Embora não se declare como pré-candidato ao governo do Estado, o prefeito de Joinville, Udo Döhler (PMDB), é sempre lembrado como uma possibilidade quando se pensa na eleição de 2018. Dois fatores principais explicam. Udo foi reeleito em 2016 para administrar a cidade mais populosa de Santa Catarina e também carrega o selo de ser um empresário de sucesso, com perfil oposto ao político tradicional, comportamento apontado pelas pesquisas como o desejado pelo eleitor no momento. Em entrevista exclusiva à rede OCP News, Udo Döhler disse que seria um erro antecipar qualquer decisão, citou a pré-candidatura do deputado federal e presidente do PMDB no Estado, Mauro Mariani, mas admitiu não descartar a possibilidade de concorrer, se esse for o chamamento do partido. O atual prefeito de Joinville começou a carreira política em 2011, quando se filiou ao PMDB. Aos 75 anos, é advogado de formação e empresário do ramo têxtil e foi presidente da Associação Empresarial de Joinville (Acij) por cinco vezes. O seu nome é repetidamente citado como possível candidato ao governo do Estado pelo PMDB. Como vê essa possibilidade, estaria à disposição? As eleições de 2018 estão distantes e ainda há uma indefinição quanto à sucessão a governador. Esse desdobramento está acontecendo, alguns pré-candidatos já se apresentaram, como Mauro Mariani (PMDB) e Gelson Merisio (PSD), mas não houve nenhuma reunião formal dos partidos definindo candidaturas. No que diz respeito a minha pessoa e Joinville, minha posição é a seguinte: eu fui reeleito para o segundo mandato e ele encerra em dezembro de 2020. Enquanto não tivermos nenhuma novidade, essa vai ser nossa disposição, de governar Joinville até o fim do mandato. Agora, é claro, as eleições de 2018 tanto ao governo do Estado quanto para Assembleia Legislativa passarão por Joinville. Joinville é o maior colégio eleitoral do Estado. Nós fomos eleitos em 2012 e reeleitos no ano passado, contra oito candidatos, e isso mostra densidade eleitoral. O PMDB hoje é o partido mais forte do Estado, governa 101 municípios entre eles Joinville, Florianópolis e Jaraguá. Nós estamos atentos e vamos acompanhar os desdobramentos. Qualquer posicionamento diferente disso é prematuro. Ainda não existe nenhuma definição, mas o senhor, sendo chamado, estaria à disposição? O PMDB tem uma militância forte no Estado. Fazemos parte dessa militância. O PMDB me fez chamamentos e eu atendi, que são as candidaturas à Prefeitura. Soldado chamado cumpre o serviço? O importante é considerar que o PMDB continua mobilizado, mas não faz nenhum sentido querermos antecipar algum tipo de contribuição. É cedo para isso. Nem antecipar nem descartar? É. Perfeito. Prefeito, o seu perfil hoje, vindo do setor empresarial e com uma visão sobre a necessidade de enxugamento da máquina pública, é apontado nas pesquisas de comportamento como o desejado pelo eleitor. Com a sua experiência agora de cinco anos na Prefeitura da maior cidade do Estado diria que é possível administrar o setor público com uma lógica parecida a do privado? Tenho esse convencimento sim. Nós assumimos a Prefeitura em 2013 com uma situação extremamente desconfortável, quase de insolvência. A primeira medida foi buscar uma negociação da dívida com os fornecedores. Havia um passivo que chegava a quatro anos. E ele foi totalmente honrado até o fim do ano passado. As finanças do município foram sanadas, menos em função da receita e mais em função do novo modelo de gestão. Compactamos secretarias, modernizamos. Hoje Joinville é o município mais digitalizado do país. Não existe mais papel. Ao longo de cinco anos de governo, não tivemos nenhuma licitação anulada. Isso tudo nos permitiu uma economia importante e fez com que a gente pudesse dobrar o número de vagas na educação infantil. Eram 10 mil vagas em 2013 e hoje já são mais de 20 mil. Reformamos nossos postos. Na Saúde e na Educação tivemos avanços importantes com esse novo modelo. Tínhamos 14 