Por Verônica Lemus A divulgação de lista com os 108 investigados em inquéritos autorizados pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Luiz Edson Fachin, repercutiu em todo o país e também na imprensa internacional. Tornada pública na terça-feira (11), a lista também levanta questionamentos sobre possíveis reflexos e consequências para a sociedade. Para o cientista político Eduardo Guerini, trata-se de um “recall político”, necessário para as mudanças profundas que o país precisa. A partir das delações de 78 executivos e ex-executivos da Odebrecht, no âmbito da Operação Lava Jato, o ministro Fachin, que é relator da operação no STF, determinou a abertura de 83 investigações, tendo entre os alvos nove ministros do presidente Michel Temer (PMDB), 29 senadores e 42 deputados. Entre as acusações contra os investigados, estão crimes de corrupção passiva e ativa, lavagem de dinheiro e falsidade ideológica. Formação de cartel e fraude em licitações também são mencionadas. Além de nomes como Aécio Neves (PSDB), José Serra (PSDB), Renan Calheiros (PMDB), e Rodrigo Maia (PMDB) e Eunício Oliveira (PMDB) – presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado, respectivamente –, políticos catarinenses estão entre os investigados: o senador Dalírio Beber (PSDB), o deputado federal Décio Lima (PT) e sua mulher, a deputada estadual Ana Paula Lima (PT), e o prefeito de Blumenau, Napoleão Bernardes (PSDB). - Leia mais: Governador Raimundo Colombo volta a ser citado por delatores por caixa 2 Leia mais: Preso desde outubro, Eduardo Cunha é condenado a 15 anos por corrupção passiva, lavagem de dinheiro e evasão de divisas - As delações da Odebrecht levaram ainda à abertura de outros 201 inquéritos, que não serão apurados pelo STF, já que envolvem autoridades que não têm foro privilegiado. Este é o caso dos ex-presidentes Fernando Henrique Cardoso (PSDB), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT), por exemplo. Entre os inquéritos está também o que vai investigar o governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo (PSD) - petição que cita Colombo foi remetida ao Superior Tribunal de Justiça (STJ), onde são analisadas as ações que envolvem governadores - e outros cinco políticos catarinenses: a ex-senadora e ex-ministra Ideli Salvatti, o ex-deputado federal e ex-prefeito de Joinville Carlito Merss, o deputado estadual Jean Kuhlmann (PSD), cujo inquérito será investigado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, com sede em Porto Alegre; e os ex-prefeitos tucanos Jaison Cardoso de Souza, de Imbituba, e Roberto Carlos de Souza, de Navegantes. Sociedade precisa mudar a forma de compreender e fazer política, diz especialista “A Justiça está promovendo o recall político que tanto a sociedade deseja”, afirma o economista e mestre em sociologia política, Eduardo Guerini. A respeito dos reflexos e consequências da lista dos investigados, Guerini verifica a emergência em se fazer uma reforma política “com seriedade” e sem o envolvimento da atual legislatura, já que um terço do Senado e um a cada dez deputados estão envolvidos diretamente nas delações da Odebrecht. “Temos aí um processo bastante contundente de combater a corrupção, agora, independente das siglas partidárias e daqueles que estão no poder. Há um rompimento daquela cultura de foro privilegiado, de compadrio, de corporativismo, rompida pelas delações nas sucessivas fases da Lava Jato”, aponta o professor. Para ele, é a hora de o país mudar a forma de compreender e de fazer política. - Leia mais: Livro analisa relação do jovem com a política em Jaraguá do Sul - politica Uma das primeiras consequências com a lista, ainda na visão do especialista, deverá ser um “mea culpa” da própria classe política, por ter negado repetidas vezes que havia ilegalidades dentro do processo político, eleitoral, assim como na gestão pública. As negações acabaram sendo desmentidas pelos delatores, ao “comprovarem o uso de recurso indevidos, a corrupção ativa e passiva, o interesse privado permeando o interesse público”, explica Guerini. Muitos dos políticos envolvidos na lista de Fachin, diz o professor, não conseguirão se eleger nas próximas eleições, o que também provocará um afastamento da sociedade em relação aos partidos políticos, levando a um agravamento da crise de representatividade das siglas partidárias. “Nós estamos no curso de um turbilhão político que não se resolve na eleição, mas vai se resolver a partir de uma recomposição, de uma remodelação do sistema partidário, que não deve ser feito por essa legislatura porque ela está corrompida e degenerada”, considera Guerini. Lista de Fachin é oportunidade para candidatos de fora Para o especialista, os políticos investigados e, sobretudo, os que eventualmente serão processados poderão perder seus direitos políticos. Ainda que não percam, acrescenta Guerini, a própria rejeição pela opinião pública deverá levar a um fim “bastante difícil” para estes políticos na competição eleitoral de 2018. “A ‘delação do fim do mundo’ da Odebrecht é só uma parte do que está por vir, o que vai colocar obviamente os grandes partidos - PMDB, PSDB, PT, PRB, PSD, DEM, etc - todos esses partidos que hoje fazem parte da base do governo terão que redimensionar sua forma de fazer política”, avalia o professor, reforçando que a população “indignada” irá responder no processo eleitoral. Diante do que chama de “recall político”, Guerini analisa que os candidatos não envolvidos nas investigações ou delações terão vantagens competitivas no pleito. “De forma geral já existem alguns candidatos outsiders, ou seja, que estão fora desse eixo dos grandes partidos, o (Jair) Bolsonaro é um, o (João) Doria é outro, a Marina Silva”, comenta o professor. Com a lista e o momento atual de profunda instabilidade política agravado pela crise econômica, acrescenta o especialista, haverá o espaço para estes candidatos, incluindo aqueles com posturas mais polêmicas ou radicais. “Um ‘salvador da pátria’ sempre é uma alternativa, (...) principalmente àquela população menos esclarecida que não acompanha o dia a dia da política”, analisa Guerini. O professor ressalva, contudo, que esse “revés” somente será observado à medida em que os processos de investigação sejam aprofundados e cheguem aos Estados, como é o caso de um possível envolvimento do governador de Santa Catarina, Raimundo Colombo. “Todas essas lideranças que estavam na memória da opinião pública perdem força e vão ter que recompor o quadro político com novas lideranças, que podem surgir dentro ou fora dos partidos, o que seria ideal para dar uma oxigenação”, diz Guerini.