“O futuro do Brasil corre perigo e a liberdade de expressão está ameaçada”, destaca Deltan Dallagnol

Foto: Fabio Junkes/ OCP News

Por: OCP News Jaraguá do Sul

29/09/2023 - 06:09 - Atualizada em: 29/09/2023 - 14:25

O futuro do Brasil corre perigo e a liberdade de expressão está ameaçada no país. A opinião é do ex-procurador da República Deltan Dallagnol, um dos personagens centrais da Operação Lava Jato, que palestrou sobre o tema na noite desta quinta-feira (28), no Centro Cultural da Scar (Sociedade Cultura Artística), em Jaraguá do Sul, a convite da Rede OCP de Comunicação.

Para Deltan, “o governo Lula sempre teve um viés autoritário de esquerda” e usa como tática o aparelhamento do Estado “para perseguir e calar opositores”. O ex-procurador cruza o país realizando palestras, destacando os riscos que esta postura do atual presidente da República causa ao Brasil.

Nesta entrevista exclusiva ao OCP, Dallagnol aborda este tema e destaca a sua frustração ao ver personagens condenados pela Justiça ocupando cargos importantes na política nacional. Confira:

 

OCP – Em sua palestra o senhor aborda o futuro do país e liberdades. Na questão política, o futuro do país está comprometido? De que forma?

Deltan – O futuro do Brasil estará em perigo enquanto tivermos na presidência alguém condenado em três instância por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro e abusos sendo praticados no STF, tanto para livrar corruptos como para perseguir adversários políticos. Não há como o Brasil dar certo com o PT no governo e sem que se restabeleça o império da lei.

 

OCP – Que liberdades, na sua opinião, estão ameaçadas por um governo de esquerda no poder?

Deltan: A liberdade mais ameaçada agora é, com certeza, a de expressão. O governo Lula sempre teve um viés autoritário de esquerda, de apoio a ditaduras sanguinárias ao redor do mundo, e que busca aprovar o PL da Censura, que quer calar as pessoas na internet. Lula está aparelhando e instrumentalizando o Estado para perseguir e calar opositores, e o maior exemplo disso é a vingança contra a Lava Jato e a criação de um Ministério da Verdade na AGU, que deveria defender a União, mas que está ocupada hoje processando jornalistas e políticos que desagradam Lula.

 

“Lula está aparelhando e instrumentalizando o Estado para perseguir e calar opositores”

 

OCP – O senhor tem feito muitas palestras pelo Brasil? Como está sendo a receptividade do público? Que assuntos são abordados e para que tipos de público?

Deltan – Sempre dei palestras ao redor do Brasil sobre ética e combate à corrupção, e somos convidados sempre para falar sobre isso nos quatro cantos do país. Temos falado especialmente sobre os abusos e arbítrios do Judiciário, tem muita gente preocupada com isso.

 

OCP – E seu futuro político? O senhor decidiu não recorrer a cassação do mandato, mas há possibilidade de se envolver nas eleições municipais em 2024?

Deltan – Meu foco agora é formar uma nova geração de lideranças políticas honestas, competentes e apaixonadas pelo Brasil, que não vão se curvar ao sistema. Se queremos um Brasil melhor, precisamos invadir democraticamente o Congresso Nacional em 2026 por meio do voto.

 

OCP – O senhor é articulista do OCP. Qual impressão que tem deste veículo de imprensa centenário e como é essa experiência de expressar sua opinião semanalmente neste meio de comunicação?

Deltan – Tem sido uma grande honra conversar semanalmente com o grande público da rede OCP, que valoriza as comunidades locais, suas dores e preocupações. As colunas têm sido bastante replicadas nas redes sociais por um número crescente de pessoas indignadas com as injustiças e insatisfeitas com os abusos dos donos do poder.

 

OCP – E como não poderia faltar, vamos falar um pouco sobre a Operação Lava Jato que ficou marcada pelo desvendamento de muitas transações criminosas que lesaram o país e a prisão de empresários e agentes públicos corruptos. Após os últimos acontecimentos, qual a sensação? O senhor acha que a guerra foi perdida?

Deltan – A sensação é de ressaca, pois ao mesmo tempo que fizemos um trabalho inédito no país, colocando grandes políticos e empresários corruptos na cadeia, vivemos um momento difícil de vingança e de revanche desse sistema contra quem atuou na operação. Querem reescrever essa história. Ganharam batalhas, mas somos todos nós que decidimos se vencerão a guerra. Eu não vou desistir do Brasil.

 

OCP – Como o senhor vê a atuação do STF nestes últimos anos? A Suprema Corte está em sintonia com a sociedade? Há uma crise na Justiça?

Deltan – O STF tem abusado de sua posição institucional e atropelado as prerrogativas dos outros Poderes, especialmente do Congresso. Temos hoje um tribunal progressista, ativista e majoritariamente contra a Lava Jato, com uma minoria heroica de ministros que são mais duros contra a corrupção e apoiam a Lava Jato.

 

“O STF tem abusado de sua posição institucional e atropelado as prerrogativas dos outros Poderes”

 

OCP – O modelo político adotado no país, com relações muitas vezes nada Repúblicanas, não contribui para todo este cenário? Seria necessária uma profunda reforma política?

Deltan – Com certeza. Como disse na minha coluna desta semana, ministros do STF acumulam imenso poder e influência quando favorecem amigos e prejudicam adversários. O Senado se omite, muito em razão do foro privilegiado, já que grande parte dos senadores são investigados. A única solução é por meio da política e do exercício da cidadania.

 

OCP – O presidente da Câmara está com muita força e isto acaba favorecendo o tradicional toma-lá-dá-cá?

Deltan – O toma-lá-dá-cá sempre foi a regra na política, isso não é de hoje. O único jeito de mudar isso é colocando pessoas no Congresso que não trabalham por cargos, verbas e privilégios, mas para mudar o sistema de dentro. Esse problema começa quando parte das cidades elegem deputados simplesmente para que levem recursos para sua região, independentemente do seu caráter e competência.

 

OCP – Como o senhor vê a condução do Caso dos atos do 8 de janeiro?

Deltan – Como um conjunto de ilegalidades. O julgamento nem deveria ser no STF, porque os investigados não têm foro privilegiado. As denúncias foram genéricas, sem individualização das condutas e sem provas específicas para cada réu. Réus foram condenados por crimes que seriam impossíveis de se concretizar pelos meios empregados. As penas foram desproporcionais. E agora essas mesmas pessoas serão julgadas no Plenário virtual. Quem cometeu crimes deve ser punido, mas o devido processo legal precisa ser respeitado.