Um dos grandes desafios da agricultura é manter o jovem no meio rural, já que a cidade possui uma série de atrativos e oportunidades. No Brasil, segundo dados do IBGE, 6,5 milhões de jovens com idade entre 18 e 32 anos vivem no campo. Conforme a Confederação dos Trabalhadores na Agricultura, o objetivo dessa geração é dar continuidade à atividade dos pais.

Essa também é a meta de Gabriel Catoni, 25 anos, que desde os primeiros passos acompanha o pai, Nelson Wanderlei, 50, e o avô, Verdemar, 75, na produção de culturas diversificadas. Hoje, o jovem empreendedor busca aliar o conhecimento adquirido com os estudos e a implantação de novas tecnologias à experiência daqueles que o antecederam.

Há alguns anos, ele fez o curso Jovem Empreendedor, da Epagri, e considera que essa foi uma boa oportunidade para trocar ideias e aprender com outros produtores. Na época, devido à insegurança na cultura do arroz em decorrência das enchentes, Gabriel queria dar início à plantação da palmeira-real. No entanto, mesmo determinado, não deixou de ouvir a voz da experiência.

“Fiz um projeto para plantar palmeira-real nas arrozeiras e falei com meu avô. Embora eu já estivesse decidido, ele foi me mostrando outro caminho. Ele me convenceu que a melhor opção por enquanto era aproveitar a terra dos morros para as palmeiras e continuar com o arroz”, revela.


Gabriel ressalta a importância do jovem buscar capacitação para implantar novas técnicas

Por outro lado, muito do que aprendeu no curso serviu para melhorar o manejo na propriedade. No caso da banana, por exemplo, o pai e o avô tinham um sistema que Gabriel ajudou a mudar e melhorar. Hoje em dia, com a falta de mão de obra, ele diz que quanto mais o produtor consegue mecanizar, melhor para garantir maior produtividade.

“Um exemplo bem simples é a questão da ensacadeira de bananeira, que coloca o plástico em torno do cacho. Aqui já tinha na época, só que a gente ensacava a banana e dava esses dias de vento e o plástico escapava, era saco para todo o lado e até desanimava. A solução era optar pela escada, bem mais complicado, mas garantido”, explica.

No curso, um dos participantes revelou que ensacava os 50 mil pés de banana com a ensacadeira e, mesmo nos períodos de ventos fortes, os sacos não saíam. Com a troca de informações, Gabriel descobriu que um pequeno ajuste na maneira de manejar o equipamento resolvia o problema.

Hoje, segundo ele, o serviço rende bem mais e é mais prático. “E foi só um pequeno detalhe, um ajuste. Desde então, vou pegando várias coisas daqui e dali. Também pesquiso muito na internet. Por isso acho importante não ficar sempre na propriedade (procurar capacitação), se não fica para trás”, opina.


Troca de experiência em curso da Epagri mostrou como agilizar serviço no bananal

Gabriel acredita que se o jovem tiver uma atividade econômica que lhe traga renda e com apoio, dificilmente trocará o campo pela cidade. “Se dá dinheiro, tu vai querer ficar na roça. Se não der dinheiro, o cara vai pensar: eu não vou ficar aqui me judiando para nada. Mas, aí vem aquela questão de ser ensinado a lidar com o negócio, porque tudo custa e é trabalhoso”, afirma.

O jovem agricultor garante que pretende continuar no ramo porque na sua região pouca gente permaneceu na roça. A maioria foi para empresas na cidade, o que ocorreu, segundo contou, por vários motivos, desde o tamanho da propriedade até a falta de incentivo dos pais.

“Se dá dinheiro, tu vai querer ficar na roça. Se não der dinheiro, o cara vai pensar: eu não vou ficar aqui me judiando para nada. Mas, aí vem aquela questão de ser ensinado a lidar com o negócio, porque tudo custa e é trabalhoso”, afirma Gabriel.

Ele acredita que se trabalhasse numa empresa na cidade desde os 18 anos, hoje não teria conseguido comprar terreno, fazer uma casa como a que está construindo e ter um carro. Conforme Gabriel, alguns amigos o criticam porque na agricultura tem que trabalhar no sábado e até mesmo aos domingos, dependendo da época, sem horários e dias fixos.

“Para mim, não tem problema, porque eu gosto do que faço. Mas tenho muitos amigos que deixaram a roça. Muita gente foi vendendo tudo e se empregando em firmas na cidade. Uns porque a família não incentivou, outros porque a propriedade era muito pequena e não tinham como sobreviver”, relata.

Avô encarou a roça sozinho aos 18 anos

Atualmente, três gerações da família trabalham juntas para cultivar arroz, banana, palmeira-real e eucalipto. A trajetória dos Cattoni naquelas terras da localidade de Ribeirão Grande do Norte começou antes, mas foi o avô, Verdemar, que, ainda jovem, lutou para prosperar.

“Meu avô que começou essa história. Com 18 anos ele perdeu o pai dele e, a partir daí,  encarou a roça. Ele pagou parte do terreno para os irmãos e foi indo devagarinho. Teve três filhos, meu pai e duas tias que não ficaram na roça. Assim como meu pai, eu me criei aqui e acabei tomando gosto pela coisa”, garante.

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Para Gabriel, esse amor pela terra nasceu da valorização de tudo que o avô e o pai construíram ao longo dos anos. De acordo com ele, está tudo pronto e é só continuar. “Se na época deles, que era bem mais difícil, conseguiram adquirir as coisas, eu também posso. Mas não é fácil. Tem que ser corajoso para seguir em frente”, diz.

