Por Ana Paula Gonçalves Passaram três anos desde a última grande enchente que atingiu diversos pontos da cidade, deixando até mesmo o centro embaixo da água, e que prejudicou moradores, comércios e indústrias em Jaraguá do Sul. Em 2014, o excesso de chuvas – foram 376 milímetros entre 6 e 8 de junho – alagou diversos pontos do município, especialmente os bairros Amizade, Vila Lenzi, Rau, Centro, Vieira e Ilha da Figueira. Setenta mil pessoas foram atingidas pelas cheias, deixando centenas desalojadas e aproximadamente 90 desabrigados. Cerca de 70% da área urbana foi atingida. Apesar de os números serem alarmantes, poucas medidas teriam sido tomadas desde então, avalia o presidente da Rede Saúde do Homem, Antônio Marcos de Souza. Ele, que na época teve a residência atingida, liderou uma comissão de trabalho para apurar as causas e possíveis soluções para o problema. Do levantamento, gerou-se um documento que foi encaminhado ao Executivo, Câmara de Vereadores e à Defesa Civil, em novembro de 2015. Conforme Souza, as tratativas junto ao Legislativo levaram a uma audiência pública, realizada em 19 de julho de 2016. “Tudo o que colocamos ali, a proposta, na sua íntegra, foi aprovada. No entanto, a elaboração de um plano preventivo não foi feita. Neste ano, conversei com o vereador Pedro Garcia (presidente da Câmara) e mostrei que nada estava acontecendo. Pedi a ajuda dele, porque senão a população não vai mais acreditar em audiência pública. Vai achar que não serve para nada, é só uma formalidade”, ressalta Souza. De acordo com ele, foi proposto à Prefeitura, nessa administração, a criação de uma comissão permanente dentro do Conselho da Defesa Civil, sem pessoas com função gratificada e comissionada para manter um trabalho contínuo. Souza cita os rios assoreados, matas ciliares inexistentes, plantio de espécies impróprias nas margens do rio como agravantes. “Eu considero Jaraguá do Sul uma cidade de risco, por causa de deslizamentos e alagamentos. Aqui continuam aterrando, construindo casas nos morros, ou seja, estava errado naquela época e continua errado. Falta também envolvimento com a população, falta educação. O plano de prevenção deve abranger todos os municípios do Vale do Itapocu, porque não adianta os daqui cuidarem e os vizinhos não. Tem quem ser um trabalho macro”, aponta o morador. Patrimônio foi por água abaixo Os prejuízos causados pela enchente de 2014 à residência onde mora a família de Airton Drehmer, no bairro Amizade, foram enormes. A casa foi atingida pela terceira vez naquele ano, mas em um nível muito superior às demais. “A água chegou a 1,4 metro de altura, entrou pelas janelas (as portas estavam vedadas), passou por cima do muro, nos pegou de surpresa porque não houve orientação ou alerta dos órgãos públicos”, recorda. Na época, Drehmer ficava acompanhando as notícias pela imprensa, especialmente no que se referia a São Bento do Sul e Corupá, de onde a água desce pelo rio. “A gente perdeu muita coisa, porque não deu tempo para salvar. Alguma coisa que erguemos a água derrubou. Quando voltamos, estava tudo submerso. Perdemos TV, micro-ondas, notebook, além dos móveis, 13 portas internas, que poderíamos ter tirado se houvesse tempo”, diz.
Airton lembra que a água passou por cima do muro e chegou a mais de um metro de altura dentro da casa | Foto Eduardo Montecino
Airton lembra que a água passou por cima do muro e chegou a mais de um metro de altura dentro da casa, provocando danos à casa e prejuízos | Foto Eduardo Montecino
Para a empresária Isolete Duve, que teve a empresa atingida pela enchente de 2014, os dias de contemplação da chuva durante o fim de semana para descanso ficaram para trás. Hoje, precipitações mais intensas, como as que ocorreram há algumas semanas, preocupam. Sócia de uma empresa localizada na rua Marina Frutuoso, no Centro, ela viu a água atingir não só o seu estabelecimento, mas residências próximas, comprometendo o patrimônio de muitas pessoas. “O rio passa aqui atrás e subiu uns quatro metros. A rua também alagou e num determinado momento as águas se uniram, atingindo a loja. Portas e armários ficaram empenados. Na casa ao lado, a inquilina foi embora e desde então não há ninguém morando”, revela.
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Rio passa atrás da loja de Isolete, que passou a ficar em estado de alerta durante as enxurradas | Foto Eduardo Montecino
Isolete recorda que canoas foram usadas para passar pela rua, pois a área ficou isolada. “Quando dá essas chuvas e há indícios de alagamento, a gente vem para cá (para a loja) e chega a passar a noite. Chegamos a ficar dois dias inteiros monitorando até baixar a água, pois daquela vez foi preciso levar alguns produtos lá para cima”, diz. Apesar de o estabelecimento estar bem acima do nível da rua, a água chegou a atingir uma altura de 20 centímetros dentro da loja. “Não foi muito, mas o suficiente para estragar os móveis”, afirma. Do episódio, ficou o trauma. Uma das medidas de prevenção tomadas pela empresa foi plantar árvores na beira do rio. “É importante falarmos sobre isso agora, porque continuamos a mercê do tempo”, diz Isolete. Rios cheios de lixo “A limpeza dos rios é uma tradição do Clube de Canoagem Kentucky, que agora recebe o apoio da Defesa Civil. Nestes poucos meses, fizemos duas ações com eles, mais limpeza de pilares”, destaca Hideraldo Colle. O diretor de Defesa Civil ressalta que, na última ação, no rio Jaraguá, no trecho que compreende as proximidades da empresa Malwee até o Parque de Eventos, foi recolhida uma tonelada de lixo.
