Os cães resgatados na terça de um criadouro clandestino se recuperam em três clínicas veterinárias de Jaraguá do Sul. Ao todo, 16 animais estão na Reale Pet Shop e outros 45 estão sendo tratados no Hospital Veterinário Duham Tamy’s. Na quarta-feira (21), a equipe do jornal O Correio do Povo foi até o Hospital Veterinário Amizade para acompanhar a recuperação de 20 dos cachorros que sofreram maus-tratos no canil localizado no bairro Rio Grande do Norte. Lá, eles recebem carinho e atenção em um ambiente limpo e adequado. Tudo o que faltava quando estavam em más condições de confinamento, com exposição a parasitas e a umidade. A veterinária Regina Célia de Freitas Floriano Muniz, que ao lado da veterinária Maria Fernandes Afonso está cuidando dos animais internados no hospital veterinário, conta que os bichos têm muitos problemas de pele, oculares e ortopédicos, e um deles tem uma fratura de mandíbula.

“Todos eles estão com a pelagem muito judiada e com muitas lesões. Eles estavam em más condições de confinamento, com uma quantidade absurda de carrapatos e pulgas. Além dos problemas causados pelo excesso de umidade. Algumas fêmeas têm as mamas muito judiadas e com câncer. Inclusive, uma delas tem suspeita de infecção uterina e vai passar por um ultrassom hoje de tarde”, conta a veterinária.

Regina ressalta que os animais que estão internados no hospital veterinário têm problemas sérios nos dentes causados pelas más condições no canil e outros fatores. Ela contou que muitos já estão sem a dentição e outros com mobilidade dentária. “Ontem nós estávamos fazendo as avaliações dos bichinhos e num deles o dente soltou. Eu puxei o dente com a mão”, lamenta a profissional, ao explicar que o tártaro é presente naqueles animais por causa da falta de cuidados com os dentes e também por uma alimentação errônea. Havia uma quantidade impressionante de carrapatos, pulgas e fezes de pulgas nos animais recolhidos do criadouro clandestino de cães, segundo a veterinária. “Todos eles foram medicados e os carrapatos estão caindo, mas é algo absurdo. Uma das fêmeas está só pele e osso. Ela só tem tufos de pelo. São emaranhados que a gente vai ter que tosar no zero porque não tem o que recuperar”, descreve. A veterinária acredita que foi feita uma espécie de “maquiagem” para esconder os maus-tratos nos cães, alguns cuidados foram tomados pelos donos do canil para mascarar a falta de cuidado com os bichos. “A impressão que a gente tem é que eles sabiam da ação. Muitos dos animais estavam tosados e tinha carrapatos secos. Tudo meio que prevendo a ação que aconteceu. Foi tudo muito maquiado. Então, você tenta imaginar. Se está feio assim, imagina como não estavam quando apenas sofriam os maus-tratos”, critica.

Comércio clandestino

Os animais que eram criados no canil no bairro Ribeirão Grande do Norte tinham como destino o comércio de filhotes de cães de raça em Curitiba e São Paulo. Os cãezinhos eram desmamados com 40 dias de vida e enviados em lotes para atravessadores. Todo o transporte era feito por veículos, que iam até a metade do caminho dos grandes centros e eram apanhados por atravessadores. Os cães que nasciam no criadouro clandestino eram de diversas raças. Haviam matrizes de pug, chiuaua e yorkshire, que poderiam ser comercializados por preços entre R$ 1.400 e R$ 2.000. Outras raças, como o buldogue francês, podem chegar ao valor de R$ 5.000 a unidade.

“Se portavam como bichos de pelúcia”

Simone Rocha Dutra, responsável pela tutela dos animais que estão no Hospital Veterinário Amizade, conta que em apenas um dia de cuidados é notória a mudança dos animais. “Você já vê eles mais felizes e abanando o rabinho. A gente se emociona cada vez que vai lá. As funcionárias do Amizade são muito dedicadas e sensibilizadas. Eles nem tomaram banho ainda e já estão demonstrando felicidade. Se você for lá ver, vai perceber que eles vão te receber com alegria”, ao ressaltar que nenhum dos animais recolhidos pelas voluntárias estava saudável ou feliz. A cuidadora foi quem desencadeou toda a mobilização que culminou no fechamento do criadouro clandestino. Ela conta que os animais eram explorados com crueldade e que não tinham reação alguma quando passaram uma vez pelos seus cuidados. “Fiz vídeos da gente tosando eles e eles pareciam bichos de pelúcia. Eles não tinham reação de animal. O animal saudável e feliz que vem no meu pet shop precisa de interação porque quer se mexer e é elétrico. Os que vieram do criadouro pareciam bichos de pelúcia. Eles ficavam do jeito que você mexia”, afirma a cuidadora.

Como ajudar:

Doações podem ser feitas aos membros da Ajapra ou diretamente nos hospitais veterinários e na clínica onde os animais estão internados. Interessados também podem entrar em contato com a cuidadora Simone Rocha Dutra pelo telefone (47) 9 9644-9386. Leia mais:  [VÍDEO] Equipe do OCP acompanha batida em canil clandestino de Jaraguá do Sul e flagra graves irregularidades