Por Ana Paula Gonçalves | Foto Eduardo Montecino Moradoras do bairro Santa Luzia, em Jaraguá do Sul, as professoras aposentadas Etelvina Dalri Busnardo, 79 anos, e Edir Otília Gascho Demarchi, 75, são populares entre a população local. Ambas residem na localidade há mais de sete décadas acompanhando de perto todas as transformações e desenvolvimento. Além disso, foram responsáveis pela educação de diversas gerações. Ex-diretora da Escola Estadual Elza Granzotto Ferraz, Edir revela que nasceu no bairro, casou e residiu sempre naquela região. Hoje, é vizinha dos filhos, também criados no Santa Luzia. Ela conta que antigamente, na escola estadual isolada Santa Luzia, havia apenas uma sala de aula. “O primeiro e segundo anos eram de manhã e o terceiro e quarto à tarde. Havia apenas dois professores. Depois, no início dos anos 1950, foi construída a escola que hoje está passando por reforma e está para ser tombada, onde havia quatro salas de aula. Passou a chamar-se Escola Reunida Professora Elza Granzotto Ferraz. Lá iniciei em 1960. Fui professora por 16 anos e diretora por dez”, revela. Nos anos 1970, a escola passou a oferecer ensino do quarto ao oitavo ano. “Nessa época, as professoras eram todas aqui do bairro, apenas duas ou três vinham do Centro. Foi um período muito bom porque a gente conhecia todos os pais, conhecia os alunos, conhecia as necessidades do bairro. E a escola cresceu muito, por exemplo, com a vinda dos Maier”, relembra Etelvina. Diversas famílias, segundo conta, migraram do Paraná, do oeste de Santa Catarina e de Minas Gerais e se estabeleceram no Santa Luzia. “Foi um período de grande crescimento. Estas famílias vieram trabalhar na indústria. Na época, a Frigumz Alimentos chegou a ter 600 funcionários”, lembra. As mudanças em sala de aula  Professoras em um período onde o apoio da comunidade era essencial para estruturar uma escola, elas comentam sobre a educação da época. “Antes era mais fácil ensinar, porque a comunidade estava mais presente na escola. Nossos alunos aproveitavam as oportunidades. Um exemplo disso foi o desfile do centenário de Jaraguá do Sul. Eles foram bem organizados, uniformizados. Para muitos era a oportunidade de conhecer o Centro da cidade. Foi tão lindo que ganhamos, entre todas as escolas, o terceiro lugar, com honra ao mérito”, orgulha-se Etelvina. “Hoje, os pais têm mais problemas, mais dificuldades, as turmas são mais numerosas. Naquela época, o difícil era vir à escola, pois não havia transporte, era a pé ou de bicicleta. Mas, até hoje guardo boas lembranças. É muito bom ser reconhecida na rua pelas pessoas, nossos ex-alunos do EJA (Educação para Jovens e Adultos), por exemplo, são muito gratos e lembram da gente com carinho. Isso é maravilhoso”, diz Edir, emocionada. Indústria, comércio e estrutura do bairro No período da colonização, de acordo com Etelvina, a região que compreende o bairro era tomada por lavouras. “As famílias que se estabeleceram eram numerosas, com muitos filhos. Então, não podiam apenas ficar na roça, não dava para todos ficarem. Aí, partiam para Joinville. Ficavam os velhos com um ou dois filhos aqui. Depois, quando surgiram as grandes indústrias de Jaraguá, como a WEG e Marisol, os filhos passaram a ficar aqui. O próprio transporte melhorou depois disso, com ônibus circulando toda hora. Hoje, o bairro tem muitos jovens”, comentam as aposentadas. Atualmente, o bairro abriga panificadora, frigorífico, fábrica de papelão, fábrica de rações, muitas facções (costureiras terceirizadas por malharias), entre outros empreendimentos, além de cultivo de banana e arroz (com beneficiamento). Através do Minha Casa Minha Vida, estão sendo construídas novas moradias no Santa Luzia, que deverão abrigar aproximadamente 300 pessoas. “Por um lado isso é muito bom. Por outro, gera preocupação, pois serão necessárias mais vagas em creches e escolas, mais ônibus, mais postos de saúde, mais emprego. É preciso se estruturar para absorver mais pessoas”, destaca Edir. Guardando a história do bairro Santa Luzia, há o Museu Di Ferramenta D’Affari Dei Nonni. Ali são preservadas mobílias, documentos, fotos, equipamentos de agropecuária e outros objetos que retratam a colonização da localidade. Segundo as aposentadas, o bairro é bem estruturado, tendo tudo o que é necessário. “Temos banco, Correios, escolas e estamos perto do Centro. Todos aqui se conhecem e convivem bem. Há 10 anos, eu e a Edir fundamos um grupo da terceira idade que hoje possui aproximadamente 80 integrantes. É uma forma de nos mantermos ativas. Não podemos parar”, brinca Etelvina.