eles Arlindo Rincos (PSD) –, foi negada a abertura de comissão processante para investigar a denúncia. Um dos argumentos dos vereadores na época foi de que o caso já estava sendo investigado pela Polícia Civil.