Era 20 de março de 2020 quando Jaraguá do Sul teve a confirmação de que o coronavírus havia chegado no município. A população estava em alerta desde o último dia 17 quando um lockdown havia sido decretado em todo Estado.

Um ano depois, o sistema de saúde vive o momento mais crítico da pandemia. Há cerca de 4 semanas os leitos hospitalares destinados à Covid-19 estão com 100% de ocupação.

Enquanto de março a dezembro de 2020 Jaraguá do Sul viu 93 pessoas morrerem devido a complicações da doença, em menos de 3 meses foram 71 - totalizando os 164 óbitos registrados até sexta-feira (19).

“Quando iniciou em março do ano passado, nós não imaginamos que iríamos perder tantas vidas. Não imaginávamos que seria tão longa essa caminhada e vai permanecer por muito tempo ainda, é o que se desenha”, ressalta o secretário Municipal de Saúde, Alceu Moretti.

Moretti ressalta que ações precisam ser tomadas no dia a dia, diante do comportamento do vírus | Foto: Eduardo Montecino/PMJS

A imprevisibilidade em relação à proliferação leva à necessidade de ações diárias. Nesse momento, a ocupação dos hospitais preocupa.

Uma ampliação de leitos foi feita nos últimos dias no Hospital São José, com mais seis previstos para a próxima semana no Hospital Jaraguá. E 18 profissionais que atuam nas unidades básicas de saúde foram cedidos para dar corpo ao atendimento.

“É o cenário mais difícil, mais complicado, pelo fato de uma necessidade maior a nível hospitalar associado ao cansaço dos nossos profissionais de saúde”, reforça Moretti.

A presidente do Comitê Extraordinário de Enfrentamento da Covid-19, Emanuela Woff, ressalta a urgência do momento vivido atualmente.

Levando em conta o cenário crítico, ao observar a trajetória até o momento, Emanuela avalia que o poder público municipal, integrado com entidades pelo Comitê, conseguiu fazer investimentos precisos, estruturais e que deixam legado para a população.

Apesar das vidas perdidas serem imensuráveis, a gestora pondera que os números comparativos mostram que as decisões municipais foram acertadas.

Emanuela ressalta importância das decisões integradas cos comitê | Foto: Eduardo Montecino/PMJS

Conforme dados até o dia 19, Jaraguá do Sul tinha 1.107 casos ativos e 164 mortes, enquanto que o município de Lages, com cerca de 24 mil habitantes a menos, somava em torno de 2,7 mil casos ativos e mais de 270 óbitos.

Esperança é a vacinação

Tanto Moretti quanto Emanuela ressaltam que a vacinação massiva é a única saída vista para o cenário de pandemia.

“O meu sentimento é que só a vacinação vai nos trazer uma convivência mais tranquila com a doença, eu não penso que ela vai desaparecer de uma hora para a outra”, diz a presidente do Comitê Extraordinário de Enfrentamento da Covid-19.

Por enquanto, o município recebeu 7.162 doses de vacina, o que deve ser suficiente para suprir a primeira fase que conta com 6.895 pessoas entre trabalhadores de saúde, idosos em abrigos e pessoas acima de 75 anos.

Município busca formas de adquirir vacinas | Foto: Eduardo Montecino/PMJS

Para atingir um nível de proteção, são necessárias mais doses, que não têm sido encaminhadas pelo Ministério da Saúde com a velocidade esperada.

Manuela ressalta que todas as decisões em relação à pandemia recaíram sobre os municípios - Jaraguá do Sul já busca formas de adquirir mais vacinas.

Mais de dois meses no hospital

Foram 70 dias de internação. Mais de 50 na UTI do Hospital São José. Exatamente 36 dias em coma. Quando o empresário Cleyton Stassun, 45 anos, acordou, mal conseguia acreditar que havia passado tanto tempo entre a vida e a morte.

Os primeiros sintomas da doença foram sentidos por ele e pela esposa Juliane no começo de dezembro. Eles acreditam que contraíram o vírus na empresa por algum descuido, mesmo tomando todas as medidas de proteção orientadas pelos órgãos oficiais.

“Desde o início da pandemia nós respeitamos muito e entendemos a gravidade do vírus”, comenta.

No primeiro teste, um falso negativo. Cleyton e Jualiane buscaram mais uma vez atendimento, ela positivou, ele não, mas começou o tratamento diante dos sintomas.

“A Juliane após alguns dias teve melhora, mas eu no dia 14 de dezembro precisei buscar o hospital com falta de ar, saturando próximo a 80% , muito fraco e com mal-estar”, relembra.

Não teve Natal para família, não teve Ano Novo. Foi um fim de ano de muita oração para todos. “Foi um peso, uma carga muito grande, a minha esposa teve que lidar com a minha ausência, ela foi uma guerreira”, revela.

Ainda em recuperação

Com os pulmões severamente comprometidos, Cleyton deu entrada e só deixou o hospital sentado em uma cadeira de rodas.

Saída do empresário foi motivo de comoção dado o tempo de internação | Foto PMJS

“Após a saída do hospital, dia 23 de fevereiro, começou a intensificação com fisioterapia. Existe uma síndrome pós Covid. Muito sedativo, a massa magra que se perde, a musculatura se vai, a gente sai com muita fraqueza”, relata o empresário.

Tendo visto de perto o afinco de toda equipe do hospital, Cleyton destaca a importância de todos se manterem conscientes, cada um fazendo a sua parte e percebendo que ninguém está à mercê de enfrentar uma complicação.

