“Eu percebi quando acordei. Parece que eu voltei para o meu corpo e consegui ter noção das coisas. Eu lembro que, quando deitei, eu estava bem alcoolizada.

Quando eu acordei, já estava de dia e as meninas tinham ido embora lá pelas 2 horas da madrugada. Isso era umas 7 horas, eu estava sem roupa e ele, também.

Ele estava no ato, no momento da penetração. E foi ali que acordei. No susto, eu não sabia o que eu fazia.

Dei um grito e ele me perguntou se eu estava gostando. Eu disse com certeza que não e ele queria continuar."

Depois, de empurrar o agressor, a vítima foi ao banheiro e bastante desorientada pegou suas coisas e saiu da casa do rapaz, como se nada tivesse acontecido.

"Porém, eu não consigo saber como cheguei no ponto de ônibus. Eu não consigo explicar o que eu estava sentindo”, conta a jovem de 20 anos, vítima de um estupro ocorrido em Jaraguá do Sul.

Homossexual, ela mora com os pais, cursa o ensino superior e trabalha em uma empresa há um ano e quatro meses. O crime que ela descreve ocorreu no dia 21 de junho, em um apartamento no bairro Czerniewicz.

No local, mora J.L., 32 anos, o rapaz que segundo ela a estuprou. Segundo a garota, ele sabia da sua sexualidade e que ela não se relaciona com homens.

“Eu sou homossexual assumida", conta. "Meus pais sabem, todos sabem e ele também sabia”, destaca a jovem. O boletim de ocorrência sobre o crime foi registrado na Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso, que investiga o caso.

O crime também motivou um protesto organizado pela União Brasileira de Mulheres (UBM) em Jaraguá do Sul, no dia 25 de junho, que reuniu centenas de mulheres na praça Angelo Piazera.

O dia antes do crime

Ela recorda que havia encontrado três amigas para conversar e beber vinho no dia que antecedeu o estupro. Foram até um supermercado para comprar a bebida e, após o fim da primeira garrafa, uma amiga comprou mais duas garrafas.

O plano era que as quatro fossem até a casa de uma delas para continuar o papo e fumar narguilé. Quando chegaram na residência, o plano foi abortado.

Então, as quatro decidiram ir até um posto de combustíveis localizado na rua Presidente Epitácio Pessoa, no Centro. Lá, encontraram o suspeito de cometer o abuso. Uma das garotas disse que elas tinham o aparato para fumar e ele prontamente ofereceu a casa.

As quatro amigas e outros dois rapazes foram para o apartamento. “Mas eu já havia bebido, misturado outras bebidas. Quando chegamos na casa dele, passei mal e vomitei", conta.

"Depois, sentei em um sofazinho e dormi. Minha amiga sugeriu que eu fosse dormir na cama. Eu apaguei, acordei na hora que elas estavam indo embora, dei tchau e apaguei novamente”, emenda.

“Se pessoas que me conhecem e são próximas a mim estivessem lá, não teria acontecido. Agora, se estivessem os dois amigos dele, talvez tivesse acontecido algo pior. Ele se aproveitou do fato de eu estar ali apagada praticamente sem poder fazer nada. Ele se aproveitou da situação. Eu não sei o que passou na cabeça dele de me ver inconsciente e fazer o que fez”, lamenta.

"Ele sabia da minha sexualidade"

A garota destaca que todos os seus amigos são homossexuais e que não frequenta nenhum outro círculo. O rapaz que a violentou não é seu amigo, apenas conhecido por ser heterossexual, mas simpatizante do movimento LGBT.

“A minha sexualidade é clara e todos os meus amigos são desse meio isso significa que o fato de eu ser lésbica já é um não de cara, eu jamais consentiria”, define.

Após o estupro, a garota foi aconselhada por uma das amigas a ir até a Polícia Civil para realizar a confecção do boletim de ocorrência.

“Quando eu cheguei em casa, eu comentei com ela e ela disse para a gente ir até a delegacia. Na delegacia, tive apoio de todos. Eu fui muito bem tratada. Eles foram me guiando sobre o que eu teria que fazer depois, depois, depois e depois".

Depois de registrar o B.O., ela voltou à delegacia e assinou os documentos para dar continuidade ao processo criminal. Fez uma declaração na quinta-feira passada. Agora, espera os depoimentos das testemunhas e que a intimação seja enviada ao suspeito.

O delegado Leandro Mioto, titular da DPCAMI, prefere não comentar o caso, pois ainda está colhendo os depoimentos das testemunhas. O suspeito foi contatado pela reportagem do jornal O Correio do Povo por meio de sua página no Facebook, mas não respondeu a mensagem enviada pela rede social.

Abuso motivou protesto em Jaraguá do Sul

O caso da jovem estuprada por um conhecido e outras ocorrências de abuso em Jaraguá do Sul e região motivou o protesto que aconteceu dia 28 de junho na praça Ângelo Piazera. Mulheres de todas as idades se uniram para protestar contra o que consideram "cultura do estupro".

Em SC, em média são 10 casos por dia

No primeiro quadrimestre de 2018, Santa Catarina teve o registro de mais de mil e cem casos de estupro. Em média, são aproximadamente 300 casos por mês, ou quase dez casos por dia.

Em Jaraguá do Sul, a Polícia Civil contabilizou 101 casos relacionados ao crime de estupro em 2017, 64 casos de envolvendo menores de 14 anos, 16 envolvendo adolescentes, 14 envolvendo mulheres e sete tentativas. Foi um caso de estupro a cada 3,6 dias.

Como agir diante do estupro

Confira dicas da policial civil Mariana de Paula Rigon, de Guaramirim, que participou do Ato Público com o objetivo de transmitir orientações às vítimas de estupro.

  • A pessoa deve ligar para o número 190 e informar à Polícia, porque é muito importante que o agressor seja pego em flagrante;
  • Após, dirija-se ao plantão 24 horas de uma Delegacia de Polícia, em Jaraguá do Sul, ou à Delegacia Especializada de Proteção à Mulher (DPCAM), das 9h às 18 horas. Nesse momento, serão emitidos o Boletim de Ocorrência (BO) e uma guia para o IML, onde é feito o laudo pericial e a coleta da materialidade;
  • É muito necessário que a vítima se dirija a um hospital ou ao Posto de Atendimento Médico Ambulatorial (Pama), no prazo de 72 horas, para que tome o chamado 'coquetel', caso tenha sido exposta a uma doença sexualmente transmissível (DST);
  • Vítimas maiores de 18 devem assinar o Termo de Representação para que o caso seja investigado. Se ela optar por não representar contra o agressor, a Polícia não poderá investiga;
  • Em caso de menores de 18 anos, a própria Polícia Civil encaminha os documentos necessários e leva a criança ao hospital.

Quer receber as notícias no WhatsApp?