Além de atuar como médica dos militares, Marina participou de ações sociais e fez trabalho voluntário em um abrigo de crianças que perderam os pais após o terremoto de 2010
Além de atuar como médica dos militares, Marina participou de ações sociais e fez trabalho voluntário em um abrigo de crianças que perderam os pais após o terremoto de 2010
Viver em uma base militar no país considerado o mais pobre das Américas e um dos mais carentes do mundo, devastado pelo terremoto em 2010 e afetado diariamente pelos altos índices de violência. Essa foi a realidade confrontada por Marina Canuto Corrêa. Recrutada para a missão de reconstrução do Haiti em 2012, a médica, na época militar, usa as experiências como uma forma de incentivo ao trabalho voluntário. Contribuir com o Haiti era uma vontade distante, mantida desde a época da faculdade. Primeiro, ela ingressou no exército para atuar na Amazônia, algo que sempre teve interesse e curiosidade. Durante pouco mais de um ano, Marina trabalhou com moradores locais e em comunidades indígenas. Foi neste período em que surgiu a oportunidade de ir para o Haiti. “Durante seis meses saía de Porto Velho, em Rondônia, com destino a São Miguel do Oeste, Florianópolis ou Brasília, onde os treinamentos e testes para participar da missão no Haiti aconteciam”, relata. Após meses de dedicação, ela foi selecionada para atuar como médica militar e médica da ONU. Ao chegar ao país que tem cerca de 10 milhões de habitantes, sendo 4 milhões crianças, ela deu de cara com uma dura realidade, difícil até para descrever. “Tudo que você aprende antes sobre o Haiti, você coloca dez vezes mais do que teus olhos enxergam. Porque você imagina um lugar pobre, sem saneamento, água, luz, trabalho, alimentação e sem nada. Mas quando você chega é uma coisa totalmente diferente, é potencializado”, conta. Marina morou por oito meses dentro da base militar montada na cidade de Porto Príncipe, junto com aproximadamente 670 militares que foram recrutados para a missão. Destes, apenas oito eram mulheres e Marina era a única médica mulher que realizada atendimentos aos militares. “É um lugar que não era feito para mulher, um ambiente totalmente masculino, mas que era o nosso mundo. Vivíamos 24 horas por dia lá dentro”, lembra. Nesse tempo, ela cuidou da saúde dos militares que participavam da missão e também fez trabalho voluntário em um orfanato local, além de outras ações sociais. As experiências mais marcantes foram justamente com as crianças, que enfrentavam a situação do país sem amparo da família. Ela lembra que no período em que morou no Haiti, voltou ao Brasil por cinco dias e, em Jaraguá do Sul, fez uma campanha para arrecadar brinquedos e roupas para essas crianças. “Com autorização do coronel, levamos comida e um caminhão pipa para encher as cisternas e com o que sobrou, dei banho nas crianças. Foi só um dia, eu sei, mas quando olhávamos aquelas crianças deitadas no chão, com a barriguinha cheia, de banho tomado e roupinha limpa, fiquei com o sentimento de ter feito algo bom por elas”, lembra. A violência que tomou conta da nação chegava a todos. Marina recorda também de ter cuidado de uma criança que foi agredida e estava quase perdendo a mão devido aos machucados. Com curativos diariamente refeitos, o menino foi salvo. “A minha consciência sabia que não podia modificar a história da vida delas, mas podia fazer daquele um dia melhor para elas e era nisso que eu me apoiava para não me frustrar como ser humano”, completa. haiti 1

Médica Marina Canuto Corrêa compartilha através de palestras a experiência que viveu nos oito meses em que morou no Haiti

Experiência que mudou a vida “O que estou contando é 10% do que meus olhos viram e quase 1% do que está na minha cabeça porque eu não consigo falar em palavras tudo o que eu vi lá, tanto coisas boas quanto as ruins”, enfatiza. Mesmo após cerca de quatro anos desde sua passagem pelo Haiti, Marina tem as lembranças vivas na mente e admite as mudanças pelas quais passou. Valorizar as pequenas coisas, e as conquistas do dia a dia ganharam dimensão. Para a médica, a missão foi um período de lidar com a frustração de não conseguir fazer sozinha mudanças de impacto, diante da falta de estrutura para atuar, mas aprender que cada um pode fazer a diferença mesmo que seja apenas em um dia da vida de alguém. “Você chega lá com ambição de mudar, revolucionar, mas você não consegue. Consegue fazer um dia diferente para determinada pessoa, não consegue salvar o mundo, mas consegue fazer a diferença”, afirma. E é exatamente isso que Marina busca passar para as outras pessoas. “Não me mostrando como exemplo, mas como todos podem fazer um trabalho voluntário. Não precisa ir para o Haiti ou outro país, pode fazer na rua da sua casa. Fui ao Haiti para trabalho, mas tentei fazer algo diferente e com isso desejo induzir de forma positiva as pessoas no voluntariado”, diz. Atualmente, Marina não faz mais parte do Exército Brasileiro e trabalha como médica clínica no Posto de Saúde do bairro Nereu Ramos, onde já chegou a atender haitianos que moram na cidade. “É legal porque eles se sentem mais próximos e confiantes quando alguém entende e fala o idioma deles”, descreve a médica que aprendeu o crioulo, língua oficial do Haiti junto com o francês. haiti 3

Considerado o país mais pobre das Américas, o Haiti sofre pela violência e falta de estrutura após ter sido devastado pelo terremoto de 2010

Membros da missão lidavam com desafios psicológicos Sendo a única médica mulher atendendo militares, Marina Canuto Corrêa se transformou em uma espécie de psicóloga. Por trás de cada pessoa, e eram em torno de 670 que integravam a missão, havia diversas histórias e, muitas vezes, Marina era a escolhida para ouvi-las. “Tínhamos que trabalhar com o psicológico deles que muitas vezes marcavam consulta não por uma dor física, mas por uma psicológica. Muitos perderam familiares naquele período, terminaram relacionamentos, filhos nasceram e não puderam ver, além de toda a realidade que viam o dia todo”, lembra. Ela explica que existem vários estudos psicológicos com os militares que participam de missões como essa. “Todas as estatísticas mostram que o tempo de missão, para não se tornar algo patológico para o militar, é no máximo oito meses. Fora isso, começa a causar danos psicológico “, ressalta. Para ela, inclusive, essa foi a questão mais difícil de enfrentar e coisas mínimas da rotina, como água potável e o próprio convívio social, passam a fazer muita falta. Hoje, Marina acredita que não voltaria mais para a missão. Na época, teve a oportunidade de ficar mais um tempo, mas admite que não teve condições. “O sentimento é de missão cumprida. Fiz o meu melhor. A gente sempre acha que pode fazer mais, mas quando voltei, foi porque eu precisava voltar. Não sei se teria condições psicológicas de enfrentar tudo o que enfrentei novamente”, finaliza.