Ex-alunos do SENAI, campeões do torneio mundial realizado em agosto na Rússia, apontaram benefícios da educação profissional, durante seminário na FGV, no Rio.

O curso técnico ajuda os jovens a escolher melhor a profissão e a conseguir o primeiro emprego, afirmaram, nesta quinta-feira (31), quatro medalhistas da WorldSkills, o torneio mundial de educação profissional, durante evento realizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Os ex-alunos do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) participaram, no Rio de Janeiro, do seminário O ensino técnico e a reforma do ensino médio: um convite à inovação.

“O curso técnico é uma boa opção para o jovem porque nos dá uma ideia do que é a área, do que vamos seguir, do que a gente vai fazer realmente na prática do mercado”, contou Gabriella Louise dos Santos Silva, medalhista de prata em Tecnologia da Moda na WorldSkills em Kazan, na Rússia.

Ela iniciou sua formação em um curso técnico de Design de Interiores, que durou um ano e meio, mas não se identificou com a área. Migrou então para o curso técnico de Moda, no qual encontrou a realização pessoal. “Se eu tivesse feito uma faculdade de Design de Interiores, faria quatro anos de curso e só lá na frente, no mercado de trabalho, ia perceber que não tinha a ver comigo”, explicou.

Além dela, participaram do seminário Leonardo Camargo de Souza, medalhista de ouro em Desenho Mecânico em CAD; Raissa Marcon Constante, que conquistou bronze em Segurança Cibernética; e Ralph de Souza Crespo, bronze em Soldagem. Os quatro explicaram a razão de terem escolhido o curso técnico e relataram o esforço de mais de dois anos de rígido treinamento até chegar ao pódio na Rússia.

A delegação brasileira, formada por 63 jovens, ficou em terceiro lugar geral na competição, que ocorre a cada dois anos em um país diferente.

“Fico feliz de ver a ação transformadora que o SENAI teve nos jovens que estão aqui hoje. Eles são, assim como milhões que passaram pela instituição, pessoas que a educação profissional transformou”, avaliou o diretor-geral da entidade, Rafael Lucchesi, que foi um dos participantes do seminário.

Durante a palestra, Lucchesi argumentou que a nova lei do ensino médio é uma oportunidade de correção de distorções na matriz educacional brasileira, construída como se todos os jovens chegassem à universidade.

No Brasil, 18% fazem ensino superior, enquanto na Europa esse percentual está acima de 30%. Para ele, é preciso ampliar o número de estudantes que fazem educação profissional como forma de garantir que todos tenham uma profissão e a chance de construir um projeto de carreira. Atualmente 11% dos estudantes brasileiros fazem curso técnico no ensino médio, e nos países europeus são 50%, em média.

“Da forma como está construído, o ensino médio é o maior sistema de exclusão social que temos”, afirmou. “Os países que têm mais educação profissional são as sociedades com as menores taxas de desemprego entre jovens, que possuem mais equidade e produtividade”, defendeu.

EXPERIÊNCIAS INTERNACIONAIS – O gerente-executivo de Relações Internacionais do SENAI, Frederico Lamego, apresentou experiências no campo da educação profissional na China, na Colômbia, na Alemanha, na África Sul, no Chile, na Finlândia e na Índia.

Os chineses, por exemplo, criaram 700 grupos de educação técnica com a participação de mais de 10 mil empresas, a fim de estreitar a relação entre a formação técnica e o setor produtivo. A Índia segue rota semelhante. O país tornou obrigatório o vínculo entre escolas técnicas e as empresas, com mediação de órgãos superiores de organização de empresas.

“O setor privado é parte da solução do problema. A educação profissional tem de estar atrelada ao mercado de trabalho, caminhar em linha com a oferta de empregos. É também o setor privado que dá indicação das futuras tecnologias e aponta como deve ser feita a formação dos profissionais”, afirmou Lamego.

Anfitriã do seminário, a diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da FGV, Claudia Costin, fez um panorama das mudanças ocorridas na educação devido à 4ª revolução tecnológica e os obstáculos que o Brasil precisa vencer diante desse cenário.

“Nós não estamos entregando as competências básicas, que precisávamos para prosperar na terceira revolução industrial, imagine na quarta”, disse.

Para ela, o país tem agora uma tarefa ainda maior, pois a educação precisa acompanhar as transformações de um mundo mais complexo. “O nosso desafio vai ser: como é que eu entrego competências básicas e de um nível mais sofisticado ao mesmo tempo, para evitar o crescimento acelerado da desigualdade social em um país, que, infelizmente, já é muito desigual”, sintetizou.

PARCERIAS - O secretário de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação (MEC), Ariosto Antunes, apontou três eixos da atuação do governo federal nesse campo. O primeiro é estimular as redes públicas e privadas a ofertar cursos alinhados à demanda do mercado de trabalho como forma de aumentar a empregabilidade dos alunos.

Em segundo lugar, disse, está desenvolver plataformas de educação à distância, especialmente para suprir a necessidade de cursos técnicos em cidades do interior do país.

O secretário defendeu ainda a necessidade de ampliar as parcerias entre a rede pública de educação profissional e outros ofertantes, como instituições do chamado Sistema S. “Já existe um bom nível de parcerias, mas temos de ampliá-las. O setor público somente não vai ter condições de atuar com o tamanho desafio que temos, não só de ampliar a oferta, como de qualificar essa oferta, para que assegure empregabilidade e tenha a perspectiva de futuro”, explicou.

Ex-secretária-executiva do MEC, Maria Helena Guimarães, uma das formuladoras da nova lei do ensino médio, por sua vez, defendeu que o novo modelo precisa permitir aos jovens que optarem pela formação técnico-profissional possibilidade de também seguir para a universidade, caso assim desejem.

“Quando estamos falando de ensino técnico-profissional, estamos falando de uma vertente de formação que não deve excluir a possibilidade de o aluno, no futuro, seguir o ensino superior. É muito importante que o aluno possa fazer uma escolha, para que ele ou ela se sinta muito à vontade na escolha do percurso formativo”, ressaltou.

A nova lei do ensino médio prevê que todos os alunos terão conteúdos da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e, em seguida, poderão optar por itinerários de aprofundamento dos estudos, entre os quais linguagens, matemática, ciências da natureza, ciências sociais e formação técnico-profissional.

Aqueles que escolherem a qualificação para o mundo do trabalho terão, ao final de três anos, tanto o diploma da profissão escolhida quanto do ensino médio regular.

BOAS PRÁTICAS – No seminário, os secretários estaduais de Educação de Pernambuco, Paraíba e Ceará também apresentaram iniciativas que fazem com seus alunos, apesar da baixa renda, estejam no topo dos rankings educacionais.

Pernambuco tem ainda a maior taxa de aprovação e o menor índice de abandono no ensino médio do país. Nas escolas técnicas do estado, a taxa de evasão é de apenas 0,4%, enquanto no país, o abandono é um dos maiores problemas dessa fase escolar: quase 50% dos alunos do curso regular não completam os três anos de estudo.

Na opinião do secretário pernambucano, Frederico da Costa Amâncio, é necessário investir em escolas de tempo integral e carga horária de pelo menos 4.200 horas para garantir ensino de qualidade tanto da parte acadêmica quanto da formação profissional no novo ensino médio. “O fator tempo pedagógico faz toda a diferença.

Em nenhum dos países que são referência de bom ensino técnico há jovens que ficam apenas tempo parcial na escola. Se já é um grande desafio garantir qualidade do ensino médio propedêutico em tempo parcial, imagine inserir dentro disso um curso técnico”, ressaltou.