Abuso de álcool causa transtornos para sociedade e segurança pública

Abuso de álcool causa transtornos para sociedade e segurança pública Abuso de álcool causa transtornos para sociedade e segurança pública

Segurança

Por: Claudio Costa

domingo, 06:00 - 18/02/2018

Claudio Costa
O álcool é consumido por grande parte da população brasileira., mas, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em 2014, 3% da população brasileira acima de 15 anos de idade era considerada alcoólatra. Pode parecer pouco, mas a porcentagem equivale a mais de 4 milhões de pessoas com dependência física e psíquica do álcool. O consumo excessivo da substância está relacionado a diversos crimes, e não poderia ser diferente em Jaraguá do Sul. Quer receber as notícias do OCP Online pelo whatsApp? Basta clicar aqui Em 2017, a Polícia Militar registrou 192 casos de embriaguez ao volante em Jaraguá do Sul, 172 prisões e outras 20 penas administrativas. Em comparação ao ano anterior, houve menos casos. A PM flagrou 254 motoristas dirigindo sob o efeito de álcool na cidade, ou seja, uma diminuição de 25% no número de ocorrências. “Esse dado revela que a cultura vem mudando, as pessoas estão entendendo que beber após dirigir não é algo saudável e elas têm evitado isso. É claro que esse é um número objetivo das vezes em que a PM teve atuação. Houve outras 30 solicitações da comunidade através do número 190 que não conseguimos atender, ou por falta de viatura para fazer a abordagem ou pelo local ser distante”, comenta o chefe da Seção de Comunicação do 14º Batalhão de Polícia Militar, major Aires Volnei Pilonetto. O oficial explica que a PM encara o uso abusivo de álcool como um problema de segurança pública, embora seja primeiramente encarado pela sociedade como um problema de saúde. A Polícia Militar entende que é preciso evitar o uso excessivo de álcool e realiza medidas de prevenção como o Proerd, programa que percorre as escolas da região para prevenir o uso de drogas ilícitas e lícitas como o álcool. Pilonetto ressalta que o consumo da substância é comum entre as pessoas, mas que causa problema quando há o abuso, ou seja, quando o comportamento da pessoa sob o efeito de álcool interfere na ordem pública. “Em 2017, nós tivemos 1.712 casos de perturbação. Se nós depurássemos cada um desses casos, com certeza nós teríamos como um dos principais fatores o consumo de álcool. Esses casos geralmente acontecem numa confraternização ou numa festa. Muitas vezes, o consumo do álcool faz com que as pessoas falem mais alto e interfiram na vida das outras pessoas. Também há casos de ameaça, 523 registros no ano passado. Com a ingestão de álcool, a pessoa fica mais livre para se manifestar e ameaçar alguém. Outros 853 atendimentos da PM em 2017 foram por atrito verbal ou discussão. Com certeza é presumível que a maior parte desses casos tenha havido o consumo de bebida alcoólica”, explica o oficial da Polícia Militar. Outro crime muito comum relacionado ao abuso do álcool é a violência doméstica. De acordo com a Delegacia de Proteção à Criança, Adolescente, Mulher e ao Idoso (DPCAMI), foram registrados 1.848 boletins de ocorrência do tipo em 2017, uma média de cinco casos por dia. A delegada Milena de Fátima Rosa relata que a maior parte dessas ocorrências têm como pano de fundo o alcoolismo outras drogas. “Apesar de grande parte da população usar regularmente bebida alcoólica e não ter problemas, há uma parcela da população que pelas características próprias não podem ter o contato com o álcool. Elas se transformam, se tornam pessoas agressivas e violentas. Isso tem gerado muita violência doméstica”, comenta Milena. A situação é mais complicada por que há reincidência no crime justamente causada pelo abuso. Em muitos casos, a mulher retira o boletim de ocorrência por pena do marido. “O homem vem com promessas de que vai abandonar o álcool e elas acolhem eles de volta porque sabem que eles não têm para onde ir. A situação da violência doméstica é gradual. Apesar de algumas das situações não envolverem álcool e drogas, a gente percebe na prática que grande parte dos casos têm essa situação. Se preciso, a pessoa pode vir até a delegacia para pedir uma medida protetiva de urgência para o afastamento do agressor do lar e, caso ele volte a procurar a vítima, que seja decretada a prisão preventiva dele”, ressalta a delegada. PROBLEMAS PARA SAÚDE E SOCIEDADE  Neste domingo (18), Dia de Combate ao Alcoolismo, a reportagem do OCP falou com especialistas para ir mais a fundo nos prejuízos que o abuso do álcool traz para a sociedade. A psicóloga Magdaliane Ramos adverte que o alcoolismo é uma doença e que o abuso do álcool pode ocasionar depressão, ansiedade, bipolaridade e, em alguns casos, desencadear a esquizofrenia. Magdaliane aponta que a ingestão de álcool acentua outras características da pessoa. “Há o velho relato de que uma pessoa é calma, tranquila, sociável e boa quando está sã. Quando está sob o efeito de álcool, muda completamente. Tem pessoas que se tornam agressivas, que perdem a noção do certo e do errado, perdem o controle quando estão com outras pessoas. O álcool acaba acarretando alterações de humor e alterações na questão da personalidade”, conta a psicóloga. O álcool também traz muitos problemas para a saúde do homem. O médico patologista Antônio Carlos Scaramello explica que o organismo humano não precisa do álcool para funcionar. Por isso, toda vez que a substância entra no sangue, mata células de todos os tecidos em graus variados. Quanto mais se bebe, maior a quantidade de tecidos morrerão em função do álcool. “No laboratório de patologia, nós usamos o álcool para matar as células para depois poder examiná-las. O álcool cria o mesmo efeito em todo o organismo”, chama a atenção o médico, ao destacar que as células do cérebro, as mais sensíveis, são as que mais são destruídas pelo álcool. “Então, nós temos alcoólicos que ficam com demência”, finaliza. Alcoólico em recuperação há nove anos, Amilton (nome fictício) explica que o alcoólatra pode ser identificado por uma pessoa que não consegue ter controle sobre o consumo de álcool. No Alcoólicos Anônimos, que completa 41 anos em Jaraguá do Sul no ano de 2018, é feito um teste com 12 questões. Se a pessoa testada responde sim a pelo menos quatro delas, pode ser considerada alcoólatra. “A pessoa não é alcoólatra porque toma uma cerveja por dia, mas quando se sente na obrigação de tomar uma cerveja por dia”, enfatiza. Amilton esclarece que os alcoólatras se assustam quando começam a ter problemas na família, no trabalho e no cotidiano. O alcoólico em recuperação enfatiza que a pessoa precisa assumir que tem o problema antes de procurar o tratamento. Em Jaraguá do Sul, há três grupos de Alcoólicos Anônimos, por onde passam semanalmente 50 pessoas. “É preciso frequentar as reuniões, onde fazemos uma terapia em grupo. Depois, é preciso evitar o primeiro gole. Com isso, o alcoólico vive um dia de cada vez. Completando 24 horas sem beber, ele começa tudo de novo”, dispara.
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