Nesta semana, na Câmara de Vereadores de Jaraguá do Sul, um discurso forte contra o racismo no Brasil chamou a atenção. O texto denunciava o preconceito racial e trazia dados alarmantes sobre o número de mortes de jovens negros no país, quase seis vezes maior que em Gaza, cidade palestina em guerra no Oriente Médio.

O discurso trouxe à tona a realidade do preconceito racial, que maltrata, desrespeita e fere a dignidade da população negra, ainda que de forma velada. Um preconceito que ninguém assume, mas existe.

O discurso, tão duro, contrasta com o jeito leve e doce sua autora: a estudante Pâmela Paula Faustino, de apenas 14 anos. A aluna do 8º ano da escola Waldemar Schmidt, bairro Ilha da Figueira, é uma dos onze vereadores mirins que participam do programa educacional da Câmara Municipal.

Nesta quarta-feira (9), durante a sessão dos vereadores mirins, além do seu lado cidadão e sua visão crítica, a jovem também pode mostrar um pouco do seu lado poeta.

Como forma de ilustrar o racismo que denunciava em seu discurso, a adolescente recitou seu poema “A cor dela”. Uma das inspirações que a levou a escrevê-lo foi um vídeo de uma sociedade de poetas do Rio de Janeiro, chamado Slam, onde artistas se reúnem para declamar poemas autorais pelas ruas da cidade. Os poemas falam de temas como racismo, machismo e homofobia.


Pâmela usa da poesia para refletir sobre temas sociais  | Foto Eduardo Montecino

“Como eu senti alguma coisa quando eu ouvi aquelas poemas eu também queria fazer com que as pessoas sentissem quando eu declamasse, então foi isso também que me ajudou bastante a ter inspiração pra escrever”, conta Pâmela.

Não à toa, as disciplinas de História e Português são suas preferidas. Nesta sexta-feira (11), a estudante falou com o OCP e contou um pouquinho mais sobre seu gosto pela escrita e sua visão de mundo.

Voz própria e voz da minoria

“Eu sempre gostei muito de me expressar e eu vi no programa vereador mirim uma oportunidade, e como eu gosto muito de escrever e eu já tinha esse poema sobre racismo há um tempo guardado eu pensei ‘ah, porque não falar lá?’, sabe? Aí eu resolvi, eu peguei, escrevi, eu peguei todas aquelas informações e transformei num discurso e resolvi falar. E eu queria levar a voz da minoria pra dentro da Câmara, sabe, porque eu quero levar representatividade pra lá e eu gosto de levantar essas questões sociais também”.

Racismo no dia a dia

“Hoje em dia não vivencio, mas já presenciei, na minha família inclusive já fui vítima de racismo. É algo que as pessoas estão tomando consciência hoje em dia, mas ainda é um tabu, as pessoas querem fingir que não existe, elas querem esconder, não discutem, não abrem muito a mente”.

Representatividade

“Desde pequena, inclusive em bonecas, eu nunca me via nas bonecas, era sempre loira de olhos azuis, eu pensava ‘tá, porque que não tem ninguém parecido comigo?’ Então acho que ter uma pessoa que fala sobre racismo, uma pessoa negra dentro da Câmara de Vereadores é muito importante, para as pessoas se identificarem, para os jovens negros não se sentirem sozinhos, não se sentirem inferior”.

Jovens na política

“Eu acho de extrema importância ter uma visão juvenil da política, da sociedade, de dentro da Câmara de Vereadores, porque a gente traz o novo pra lá, por exemplo eu trouxe o novo pra Câmara, sabe, acho que é uma forma de trazer uma novidade, de esclarecer algumas questões”.

Sonhos

“Meu maior sonho é mudar o mundo, não o mundo em si, mas o mundo de algumas pessoas. Fazer com que as pessoas vivam outra realidade. Sonho com um mundo que empatia e respeito reinem. Ver as pessoas evoluindo me faz ficar grata, melhor ainda quando você gerou essa evolução de alguma forma”.

Incentivo da família

Mãe de Pâmela, a servidora pública Maria Elza Chelcki, é uma grande incentivadora da filha. Quando recebeu a notícia de que Pâmela iria participar do programa Vereador Mirim, Elza ficou surpresa, inicialmente, porque não sabia do que se tratava o projeto, mas vendo o interesse da filha logo apoiou a ideia.

