O prefeito eleito tinha ao seu lado a edição especial do jornal que confirmava a sua eleição. Mas, perfeccionista e exigente, não escondeu que mesmo vencendo saiu um pouco frustrado com o resultado. “Gostaria de ter feito pelo menos 50% dos votos (fez 44,73%)”, admitiu quando questionado. E se a meta pode ser considerada um tanto quanto ambiciosa para um pleito, o que falar do seu planejamento para o fim do mandato. “Quero deixar o governo com 80% de aprovação”, projeta. Antídio Lunelli é um homem que saiu do campo, de família humilde que acabou construindo um grande grupo de empresas. Para chegar aonde chegou, diz que foi necessário enfrentar um sistema que não favorece o empreendedorismo, a inovação e a geração de emprego e renda. Por isso, entre suas metas estão desburocratizar a máquina pública, impulsionar a economia, modernizar o sistema interno, dar ferramentas para que o servidor público possa trabalhar e assim facilitar a vida do contribuinte. Aos 53 anos, o empresário do ramo têxtil e de comunicação é um homem de decisões firmes, um tanto quanto passional em algumas ocasiões O discurso logo após a vitória, em que citou os adversários e a ‘sujeira’ da campanha, foi um desabafo, como ele mesmo admitiu ontem, afirmando que foi duro ver ataques a sua família e a sua vida pessoal vindo, principalmente, de Ivo Konell (PSB), a quem ajudou em campanhas anteriores. Sobre a equipe, Antídio só adiantou que o primeiro convite será para Emanuela Wolff (PMDB), para chefia de gabinete. Além disso, disse que se pudesse convidaria o ex-prefeito Mário Fernando Reinke (PSDB) de Massaranduba para estar ao seu lado. OCP Online - Bom dia, prefeito eleito, parabéns pela vitória. Antídio Lunelli - Estou muito feliz pela quantidade de vereadores, isso é histórico, eu nunca vi em Jaraguá do Sul ter feito uma maioria assim (na Câmara de Vereadores). Dá tranquilidade para trabalhar? Sim, são sete vereadores, e ainda acho que os de lá (da oposição), são pessoas maleáveis. O Dico Moser (PSDB) é um cara bem bacana que conheço há 40 anos, por exemplo. Acho que vamos conseguir governar de uma forma legal porque tem muitas alterações que precisamos fazer. Daqui quatro anos, o senhor espera entregar a Prefeitura de que maneira? No mínimo com 80% de aprovação, mesmo com todas as dificuldades que nós temos nesse momento. Pelo simples fato de que vamos estar junto com o povo e mostrando as coisas, explicando. Mesmo que você tenha que dizer não, mas mostrando os motivos, acredito que isso funciona. Porque tem coisas que não dá de fazer, se você não tem dinheiro e não tem como conseguir, então tem que chegar e explicar. Acredito que vamos conquistar a população dessa forma. Todos os meses quero levar os números da Prefeitura para a população. Tenho um sistema totalmente diferente na minha empresa, aberto, sempre trabalhamos assim e da mesma forma quero fazer na Prefeitura. Além desse diálogo aberto, tem alguma obra, alguma mudança, algum sistema que o senhor planeja implantar? Primeiro, eu, juntamente com o Udo (Wagner, vice-prefeito eleito) queremos nos inteirar totalmente da situação da Prefeitura, isso ainda vai começar essa semana. E, o que é fundamental, é ferramenta para o servidor poder trabalhar, e a primeira coisa é integração total (de informações) de toda a Prefeitura. Se eu pegar o notebook aqui agora, em qualquer setor da nossa empresa, nós verificamos tudo o que está acontecendo, em qualquer lugar, isso é ferramenta de trabalho, isso é prático. E em quanto tempo pretende implantar esse sistema? O mais rápido possível. Sei que existe a questão do Tribunal de Contas, da licitação, mas a gente sabe também dos atravessadores que tem no meio. Porque o próprio Dieter (Janssen, prefeito) já tentou fazer isso, mas não conseguiu. Quero