secretarias regionais, cada uma com sete chefes. Hoje, nós temos oito subprefeituras com três chefes em cada. A descentralização acabou funcionando muito bem. O contribuinte ficou mais próximo do município. Estamos satisfeitos com o que pudemos realizar nesses últimos cinco anos. O auge da crise já foi superado? Acho que sim. O presidente da República deve terminar o mandato. As reformas, embora tímidas, tiveram um encaminhamento. Isso também está permitindo com que os investidores comecem a ver o país de outra forma. Aqui mesmo em Joinville as consultas de empresas de fora do país estão crescendo. Se nós olharmos para o que os economistas diziam no meio do ano, que o país levaria 20 anos para recuperar esse desacerto e que nós teríamos 2018 e 2019 com crescimento negativo, eles mesmos dizem hoje que é possível recuperar a economia em cinco anos e que no ano que vem podemos ter um crescimento de 0,5% a 2%. Esse cenário mudou em um curtíssimo espaço de tempo, pois se percebeu uma estabilidade política mais adequada e aqueles que estavam atrapalhando trataram também de tranquilizar o investidor. O senhor acredita na necessidade do país mudar a forma de divisão de recursos entre União, Estados e municípios? A falta de verba é uma queixa comum dos prefeitos que vivem de pires na mão. Que boa oportunidade de poder tocar nesse assunto. Hoje existe um equívoco inaceitável. Grosso modo, a cada R$ 100 que o munícipe paga de impostos, apenas R$ 17 ficam no município. Deveria ser exatamente o inverso. O recurso vem de Brasília, passa nas capitais dos Estados e chega aos municípios, e nesse caminho se perde. O recurso deve ficar no município, que é onde tudo acontece, onde o cidadão nasce, cresce, se educa, trabalha e faz seus negócios. Tudo acontece nas cidades, nada acontece em Brasília. Mas os recursos ficam concentrados em Brasília, acabam sendo distribuídos de forma inadequada. Há o fisiologismo político, que é odioso. Nós temos visto isso, a política do pires na mão. Se nós pegarmos Joinville como exemplo, a terceira economia do Sul do país, principal cidade do Estado, no entanto, fica distante do governo federal e o próprio governo estadual ainda não conseguiu enxergar a importância de Joinville, se compararmos com outros municípios do Estado. Se esses recursos ficassem nos municípios, cada um cuidaria da forma mais adequada. Isso é ainda mais grave nas cidades de porte médio, especialmente na área de Saúde, por exemplo. Como o SUS é global, temos que atender todo mundo. No nosso hospital municipal, 26% dos pacientes são de outras cidades. Na unidade especializada, atendemos 196 municípios do Estado e a conta é paga pelo município. Isso é um equívoco. Enquanto não se redistribuir melhor esses recursos, os desvios e a perda no meio do caminho continuarão acontecendo. Na sua avaliação, dá para esperar uma mudança radical saída das urnas em 2018? Ainda não teremos uma mudança radical, mas será um divisor de águas. Em 2013, a juventude foi para as ruas e parecia que seria uma mobilização barulhenta. Infelizmente, não foi. Ela foi atrapalhada por arruaceiros e voltou para casa. Só que é equivocado pensar que essa juventude se acovardou e fica por isso mesmo. Essa juventude acompanhou o tempo todo o que se passou no país e seguramente depois das eleições ela voltará às ruas, de forma pacífica. O senhor faz parte do conselho criado pelo prefeito de Jaraguá do Sul, Antídio Lunelli. Como avalia esse primeiro ano dele na gestão? Recebi um convite do prefeito Lunelli para participar das reuniões do conselho. Tenho participado de todas até aqui e cada vez que saio de uma reunião daquelas fico surpreendido com os avanços que o prefeito vem conquistando em Jaraguá. Em um espaço de tempo relativamente curto, equilibrou as finanças do município. A forma dele de administrar a cidade é muito parecida com a nossa em Joinville. *Entrevista à jornalista Patricia Moraes, titular da coluna Plenário, da rede OCP News