Emanuela Wolff tem 35 anos. É formada em processos gerenciais e cursou alguns semestres de assistência social. Já atuou nos governos dos prefeitos Moacir Bertoldi, Dieter Janssen e hoje é chefe de gabinete do prefeito Antídio Lunelli (PMDB). Por ela passam todas as grandes questões da administração municipal.

Cercada de homens, Manu, como é chamada, conversou com a coluna sobre como é ser mulher neste ambiente e por que ainda somos uma minoria tão pequena na política. Para ela, que desde 2001 milita no PMDB, atualmente comanda a ala dedicada às mulheres na sigla e preside o Conselho Municipal das Mulheres, é preciso quebrar paradigmas e desconstruir antigas certezas.

Mãe de um adolescente, Enzo, Manu diz que as mulheres têm grande responsabilidade nessa transformação que, acredita, irá acontecer, mas depende de muito trabalho e atuação constante.

Confira a entrevista:

OCP: Em um ranking de 190 países, o Brasil ocupa a 152ª posição em relação ao percentual de parlamentares homens e mulheres. Qual é, na sua opinião, o principal problema causado por esse abismo na representatividade feminina?

Emanuela Wolff: A falta de discussão dos problemas sociais, educação, saúde e segurança com um pouco mais de sensibilidade é um grande problema. Falta também uma discussão dos problemas que afetam as mulheres. Somos maioria no ensino superior, somos maioria no eleitorado, cuidamos e sustentamos a casa, incentivamos os filhos a estudar, ajudamos a vizinha, somos parte essencial da sociedade e, sem as mulheres, a política perde qualidade e sensibilidade.

OCP: Você tem participação efetiva no ambiente político e partidário. De que maneira o machismo se manifesta nessas áreas?

Emanuela: Machismo é uma questão cultural. Até as mulheres acabam sendo machistas porque foram criadas nesse ambiente. O menino pode sair de casa, a menina não, o menino pode escolher algumas profissões, a menina não. É uma questão cultural que, aos poucos, falando, a gente vai desconstruindo. Outro reflexo dessa cultura é que a gente acaba se encolhendo. Em muitos momentos eu mesma pensei: ‘será que falo em uma mesa que só tem eu de mulher e 15 ou 16 homens?’. Acredito que as próximas gerações têm uma tendência a desmistificar e permitir que a mulher se posicione com mais facilidade.

OCP: Se posicione e participe da política?

Emanuela: Às vezes a mulher até quer, mas fica na dúvida. As próprias mulheres desencorajam dizendo que isso não é coisa para mulher, é coisa de homem, você já tem tanta coisa para fazer. E se você for analisar, nos bastidores, a maioria é mulher, falta ultrapassar barreiras para mulher ganhar também o protagonismo. Empoderamento feminino não é ser mais forte, melhor, é o poder do eu posso; posso falar, participar, fazer. Sentir que esse espaço também é nosso.

"Empoderamento feminino não é ser mais forte, melhor, é o poder do eu posso; posso falar, participar, fazer. Sentir que esse espaço também é nosso", respondeu Emanuela Wolff | Foto Eduardo Montecino/OCP

OCP: Por que a instituição do percentual mínimo de 30% de candidatas mulheres no Brasil não foi suficiente para reverter esse quadro? Existem, inclusive, casos investigados pela Justiça de fraudes evidentes de mulheres que deram apenas o nome e não tiveram sequer o próprio voto.

Emanuela: O PMDB trabalha forte nisso, sei que outros partidos fazem o mesmo. Mas também passa pelas mulheres tomar uma atitude de querer ser. Às vezes, a mulher participa do processo todo e chega na hora da candidatura e desiste. Mulher é perfeccionista, tem medo de falhar.

OCP: E uma candidatura está nos seus planos?

Vai chegar esse momento na minha vida. Não é fácil para mim também. Também tenho esse sentimento de medo de falhar. Por estar sempre nos bastidores, é um desafio diferente. Me sinto realizada hoje porque estou produzindo muito como chefe de gabinete do prefeito Antídio Lunelli que, cabe ressaltar, respeita a capacidade das mulheres como poucos, mas vai chegar a hora que vou me desafiar.