saber onde está emperrando, por que não está saindo, eu não tenho medo de enfrentar ninguém e vou atrás. E se não tem jeito mesmo, chamo a imprensa e mostro o que está acontecendo, porque não tá saindo. Para fazer isso que o senhor planeja, vai precisar ter equipe qualificada e que aguente o tranco, até pelo seu perfil. Já começou a pensar na equipe? Nenhum nome. Emanuela Wolf não será a chefe de gabinete? A Manu é uma guerreira, tem conhecimento e habilidade política, se ela aceitar, sim (será chefe de gabinete). E o Ademar Possamai na Secretaria de Administração e da Fazenda, existe possibilidade dele continuar, já que as finanças do município são hoje a maior preocupação? Ninguém falou sobre nomes, não conversamos absolutamente nada. Confesso para você que nessas andanças e no conhecimento que fui tendo de candidatos a vereador, talvez tenha dois ou três que teriam a qualificação para exercer algum cargo dentro da Prefeitura, mas isso tudo vamos sentar, analisar, eu e o Udo junto. Nós não prometemos absolutamente nada para ninguém, combinamos sempre de fazer um diálogo. E o seu discurso após a vitória no domingo, foi desabafo em função da campanha que muitas vezes se transformou em baixaria nas redes sociais? Foi desabafo, sabe o que é? Eu não gosto de falar da vida dos outros, porque antes vamos olhar para nós mesmos, e eu quero que me apresentem a família que não tem problema. Eu estive na Comunidade Evangélica Luterana durante a campanha, cheguei e a comitiva toda do Ivo Konell estava lá e ele estava falando de mim. Eu cheguei e ele estava de costas, não me viu, eu me encostei na porta e fiquei escutando. E ele falando de mim: ‘esse cidadão que é de Guaramirim, o que vem fazer aqui? Esse cara é ladrão, compra fio roubado, só cresceu porque é sonegador, destruiu o meio ambiente’. Um monte de absurdo, falando no lugar onde eu cresci. Vocês não fazem ideia do que foi, estou contando o que eu vi e ouvi. É bom que o senhor explique porque algumas pessoas não entenderam, pois no período eleitoral, nas entrevistas, a eleição parecia ocorrer de forma tranquila, e quem não acompanha os bastidores não entendeu o seu desabafo. Claro, tanto é que não vou falar mais disso daqui para frente. Eu sempre tive muita admiração pelo Ivo Konell, e sempre votei nele e tive o maior respeito porque o meu sistema e o dele, de trabalho, é muito parecido. Mas com a diferença que eu trabalho para o bem, não prejudico ninguém. Algum dos outros concorrentes ligou depois do resultado, para dar os parabéns? Ninguém, o único que me ligou, depois do discurso inflamado que ele fez, foi o Paulo Bauer, eu diria assim, se desculpando, dizendo que não falou mal de mim, alguma coisa nesse sentido, e que ele sabia que eu ia ser o prefeito. Mas quero dizer que meu relacionamento com todos os políticos sempre foi muito bom, com todos, com exceção do PT. Todos os partidos têm porcaria no meio e têm gente muito boa, inclusive no PT, mas eu, do PT, tenho raiva. Porque o PT na essência, o Partido dos Trabalhadores, se fosse realmente esta essência, que nasceu lá atrás, eu seria um dos primeiros que deveria estar com a bandeira do PT. Mostrei uma pilha de processos para o Carlito Mers, quando ele foi candidato a deputado e foi me visitar, mostrei os processos que estava respondendo por essas questões de Ibama, Fatma e órgãos ambientais e a perseguição que eu sofria. O que esse pessoal me aprontou, isso é o que o partido faz com quem trabalha. O senhor planeja a redução de salário, redução de secretarias? Não vou falar nada. Mas existe essa possibilidade? Será feito o que for necessário. Porque hoje o índice de gastos com a folha de pagamento alcança mais de 50%, e o Dieter diminuiu o número de comissionados em relação ao governo anterior. Certo. Faremos o