"Luto. Para uns pode ser substantivo. Para professores é verbo.” A frase em fundo preto colocada em destaque na imagem de capa no perfil da professora gaúcha Marcia Friggi, 52 anos, revela o momento de tristeza mas ao mesmo tempo a disposição de lutar pelo respeito à profissão. Desde que usou seu perfil para expor a agressão da qual foi vítima na manhã desta segunda-feira (21), quando foi atacada a tapas e socos por um aluno de 15 anos no Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) em que leciona no município de Indaial, no Vale do Itajaí, em Santa Catarina, Marcia saiu do anonimato para uma fama instantânea que não esperava. Sua primeira postagem, acompanhada de 14 fotos em que mostra a face sangrando logo após ter sido agredida pelo aluno de uma turma do Ceja, a quem dava a primeira aula, por tê-lo levado à diretoria por causa de mau comportamento, até por volta das 14h30 desta terça-feira já tem quase 345.000 compartilhamentos, acompanhados de milhares de mensagens de solidariedade. Sua principal preocupação é resguardar sua mãe, de 87 anos, para que não tenha conhecimento da agressão.

Professora Marcia Friggi, agredida por aluno 15 anos | Foto Facebook

Em meio a tantas mensagens de apoio também surgiram comentários de internautas que resolveram investigar as redes sociais da professora e julgá-la por causa de seu posicionamento político. O fato de ela ter curtido a foto de uma estudante de Ribeirão Preto que na semana passada atirou um ovo contra o deputado federal Jair Bolsonaro bastou para que muitos considerem ela ter sido merecedora da agressão. Mas Marcia diz que está preparada. A violência que ela denunciou se tornou um dos assuntos mais comentados no País, ocupando destaque nas trending topics dos principais sites brasileiros. Sem poder responder em particular a todas as milhares de mensagens que recebeu, Marcia postou na manhã desta terça-feira (22) uma mensagem em que diz estar imensamente grata às milhares de mensagens de apoio e carinho que recebeu. “Não tenho condições de agradecer a todos de forma particular, como gostaria e como merecem. Da mesma forma, não posso me calar diante das manifestações de ódio as quais estou sendo alvo. Não estou surpresa, infelizmente, nunca esperei atitude diferente dessas pessoas. Sou cidadã brasileira e, como todos, tenho liberdade de expressão. O ódio não irá me calar, só fortalece a certeza de que sempre estive do lado certo. Estou cada vez mais convicta de que sempre lutei e continuarei lutando por um mundo melhor, livre do ódio, do racismo, do preconceito, do machismo, da misoginia, da homofobia, do fascismo. Dilacerada ainda, mas em paz!” Em outro momento, ela descreve o clima tenso e silencioso na sala de espera do IML de Blumenau, onde foi fazer o exame de corpo de delito. “Sala lotada. A imensa maioria eram mulheres acompanhadas de outras mulheres. Os braços da solidariedade como último refúgio. Cobertas por lenços e enormes óculos escuros, como eu. Silenciosas, caladas, cabeça baixa. Talvez rememorassem milhões de vezes o momento da agressão, como eu. Talvez se perguntassem por quê, como eu. Talvez procurassem um fio de esperança. Eu não o encontrei. Também não encontrei o fio de Ariadne capaz de me tirar do labirinto de escuridão a que fui jogada nesta manhã tão linda de sol.” Aluno agressor vai responder a auto de apuração de ato infracional O delegado José Klock, da Polícia Civil de Indaial, informa que será aberto um auto de apuração de ato infracional de adolescente contra o aluno agressor. O procedimento, semelhante a um inquérito, mas adotado em casos que envolvem menores, será encaminhado à Promotoria da Infância e Juventude de Indaial. Klock também deve ouvir as testemunhas que estavam na unidade de ensino no momento da agressão. Segundo a Polícia Civil apurou, o menor suspeito da agressão não tinha antecedente. Reportagem de Rosana Ritta para o jornal O Correio do Povo