Uma foto virou o assunto do momento nas redes sociais em Corupá. Um casal que mora em um ponto de ônibus na rua Roberto Seidel, no bairro Centenário, decidiu colocar enfeites de natal no local. Albano Marquardt, 49 anos, Silvete Rossil dos Santos e o cachorro chamado Menino moram na casa improvisada há um mês. Nesta segunda-feira (20), a reportagem do jornal O Correio do Povo foi conferir de perto a história deles. Albano relata que convive com Silvete há pelo menos 12 anos. Um dia ela discutiu com a sua família e os dois acabaram saindo da casa em que moravam em Corupá, mas o morador não sabe precisar há quanto tempo saiu da residência dos parentes. “Mandaram ela embora e eu não iria deixar a minha mulher sozinha na rua. Então, eu disse para a minha mãe que iria atrás dela. Encontrei ela no pesque-pague lá no Ano Bom. Ela sentou na minha garupa e nós fomos para a praça”, conta. Os dois moraram de forma improvisada no Ginásio Municipal por um tempo. Depois o casal saiu de Corupá e viajou a pé por outros municípios. Depois de passar por Barra Velha e Joinville, Albano e Silvete voltaram para a cidade e moraram por um tempo no Ginásio Municipal e chegaram a ter um quarto no espaço. Mas eles acabaram sendo retirados do local após um incidente. “Uma pessoa me disse que aqui eu poderia montar um local para morar. É bem melhor do que ficar lá embaixo, onde pessoal usa drogas”, explica Albano, ao comentar que usa apenas álcool. De acordo com o morador de rua, os objetos utilizados para enfeitar o ponto de ônibus foram doados por um vizinho. "Ele me deu os enfeites de Natal e disse que eu poderia pendurar quando quisesse. Aí, eu peguei os enfeites e coloquei aqui no ponto. Inclusive, ele me ajudou a pregar esse plástico utilizando um grampeador”, revela Albano. O plástico serve de proteção contra a chuva. Eles escreveram “feliz Natal” com tinta branca na “parede” da casa improvisada. Pertences como roupas e um colchão ficam guardados no pequeno espaço. Até uma cozinha improvisada foi montada o local. Outro fato curioso foi como o casal encontrou Menino, o grande companheiro dos moradores de rua. O bicho acompanha os dois desde Joinville. “Nós estávamos indo no mercado e encontramos um saco se mexendo e algo uivando. A gente até achou que seria um bebê. Como eu fiquei com medo, eu pedi pra ele ir lá e abrir o saco. Quando ele abriu, viu que era um cachorro. Ele veio com a gente até aqui a pé”, afirma Silvete. 02Vizinhos dizem não se importar com a situação A diarista Natália Radünz, 68 anos, mora a poucos metros do ponto de ônibus onde o casal mora. Ela mora na casa há mais de 40 anos e diz que moradores das redondezas não gostam da situação. Natália discorda delas e frisa o fato de não se incomodar com Albano e Silvete. “Eu não tenho queixa deles. O pessoal reclama muito, mas, por mim, eles podem ficar o tempo que quiserem. Muitas vezes, durante a noite, estamos com a janela aberta e escutamos eles brigarem. Geralmente, os dois brigam quando bebem. ”, constata, ao ressaltar que a vizinha do lado dá café e comida para os dois. Durante a ida até a moradia improvisada dos moradores de rua, a equipe do jornal O Correio do Povo flagrou uma mulher entregando uma sacola para Silvete. A diarista Loni Heinrich, 53 anos, conta que deixou sacolas de lixo e água gelada para o casal, mas também doa alimentos e outros artigos para Albano e Silvete. “Eu ajudo pelo fato de me colocar no lugar deles e me sensibilizo com isso. Eu dou graças que na minha família não tem ninguém assim. Eu acho que não é a situação ideal para os dois. Eu fico bem triste pelos comentários que estão fazendo na internet, os xingamentos. Eu acho uma covardia porque eles não podem se defender”, contextualiza. Assistência Social acompanha o caso A chefe da Divisão de Assistência Social, Trabalho e Emprego da Prefeitura de Corupá, Jussara de Carvalho, revela que é proibido o uso do ponto de ônibus como moradia permanente. “Eles até poderiam ficar ali por um tempo, mas eles estão ocupando aquele local de uso público, guardando os seus pertences e impedindo que as pessoas utilizem a estrutura”, dispara, ao reiterar que Albano e Silvete são acompanhados pelo Centro de Referência de Assistência Social (Cras) do município a cada 15 dias. “Nos até ofertamos vagas de emprego. Eles aceitam, mas não conseguem ficar mais do que um ou dois dias. Eles também não têm interesse no tratamento. A gente não pode internar os dois compulsoriamente. É uma questão muito delicada porque ele tem parentes na cidade que tentam entrar em contato, mas ele não aceita por causa da companheira”, afirma. “Nos dias mais frios, a gente recolheu os dois e deixamos eles provisoriamente no ginásio”, completa. Jussara explica que os dois não moram no ginásio por “situações específicas e pontuais”. “Havia problemas de higiene e aquele é um espaço de uso comum. Eles optaram em voltar para a rua, mas nós estamos adequando um espaço para eles. Por enquanto, eles vão ter um banheiro químico, mas já estamos providenciando um banheiro com chuveiro. Um vigia noturno vai controlar a saída e a entrada deles. Durante o dia, os dois ficam na rua. Durante a noite, eles vão poder ficar no local com cama e um armário para guardar os pertences. Até amanhã (terça) eles já devem estar alojados”, finaliza. Reportagem de Cláudio Costa para o jornal O Correio do Povo.