necessário, porque a redução de secretarias também não significa, às vezes, economia, porque os outros cargos continuam. E nem a questão de dizer ‘só cargos políticos’ ou ‘só cargos técnicos’. Tem setor que tem que ser técnico e tem setor que tem que ser político. Na verdade, tem que existir uma mescla, então nós vamos ver e sentir. Não vou dizer que será dez, ou doze, ou oito ou quinze secretarias. Mas o senhor pretende fazer uma reforma administrativa? Ainda este ano, se possível, antes de assumir. Porque sinceramente, precisamos entrar no dia 1º de janeiro na quinta marcha, não podemos brincar ou ensaiar. E nós temos todo o apoio do Dieter e do governo dele, será uma transição totalmente tranquila, transparente, certeza absoluta que o Dieter e toda a equipe dele vai me ajudar em tudo que puder, porque afinal de contas estamos lidando com números e precisamos apresentar a realidade. Ontem, quando conversávamos depois da eleição, pareceu que o senhor gostaria de ter feito mais votos. Aqui entre nós, meu sonho era fazer pelo menos 50% dos votos, e levar sete vereadores. Nos vereadores nós atingimos. Agora o senhor tem a oportunidade de provar para os eleitores que não votaram no senhor que eles estavam errados? Certamente, por isso digo que quero entregar meu governo com mínimo de 80% de aprovação, e vou fazê-lo, porque na hora do trabalho eu sou muito sério. E é isso que quero levar e fazer com que nossa equipe toda entenda, tanto é que uma das primeiras ações será me reunir com todos os funcionários da prefeitura, quero conhecer todos os setores. Não quero ser um prefeito de gabinete, serei um prefeito de setores. E eu não sou de ficar trocando de partido, mas eu sou um centro-direita, eu não sou centro-esquerda. Com essa sua eleição e o sonho de chegar com 80% de aprovação no fim do mandato, o senhor planeja fazer história política depois? Não tenho essa intenção, porque vai depender muito do que nós vamos conseguir realizar, e eu tenho um negócio que eu gosto demais, que é a natureza, agricultura, os animais. E a política, pode ser que tenha enriquecido alguém, mas acho que, para políticos sérios, a política só empobrece você, financeiramente, o teu custo, o que você tem que investir e manter. Por isso tantos me questionaram por que não doaria meu salário. Eu ia perguntar isso, o senhor vai abrir mão do salário? Não. Para começar, eu vou andar com meu carro, meu motorista, meu combustível, esse é o primeiro ponto. Segundo lugar, vamos supor, da forma como eu trabalho, talvez eu tenha que ter um assessor de imprensa, ou alguém da informática, alguém muito hábil, porque eu sou de fazer, de registrar, de ter um sistema organizado, eu não sou de ir passando os projetos para frente deixando com que morram. E talvez não encontre essa pessoa na Prefeitura, talvez eu tenha que trazer alguém, e isso não é tão barato, talvez eu tenha que pagar do meu bolso. Ou às vezes uma pessoa que vem te pedir uma caixa de remédio, uma ajuda. Ou, se tudo estiver bem, eu posso chegar no fim do mês e fazer algum repasse, uma doação com meu salário. Por exemplo, a Apae, que enfrenta uma situação crítica, e olha o trabalho que ela faz. A transição começa quando? Hoje (segunda-feira, dia 3) vamos dar as entrevistas que temos que dar, conversar talvez com o Udo, mas essa semana certamente que vamos conversar com o prefeito e vamos dar continuidade naquilo que tiver que dar. É um sonho realizado, ser prefeito? É um sonho realizado da seguinte forma, sou uma pessoa que gosta de trabalhar e tenho muitas saudades daquilo que aprendi e vivenciei na minha vida Eu vivi muitas dificuldades, sei como são as coisas. Por isso tudo que quero ser prefeito de Jaraguá, porque quero ser diferente, quero resgatar valores, eu sei que vou me incomodar muito.