O empresário Flávio Rocha, dono da Riachuelo, participará na próxima terça-feira (6), às 19h, da plenária da Associação Empresarial de Jaraguá do Sul. Na oportunidade, lançará o Manifesto Brasil 200, uma clara defesa da necessidade de mudar a rota do país e o colocar no caminho liberal do ponto de vista econômico e conservador nos costumes.
Rocha terá ao seu lado o presidente da Acijs, Giuliano Donini, que também é um líder do manifesto, e conta ainda com Roberto Justus, Luisa Trajano e Geraldo Rufino, além de Luciano Hang e Ericsson Luef. O nome do movimento, que tem ganhado espaço de destaque em todos os jornais do país, é uma referência ao aniversário de 200 anos de Independência do Brasil, que será comemorado em 2022 quando encerrará o mandato do presidente eleito este ano.
Originalmente, o movimento foi lançado em janeiro, a partir da leitura de um manifesto em Nova York, durante a maior feira de varejo do mundo. Depois disso, Rocha já passou por cidades como Natal, Fortaleza, São Paulo e Rio de Janeiro e dentro desse cronograma estará em Jaraguá do Sul e Blumenau na próxima semana. Na sua página no Facebook, o empresário comenta assuntos diversos e não teme entrar em divididas e diz que está na hora de acabar com o marxismo cultural e o politicamente correto. Em entrevistas, tem afirmado categoricamente que a única saída para o Brasil é o livre mercado.
Na quinta, ao participar de um evento em São Paulo, Rocha, que já foi deputado federal duas vezes na década de 80, admitiu pela primeira vez que não descarta completamente a possibilidade de concorrer à Presidência, argumentou apenas que esse teria que ser um “chamamento” e que talvez esse não seja o melhor momento. Como outras possibilidades; citou que o movimento poderia apoiar o ministro Henrique Meirelles, o governador Geraldo Alckmin e o empresário João Amoedo, do Partido Novo. A condição, ressalta, é que aceitem as bandeiras do manifesto.
Critico ferrenho dos governos do PT que, segundo ele, levaram o Brasil ao caos, Rocha diz que hoje a sociedade brasileira entende que o inimigo a combater não são os patrões, mas sim o que chama de “aristocracia tóxica”, numa referência aos que se beneficiam de privilégios estatais, como, gosta de lembrar, a concessão de auxílio-moradia a servidores que já residem no local onde trabalham. O movimento prega ainda a privatização de todas as estatais e bancos públicos, a manutenção de um Estado mínimo e uma carga tributária de país emergente (15% contra os atuais 37% do PIB).
Quem for à Acijs na terça-feira pode esperar para dar de cara com alguém que não tenta agradar a gregos e troianos, que tem um discurso bem definido e que não foge de polêmicas. Recentemente, Flavio Rocha chegou a dizer que neste momento o Brasil não precisa de um Emmanuel Macron, mas sim de um Ronald Reagan ou Margareth Thatcher; bem ao seu estilo.

“Não é um movimento empresarial” 

Responsável pela vinda de Flávio Rocha a Jaraguá do Sul, o presidente da Acijs, Giuliano Donini, conversou com a coluna sobre o evento de terça-feira e os objetivos do Brasil 200 anos, do qual ele faz parte:
Giuliano Donini, presidente da Marisol | Foto Eduardo Mntecino?OCP
Qual o objetivo da vinda de Flávio Rocha a Jaraguá do Sul? 
O Movimento Brasil 200 tem chamado a atenção de muitas pessoas em todo o país desde o seu lançamento. Me parece uma clara demonstração de que o alinhamento às ideias defendidas e a vontade de compreendê-las e a elas apoiar tem provocado esta reação. Por conta disso, e alinhado com o papel que a Acijs entende que tem, estamos promovendo este encontro, para que o movimento seja lançado em Santa Catarina justamente em nossa cidade. Nesta oportunidade, todos aqueles que pactuam com as ideias defendidas ou tem curiosidade de conhecê-las com maior profundidade terão oportunidade de ouvir diretamente daquele que capitaneou a fundação deste manifesto.
Como resume o Brasil 200 anos? 
É um movimento apartidário da sociedade civil que acredita que em quatro anos de mandato não é possível fazer tudo, mas é possível fazer muito. O Brasil 200 resume-se a um conjunto de princípios e valores sólidos que refletem o pensamento majoritário da população.Não é um movimento empresarial, mas sim um movimento de todos aqueles que ajudam o país a gerar riquezas que, justa e responsavelmente utilizadas, constroem um ambiente mais competitivo, de maiores oportunidades e de desenvolvimento social mais sólido e sustentável.
Por que acredita que a direita tem a solução para o Brasil, um país tão desigual e com tantos problemas? 
A questão central não é a rotulação de direita, mas sim os princípios que norteiam esta posição. Uma visão de Estado mínimo, que se ocupe de suas responsabilidades essenciais (educação, saúde e segurança, por exemplo) e que confere liberdade para sociedade empreender, desenvolver negócios, competir para gerar desenvolvimento econômico, que precede o desenvolvimento social. Um Estado que alimenta uma sociedade forte, que reconhece que a partir dos esforços e talentos individuais é que a sociedade evolui. Que respeita, portanto, o indivíduo, que não o rotule e não o segregue em grupos, gerando e promovendo conflitos internos, que é uma das melhores maneiras de monopolizar e perenizar o poder. Se em algum momento for para segregar a sociedade, que seja entre honestos e desonestos, e não entre brancos e negros, ricos e pobres, patrões ou empregados, ou qualquer outra qualificação preconceituosa. Se for para segregar a sociedade, que seja entre honestos e desonestos, e não entre brancos e negros, ricos e pobres, patrões ou empregados, ou qualquer outra qualificação preconceituosa.