“Falei para ela ir lá, conhecer, ver se ela gosta”, conta a servidora. Ela relata que a filha gosta de participar de várias atividades, que acaba começando, mas depois decide não continuar.

Mas com o programa Vereador Mirim, Elza conta que foi diferente. “Ela gosta de soltar o verbo, principalmente na escrita”, diz, destacando o interesse de Pamela em debater questões e discutir o que acha que está errado.

O racismo é um dos temas, e algo bastante significativo para a filha, diz Elza. “Ela já presenciou, na escola, na família, na sociedade, ela vê isso acontecer com os jovens, ela se sente prejudicada”, relata a servidora.

Na Câmara, Pamela teve a oportunidade de levantar o assunto, e também de mostrar sua poesia. A adolescente conta que a primeira pessoa que ouviu o poema sobre racismo foi sua mãe.

“Ela me disse que ia falar a poesia na Palavra Livre (durante a sessão mirim). Eu vi o vídeo também, e falei parabéns, parabéns pelo esforço. Eu como mãe fico muito orgulhosa”, conta Elza, que diz aprender com a filha.

“Ela é muito esperta, ela lê, ela pesquisa, ela escreve, antes mesmo de eu levar uma informação pra ela, ela já está sabendo”, revela.


Um mundo com mais empatia é o ideal da jovem | Foto Eduardo Montecino

Representatividade negra na política

Segundo dados da Justiça Eleitoral, o número de candidatos que se declararam negros nas eleições municipais de 2016 foi de 42.917, cerca de 8,6% do total de 496.895 candidaturas. A maioria foi de brancos, 255.696 candidaturas, somando mais da metade do total de candidatos (51,4%).

Em Jaraguá do Sul, das 136 candidaturas naquele pleito, apenas cinco (3,6%) foram de candidatos que se declararam negros, enquanto os candidatos brancos somaram 118 candidaturas, correspondendo a 86,7% do total.

O ex-vereador Francisco Valdecir Alves (PSD), foi o primeiro vereador negro eleito no município, para o mandato 2009 a 2012, também assumindo a presidência da Casa, em 2012.

Em relação à população, levantamento feito pelo IBGE mostrou que entre 2012 e 2016 aumentou em 14,9% o número de brasileiros que se autodeclaram negros no país.

Além disso, os brancos deixaram de ser a maioria, representando 44,2%, posição ocupada pela população que se declara parda – de 46,7%. A população negra passou a corresponder a 8,2% do total de 205,5 milhões de brasileiros.

Amor próprio

Entre seus poemas, a estudante Pâmela escolheu um de seus textos para divulgar ao OCP. Nele, a jovem fala sobre amor próprio e a importância de se colocar em primeiro lugar. A partir do amor por si mesmo, considera Pâmela, é possível também amar o outro.

Quem é o seu maior amor?

Se afasta daquele alguém que não te faz bem. Doa aquela camisa que lembra algo que te machuca. Não se contente com pouco, não queira pedaços. Não seja pedaços. Seja completa e inteira. O lance de achar uma cara metade nunca cai bem quando se trata de você. Você não merece metades. Você merece inteiros.

Tu és um universo, cheio de planetas, galáxias e sóis, só quem é astronauta suficiente consegue tirar os pés do chão e voar até você.

Tu és estrada, cheio de curvas, caminhos e moradas, só quem é explorador suficiente consegue se encontrar em ti.

Tu és livro, cheio de linhas, poesia e páginas, só quem é leitor suficiente consegue te ler por inteira.

Você tem que se permitir mais. Se permita gritar até não aguentar. Permita-se transbordar amor como as ondas transbordam na areia. Se permita dançar, mesmo toda desengonçada. Se permita cantar, mesmo desafinado. Se permita ser feliz. Se permita ser você!

Deixa as sementes que existem em você florescerem. Deixa as estrelas que habitam em você brilharem.

E tá tudo bem você errar. Você tem qualidades que se intensificam e fazem seus defeitos serem meros detalhes. Faz parte não conseguir.

E lembre-se:

Você deve ser sua própria morada. Seu próprio lar. Seu refúgio.

Seja o amor da sua vida. Seja seu próprio amor.