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Cerca de uma tonelada de lixo foi retirada do Rio Jaraguá durante última limpeza realizada | Foto Divulgação
“Antena parabólica, móveis, pneus, capacetes e todo tipo de material que se possa imaginar. A população precisa se conscientizar de que tudo que é jogado no rio volta para ela, vai prejudicá-la”, salienta. “Minha visão de caiaquista há mais de dez anos é a seguinte: Jaraguá, hoje, dá as costas para os rios. A cidade se formou aqui por causa dos rios, mas se você observar, é isso o que acontece”, conclui Ludvichak. defesa civil retirando sofa corrego - em (2) Defesa Civil desenvolve aplicativo de alerta O diretor da Defesa Civil do município, Hideraldo Colle, assegura que diversas ações estão sendo tomadas. “A Defesa Civil vem trabalhando para minimizar os riscos e vulnerabilidades, através, por exemplo, da contratação de estudos geotécnicos para classificar as áreas de risco do município”, diz o diretor. Segundo explica, essa pesquisa vai apontar a quantidade de chuva necessária para alagar determinada área, facilitando a emissão de alertas. Colle ressalta que, das 14 obras de contenção com recursos do PAC 2 do governo federal, 13 estão concluídas, faltando apenas a localizada no bairro Jaraguá Esquerdo, que ainda não foi iniciada. “Tais obras reduzem os riscos aos moradores de áreas vulneráveis, contendo os deslizamentos”, afirma. Com o auxílio de voluntários, a Defesa Civil vem trabalhando no desassoreamento de rios e limpeza. No último mutirão, mas de uma tonelada de lixo foi retirada do rio Jaraguá. A elaboração de mapa da inundação, implantação de estações meteorológicas para monitoramento do nível dos rios e criação de aplicativo com informações sobre a situação nos rios e quantidade de chuvas estão entre as ações tomadas. “Todos possuem celular e esse aplicativo, que está em fase de testes, vai auxiliar muito. Dentro de aproximadamente 20 dias deverá estar disponível à população”, garante.
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Estudo deve estabelecer em que condições os bairros de Jaraguá do Sul são atingidos pela água | Foto Eduardo Montecino
Por meio do aplicativo, os usuários terão informações em tempo real sobre o nível dos rios e os perigos de alagamentos. Atualmente os alertas são feitos através da imprensa, mas o aplicativo vai auxiliar, já que sinaliza através de cores qual a situação atual: verde para normal, amarelo para alerta e vermelho para alerta máximo. Plano para reação e monitoramento O chefe de Prevenções de Desastres da Defesa Civil, Marcelo Ludvichak, ressalta que o município conta com uma rede para atuação em casos de emergência, o SCO (Sistema de Comando Operacional), por onde é executado o Plano de Contingência de Jaraguá do Sul. Este é aberto em caso de inundação e de calamidade pública. “São chamadas todas as entidades: Corpo de Bombeiros, Polícia, Exército e os nossos parceiros (clubes de canoagem, entre outros). É montado um comando de operação, no quartel da Polícia Militar ou na Arena, e designado um comandante para a operação. Todo esse planejamento está pronto para ser executado”, explica. Muitas pessoas acreditam que barragens da região podem arrebentar ou serem abertas causando as enchentes. Quanto a isso, o diretor tranquiliza a população, dizendo que essa situação não é possível. “Temos uma barragem em Schroeder, no rio Itapocu, na localidade do Bracinho. Lá, quando a água passa por cima, é porque está cheia, não porque foi aberta. O problema aqui é quando ocorre a tromba d’água, que vem com força, levando tudo”, ressalta Colle. No total, são três barragens que, segundo ele, ajudam a conter a água e quando necessário, soltam-na aos poucos. A Defesa Civil de Jaraguá do Sul trabalha com os dados que vêm do Estado, bem como a maioria dos municípios de Santa Catarina. “Nós acompanhamos via satélite e recebemos informações a todo o momento. Há algumas semanas, quando houve bastante chuva, ficamos monitorando dia e noite”, enfatiza Ludvichak. Ele observa que é possível prever as chuvas localizadas e inundações, mas as enxurradas não. “Existe diferença entre alagamento e inundação. Alagamento é aquela chuva repentina que vai alagar e o nível de água vai baixar rapidamente. Inundação é o rio que sai da calha e se expande e isso tem como prever”, diz o chefe. Na época da enchente, ele ressalta, havia estrutura para trabalho e resposta, mas não se pensou em um estudo aprofundado para apontar as áreas de alagamento. “Para chegarmos a afirmar, por exemplo, que a rua x do bairro tal alaga quando o rio atinge 4,21m. É que foi tudo tão rápido e intenso, que a prioridade era a resposta imediata também. Foi muita água, não havia como segurar”, diz. Em termos de capacitação e participação em entidades como o Conselho de Defesa Civil, Colle diz que está priorizando os funcionários públicos municipais. “É preciso que eles participem e se capacitem, porque amanhã não sabemos quem vai estar ocupando essa cadeira e aí quem vai embora leva todo o conhecimento junto”, pondera. A Defesa Civil, hoje, tem oito colaboradores a menos do que a gestão passada, contando com três engenheiros e uma geóloga.