A deputada federal Gorete Pereira (MDB-CE), do Ceará, passou a ser monitorada com tornozeleira eletrônica, a partir desta terça-feira (17), entre os mandados cumpridos pela Polícia Federal na Operação Indébito. A ação é um desdobramento da operação Sem Desconto, deflagrada no ano passado após investigações apontarem uma fraude bilionária no INSS contra aposentados e pensionistas.
Ao todo, a Polícia Federal e auditores da Controladoria-Geral da União (CGU) cumprem dois mandados de prisão, 19 de busca e apreensão e outras medidas cautelares no estado do Ceará e no Distrito Federal. As medidas foram autorizadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF).
“O MPF (Ministério Público Federal) afirmou haver elementos de que [a deputada] teria atuado como articuladora política junto a órgãos públicos, além de ter recebido valores por meio de pessoas interpostas”, afirmou o ministro no despacho que autorizou a operação tornado público no meio da manhã.
O nome de Gorete Pereira apareceu nas investigações vinculado a uma das entidades investigadas por realizar descontos associativos irregulares em aposentadorias e pensões. A suspeita da Polícia Federal é de que a parlamentar teria recebido uma procuração com poderes para firmar acordos de cooperação com o INSS.
“Nada obstante a gravidade do que apurado nestes autos — demonstrando o recebimento pela deputada de quantias expressivas em dinheiro e o contato direto com autoridades do INSS envolvidas nos fatos alusivos à ‘Operação Sem Desconto’ para a obtenção de vantagens ilícitas –, bem como a influência da parlamentar no âmbito administrativo federal e na estrutura da organização criminosa”, completou Mendonça.
Um empresário e a advogada Cecília Rodrigues Mota, ex-presidente da Associação dos Aposentados e Pensionistas Nacional (Aapen) e da Associação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil (AAPB), também foram presos pela autoridade.
“Em relação a Cecília, destacou-se atuação central na operacionalização das filiações fraudulentas, dos descontos indevidos e na ocultação patrimonial”, seguiu Mendonça no despacho.
A operação também cumpriu mandados de busca e apreensão contra o diretor de Relacionamento e Negócios da Dataprev, Alan Santos, em Brasília. Ele é servidor de carreira e ocupa a diretoria desde 2021, suspeito de facilitar as autorizações para as associações realizarem as transações contra os beneficiários do INSS.
Informações confirmadas à Gazeta do Povo por fontes a par da investigação apontam que Santos teria se encontrado com Antônio Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, em diversas ocasiões em 2022. Ele é considerado o principal operador do esquema que lesou aposentados e pensionistas.
A reportagem procurou o Dataprev para comentar a citação de Santos na investigação e aguarda retorno, e tenta contato com a defesa do servidor.
A Polícia Federal informou, ainda, que foram apreendidos carros de luxo, grandes quantias de dinheiro e aparelhos eletrônicos.
“Esclarecer a prática de diversos crimes de inserção de dados falsos em sistemas oficiais, constituição de organização criminosa, estelionato previdenciário e atos de ocultação e dilapidação patrimonial”, afirmou a Polícia Federal em nota.Gorete Pereira fazia parte do PL e se filou ao MDB em 2026, sendo eleita para a suplência — que cumpre mandato agora — na última eleição geral de 2022 com 36,5 mil votos. Ela é suplente do deputado Yuri do Paredão (MDB-CE), que não está em exercício, e também fazia parte do PL.
A reportagem também procurou o deputado e aguarda retorno.
Deputada já era investigada
A deputada federal Gorete Pereira já era investigada por suspeita de envolvimento no esquema de fraude no INSS, mas negou qualquer participação.
“Diante de recentes rumores e especulações envolvendo meu nome em suposto esquema de corrupção no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), venho a público esclarecer que repudio veementemente insinuações ou acusações neste sentido”, disse a parlamentar em maio do ano passado em uma rede social.
As investigações que levaram à Operação Sem Desconto começaram no final de 2024 e ganharam força em 2025 quando a Polícia Federal e a CGU descobriram um esquema nacional de descontos associativos não autorizados em aposentadorias e pensões. Esses descontos eram aplicados diretamente nos contracheques dos segurados, muitas vezes sem consentimento das vítimas.
Relatórios da investigação indicaram que entidades associativas firmavam acordos com o INSS para descontar mensalidades dos benefícios, mas parte dessas cobranças era feita de forma irregular ou fraudulenta. Se estima uma fraude de R$ 6,3 bilhões contra aposentados e pensionistas entre os anos de 2019 e 2024, que passaram a ser investigados também por uma CPMI no Congresso.
* Com informações da Gazeta do Povo.