OCP: Você já participou da coordenação de campanhas como a do Carlos Chiodini, Dieter Janssen e Antídio Lunelli. É um espaço onde a mulher tem dificuldade de entrar.

Trabalho, esse espaço só é conquistado a custo de muito suor. E por vezes tem que saber que a vida pública pode ser muito dolorida. As pessoas têm tendência de construir candidaturas falando mal dos outros, entrando na vida pessoal, eu que não fui candidata já sofri muito com isso.  Penso que uma candidatura deveria ser baseada na virtude do candidato, no debate de ideias e não no jogo sujo pessoal.

OCP: Esse tipo de coisa afugenta também as mulheres da política de urna?

Emanuela - Com certeza. Como uma mãe com vida e carreira consolidadas, ou uma profissional liberal solteira vai colocar seu nome e daqui a pouco está sendo chamada de puta, vagabunda, é complicado.

Os homens sofrem menos com essa exposição...

Claro. Os homens nunca são vagabundos, ao contrário.  As mulheres ainda são atacadas pela sua vida pessoal. E há a tendência de sensualizar o trabalho das mulheres mesmo quando ele não tem nada de sensual. Nós mulheres temos que começar a mudar essa realidade, cuidando, inclusive, de como a gente se refere às outras mulheres. As mulheres foram criadas para competir com outras mulheres, mas isso não faz sentido. Temos que quebrar certos paradigmas. A nossa geração tem essa responsabilidade. A gente já passou por isso, levar assobio na rua, brincadeira de mau gosto, piadinhas machistas. Esses dias, vi um homem seguindo de carro uma jovem estudante, eu parei. Penso que não podemos nos omitir. E não é uma briga com os homens, a gente precisa deles e eles de nós. Ninguém vive no mundo sozinho, mas é preciso falar disso.

OCP: Você é presidente do Condim (Conselho Municipal dos Direitos da Mulher). A violência contra a mulher ainda é um problema grave em Jaraguá do Sul?

Emanuela: Muito. A nossa sociedade ainda é muito tradicional. Há medo de denunciar e ser julgada pela própria família, amigos. Tem quem diga “deve ter merecido, deve ter feito alguma coisa”. Muitas vezes as mulheres não falam, abafam. Isso ainda existe, está aqui, é gravíssimo. A violência começa com xingamento e vai ficando cada vez pior até o momento que acontece uma agressão mais grave ou uma tragédia. Sinais como de um namorado da filha que não deixa ela sair de shorts devem ser observados. A família não deve dizer para menina que o namorado tem razão. Isso pode ser o início de uma cosia ruim. A nossa Delegacia da Mulher funciona só durante o dia, seria necessário funcionar 24 horas. Em uma delegacia comum, a mulher chega para denunciar aos prantos e tem que esperar, por exemplo, alguém que teve o carro roubado fazer o boletim de ocorrência. Mas, mesmo assim, em Jaraguá a mulher tem um atendimento rápido.

OCP: Você vê com otimismo o panorama para a próxima geração de mulheres?

Emauela: Sim. Eu sou otimista e acredito que depende, demanda trabalho. Temos que participar de eventos, falar disso, defender as mulheres. Quantas mulheres, principalmente as mais velhas, já apanharam dos maridos? Ou deixaram de realizar seus sonhos porque não era coisa de mulher? Eu vejo uma geração melhor. Vejo isso no meu filho. Sempre ensinei para ele que não se fala de menina, nenhuma menina é fácil. Tenho muito orgulho dele. E é uma missão nossa como mulher deixar uma semente melhor. Como o Cortella diz; o pessimista é preguiçoso. Construir uma realidade melhor demanda trabalho, mas acredito que a gente vai conseguir. Mais olhos se quiser fazer duas. Os homens nunca são vagabundos, ao contrário.  As mulheres ainda são atacadas pela sua vida pessoal. Como o Cortella diz; o pessimista é preguiçoso. Construir uma realidade melhor demanda trabalho, mas acredito que a gente vai conseguir.