O avô revela que é admirável o empenho do neto, já que hoje o jovem não quer mais ficar na roça. Segundo Verdemar Catoni, Gabriel se mostra contente com essa escolha e busca melhorar as condições de trabalho.


Gabriel quer dar continuidade ao trabalho do pai, Nelson Wanderlei, e do avô, Verdemar

“O meu trabalho foi diferente do que é feito agora. Na minha época era tudo manual, com a utilização de animal. E hoje ele já iniciou com o maquinário, o que facilita, porque a mão de obra hoje não se acha mais”, diz.

No início, utilizava o cavalo para auxiliar no cultivo do arroz, depois, passou para a tobata. Para cortar o arroz manualmente, muitas pessoas trabalhavam na lavoura. Atualmente, duas pessoas conseguem fazer o trabalho com a colheitadeira.

O pai de Gabriel, Nelson, diz que para facilitar um pouco o trabalho, os vizinhos costumam fazer uma troca de serviços por implementos ou por auxílio em alguma plantação. Isso também ajuda economicamente, já que não é preciso desembolsar dinheiro.

 

“Se na época deles, que era bem mais difícil, conseguiram adquirir as coisas, eu também posso. Mas, não é fácil. Tem que ser corajoso para seguir em frente”, diz Gabriel.

 

Maruim é praga no meio rural

A presença do maruim, problema que assola a região e que representa transtorno ainda maior na área rural dos municípios, está entre os pontos negativos de residir no interior. Em dias quentes, após o trabalho da manhã, chegar em casa, tomar um banho para se refrescar e colocar uma bermuda é uma tarefa quase impossível.

“A não ser que tu entre em casa, feche tudo e fique, porque do lado de fora não aguenta. Especialmente para quem é alérgico, é triste”, comenta Gabriel. Para aguentar a presença constante do mosquito, o jovem diz que os agricultores andam sempre de botas e roupas que cubram braços e pernas, o que também os protege do sol.

Em casa, a família mantém variedade de repelentes – que segundo eles não resolvem muito o problema –, tanto os de aplicar na pele quanto os elétricos. O protetor solar também é um aliado constante, o que no passado não acontecia.

Conforme Verdemar Catoni, em alguns locais, como havia muitos pernilongos e borrachudos, ele chegava a passar óleo diesel na pele. Em decorrência disso, a pele dos braços possui manchas de queimaduras causadas com a ação do combustível e do sol. “Hoje a gente sabe que não deve fazer isso”, garante.

 

“A não ser que tu entre em casa, feche tudo e fique, porque do lado de fora não aguenta (o maruim). Especialmente para quem é alérgico, é triste”, comenta Gabriel.

 

Negócio à mercê do clima

O clima pode ser um grande aliado das plantações ou um terrível algoz. Sobreviver a enchentes, secas, chuvas de granizo ou vendavais não é tarefa fácil e causa muita insegurança ao produtor rural.

“Na nossa região, a gente sofre com enchente. Na parte plana, onde dá para plantar arroz, geralmente é beira de rio. Do nosso arroz, 80% pega enchente. Tem anos que a gente consegue trabalhar porque o tempo colabora, mas, muitas vezes, na semana antes de colher o arroz, dá uma enchente e deita tudo”, revela Gabriel.

Há uma semana, ocorreu uma chuva de granizo na região, que prejudicou a plantação de banana. O arroz já tinha sido colhido um dia antes. “Veio pedra grande, se pega no arroz acaba com tudo. Teve gente aqui que ainda não tinha colhido e perdeu metade do que plantou”, destaca.

Em razão dessa insegurança, o jovem agricultor admite que não basta gostar do que faz, é preciso entender o negócio e ter consciência de que precisa estar preparado para enfrentar os riscos.

“Tem que aprender a trabalhar, a lidar com o dinheiro e investir. Porque tem anos que tu acha que vai ganhar e não ganha, é bem diferente de trabalhar em uma firma em que todo o mês o dinheiro está ali. Tem um mês ou dois que dá um dinheiro bom e tem que guardar. Foi assim que meu avô conseguiu chegar aonde chegou e ter o que tem”, justifica.


Vencer as inseguranças do clima e do mercado é desafio para os produtores rurais

Paciência e perseverança

Apesar das incertezas que a agricultura traz, o jovem diz que é preciso paciência e perseverança. De acordo com ele, essas são as premissas para o cultivo da palmeira-real, por exemplo. Plantá-la e esperar por três anos para, quem sabe, colher. Nesse período, são necessários cuidados que demandam investimento.

“Há um ano plantei 30 mil pés e agora todo o ano quero ver se planto entre 10 e 15 mil pés, para garantir a rotatividade. E ainda tem a banana, o arroz e até o eucalipto. Só que não é todo mundo que quer viver com essa incerteza toda”, acredita.

Na propriedade, a variedade compensa o fato de não haver uma grande produção de uma só cultura. Gabriel acredita que nas pequenas propriedades é melhor diversificar para que pelo menos uma das culturas se sobressaia. Atualmente, a produção de arroz é de aproximadamente 1.700 sacos em 65 a 70 morgos, parte dela em área arrendada. São cultivados 7 mil pés de banana (3,5 hectares), além das palmeiras (cerca de 40 mil pés) e certa quantidade de eucalipto.

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