“O sistema de saúde está sobrecarregado. Eu pude conhecer essa realidade como paciente, dentro do hospital, não se arrisquem, o vírus é mortal e não sabemos como nosso organismo vai reagir”, finaliza.

Adeus para pai e mãe

Em menos de um mês, o empresário jaraguaense Marco Murara perdeu pai e mãe para a Covid-19.

Isso, enquanto ele e a esposa, Ieda, também estavam infectados pela doença, com sintomas físicos fortes.

Mal houve tempo para se despedir do professor aposentado David, 82 anos, e da cabeleireira Ozilda, 72, moradores de Guaramirim.

Os velórios foram em caixão fechado.

Ele conta que a suspeita é que o vírus tenha sido contraído no hospital - o pai precisou fazer um procedimento cirúrgico em julho e o filho ficou como acompanhante.

Já em casa, David começou a apresentar falta de ar e cansaço, que à primeira vista pareciam efeitos da recuperação.

Não houve tempo para socorro. O aposentado passou mal em casa por volta das 4h30 da manhã e morreu às 5h.

“Quando identificamos que ele havia morrido de Covid, fizemos o teste em minha mãe... Positivo... Como ela tinha comorbidades, lutamos mas não conseguimos evitar o óbito”, relembra Murara.

Ozilda chegou a ser entubada na UTI, mas não resistiu. Os filhos puderam ter uma breve despedida no hospital.

“As pessoas que não acreditam nos efeitos da doença ou não tomam cuidados deveriam ficar 10 minutos em uma UTI e assistir o trabalho dos profissionais. Deveriam ver o estado físico de quem está entubado. Deveriam ver o respirador funcionando. Não dormiriam por dias”, declara o empresário.

Restrição temporária

Sua opinião, como afirma, tem o peso do luto. “Como empreendedor tive que fechar as portas de um pequeno negócio, isto é difícil. Todavia eu quebraria mil vezes para ter meus pais comigo”, diz Marco Murara.

Murara com a mãe Ozilda e no último registro com o pai, durante a internação para cirurgia | Fotos Arquivo Pessoal

Para Murara, o lockdown, apesar de ruim, precisa ser cogitado de forma organizada e contundente pelos órgão responsáveis nesse momento de colapso e falta de perspectivas de vacinação.

“Eu sei que muita gente não vai gostar de ler a minha opinião. Outros vão entender, pois tiveram por duas horas um caixão lacrado com alguém que ama”.

Um ano de pandemia

20 de março de 2020

Foi confirmado o primeiro caso de coronavírus em Jaraguá do Sul, um homem de 57 anos. A notícia vem 3 dias depois do lockdown decretado pelo governo de SC

25 de março

Começaram a funcionar as teleconsultas da Secretaria de Saúde pelo 0800-643-8089

7 de abril

É criado o Comitê Extraordinário Covid-19, que reúne poder público e entidades para coordenar ações

15 de abril

Hospital São José oficializou a inauguração de dez novos leitos de UTI para dar suporte aos eventuais pacientes que desenvolverem a síndrome respiratória causada pelo vírus

16 de abril

Decreto Municipal torna obrigatório o uso de máscaras para toda a população e regras para funcionamento de empresas e serviços

21 de abril

Prefeitura começa processo de sanitização de espaços públicos

27 de abril

São adquiridos pela Prefeitura 2 mil kits para testes rápidos para detecção do Covid-19

2 de maio

Um homem de 57 anos é a primeira vítima fatal do coronavírus

9 de julho

Por novo decreto, é restringido horário de bares e restaurantes, é proibida a realização de festas e eventos seja em ambientes públicos, privados ou residências, além de outras regras

20 de julho

Passa a valer o decreto que proíbe por 15 dias a circulação do transporte coletivo, a realização de missas e cultos e de treinos de esportes coletivos ou individuais de contato

29 de julho

A Prefeitura confirma o aumento de leitos de UTI para 24 leitos adultos, sendo 10 deles no Hospital Jaraguá e os outros 14 no Hospital São José. No início da pandemia, eram 20 no total

30 de julho

Conforme o Painel Covid-19, Jaraguá do Sul atinge o primeiro ponto crítico da doença visto até então, com uma média móvel de 82.43 novos casos em 7 dias

19 de novembro

Média de novos casos atinge o maior pico até o momento. Na data, haviam sido contabilizados 271 novos casos, uma média móvel de 187,43 em 7 dias

12 de janeiro de 2021

Jaraguá do Sul registra a centésima morte por coronavírus: uma mulher de 52 anos sem comorbidades

20 de janeiro

Começa a campanha de vacinação contra a Covid-19, destinadas inicialmente a profissionais da saúde

11 de fevereiro

A vacinação chega a idosos com 90 anos ou mais e os profissionais de saúde com 60 anos ou mais

19 de fevereiro

Com aumento de casos e da ocupação dos hospitais, novas regras para atividades comerciais e eventos são estabelecidas

13 de março

Prefeitura pede abertura de mais seis leitos de UTI. O convênio é com o Hospital e Maternidade Jaraguá, no valor de R$ 848,2 mil

17 de março

Jaraguá do Sul solicita compra de 60 mil doses através do “Conectar” (Consórcio Nacional de Vacinas das Cidades Brasileiras) e cede 18 profissionais para o Hospital São José.

18 de março

Vacinação começa a acontecer no Parque Municipal de Eventos, atingindo agora pessoas com 75 anos ou mais

 

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