O movimento deve participar do processo eleitoral apenas apontando caminhos e cobrando compromisso dos candidatos, ou apoiando e lançando nomes também? 
Desde a sua fundação, conforme manifestações repetidas do Flavio, este movimento acredita que na defesa de suas ideias incentiva cidadãos, muitas vezes distantes de uma discussão tão relevante a todos, a cumprirem também um direito civil, de participarem do processo. Ao ecoar estes pensamentos, o Brasil 200 busca atrair pleiteantes a cargos públicos, inclusive aqueles já tradicionais, a assumirem uma agenda realmente diferente, eficaz, de defesa de uma sociedade grande com um governo pequeno em tamanho, mas grande em respeito, o que claramente não é nossa realidade de muitos anos.
O que significa tirar o Estado das costas da sociedade? A economia dos Estados Unidos é referência? 
Significa que o Estado não deve ser um peso, atrapalhar, coibir a livre iniciativa. Nosso modelo atual é de um Estado que mais proíbe e regula do que incentiva. E o entendimento aqui de incentivo não são os programas setoriais, que muitas vezes desequilibram a economia e selecionam empresas ‹queridinhas›, como vimos nos últimos anos.Precisa ser um facilitador, regulador do respeito às regras necessárias, mas regras simples e diretas, igualitárias a todos. Entendo sim a economia dos Estados Unidos como uma referência, justamente porque por lá prevalecem conceitos que permitem indivíduos a empreenderem, desenvolverem ideias e negócios, empregarem mais pessoas, criando um ciclo virtuoso de desenvolvimento.
Ao lançar o manifesto Brasil 200, Rocha disse que se trata de um movimento liberal na economia e conservador nos costumes. Debates sobre liberação do porte de armas, combate ao tráfico de drogas e redução da maioridade penal devem ter força nessa eleição? 
Meu entendimento é que sim. A total sensação de insegurança que prevalece no país, serviços públicos de péssima qualidade, cuja elite política tradicionalmente não faz uso, e uma clara sensação de total falta de perspectivas promovem na sociedade uma necessidade de mudanças claras. Estes temas, portanto, precisam ser encarados, são discutidos no dia a dia das pessoas, mas não são tratados de forma efetiva e definitiva. Por isso, entendo que a sociedade valorizará àqueles que souberem encarar estes temas, dialogar, transmitir mensagens claras e coerentes, inclusive sobre temas que não gozam de unanimidade em um país com características tão amplas como o nosso.
E o debate sobre as reformas, como a tributária e a previdenciária. Esses tambémsão grandes problemas do país? 
Sem dúvida alguma. O modelo tributário atual tem muitos vícios, tem conceitos errôneos por princípio, sobrepõe impostos, criando uma irracionalidade na sua cobrança e uma amarra ao desenvolvimento. Além disso, onera irracionalmente a produção e embute custos muito expressivos aos preços, o que alimenta a sonegação de forma absurdamente irracional. Quanto à previdenciária, além de tudo o que já se discute do tamanho do rombo e do crescimento do tempo médio de vida, destaco o que também já se comenta mas entendo que mereceria ainda maior engajamento da sociedade como um todo, que é da absurda desigualdade de tratamento entre categorias de trabalhadores. Uma elite pública dominante goza de privilégios absolutamente incoerentes. E sem esquecer da absolutamente necessária reforma política, talvez uma das mais importantes para acabar com uma série de mecanismos, amarras e privilégios, que ajudam a manter o atual estado de coisas.
Flávio Rocha diz que o Brasil procura pelo candidato óbvio. Quem ou qual perfil teria esse candidato? Acredita que tanto na eleição nacional quanto na estadual ainda pode surgir um outsider? 
O perfil que parece que preponderará é do candidato que tenha uma visão econômica e de costumes de direita. Não tem como discutir política e eleições sem se discutir os aspectos econômicos e, neste sentido, a melhor definição que tenho para o pensamento de direita é do Estado mínimo e do incentivo e promoção da livre iniciativa. Costumes, neste ambiente, devem ser entendidos como o posicionamento sobre todos os temas que envolvem a dinâmica da vida de todos nós (posicionamento sobre armamento,educação infantil da ideologia de gêneros,liberação do consumo de drogas, direito ao aborto, dentre tantos outros). Estes seguramente nunca alcançarão a unanimidade e, por isso, na maioria das vezes, são evitados. Mas a sociedade, de uma maneira geral, cansada de tantas coisas, dá sinais de que realmente quer um líder ou uma liderança que assuma este papel.E meu entendimento é da tendência da crença ou preferência pelo conservadorismo. Portanto acho sim que possa surgir um outsider, mas não é necessariamente a defesa do Movimento Brasil 200. A probabilidade ou demanda de um outsider, na esfera nacional ou estadual, aumenta na medida em que este perfil de candidato não surge no atual cenário.
*Reportagem de Patricia Moraes