Fotos: Eduardo Montecino/OCP Online
Fotos: Eduardo Montecino/OCP Online
Para melhorar o ensino em Jaraguá do Sul, o primeiro passo é investir em ações que busquem mudanças culturais no ambiente escolar. É com essa convicção que o secretário da Educação do município, Elson Quil Cardozo (foto), voltou da viagem de imersão que ele e mais três professores da rede municipal participaram na Alemanha, no início do mês. As propostas surgiram a partir das experiências compartilhadas por Adriane Moretti, Margarete Rosa e Roni Carlos Santos, vencedores do prêmio Professor Nota Mil – uma ação promovida pela Prefeitura e pela Associação Empresarial de Jaraguá do Sul (Acijs).
2016_03_24 Elson Cardozo secretario de educação - em (1)OCP - Quais pontos deverão ser aplicados no ensino em curto prazo?
Elson Cardozo - Temos três modelos possíveis de aplicar imediatamente, que dizem respeito à organização das classes, autonomia do estudante e participação dos pais. O primeiro está ligado à organização da sala de aula. Nada mais é do que aplicar uma espécie de “poluição” de materiais no espaço. Em outras palavras, eles não se preocupam com salas de aula extremamente organizadas, com cadeiras enfileiradas, paredes limpas. A grande preocupação é que a criança tenha acesso fácil ao livro na hora que ela precisar..
Essa ideia também se aplica ao aproveitamento de outros espaços?
Sim. Em uma das escolas, por exemplo, foram feitas mesas retráteis no corredor. Quando a sala de aula está muito cheia ou há muitas atividades ao mesmo tempo, eles abrem as mesas e os alunos fazem suas atividades no corredor. Em outro caso, uma turma precisou estudar em um porão enquanto a sala estava em reforma. Os alunos não quiseram mais sair de lá. No Brasil essas coisas poderiam ser muito criticadas.
E o segundo ponto, que diz respeito à autonomia do estudante?
Tem a ver com dar liberdade. Tivemos um exemplo interessante em uma aula sobre frações matemáticas, em que os alunos tinham uns dez instrumentos diferentes e possuíam liberdade para escolher qual deles queriam utilizar. Na sequência, eles sentavam, trocavam materiais e ao mesmo tempo registravam tudo aquilo. Tecnicamente, os alunos precisam pensar em como fazer aquele cálculo. O professor interferia para sugerir soluções, mostrar as possibilidades. É o estímulo, algo que precisamos aplicar no Brasil.
Isso tem a ver com criar na escola um espaço parecido com a casa do aluno?
Exatamente. No Brasil, se fizermos uma criança lavar um prato, os pais vão mandar me prender. Para os alemães, a criança precisa entender que se ela usou aquele prato, ela precisa lavar. Com quatro anos ela come, lava o prato e coloca para secar. É criar a ideia de que o próprio estudante pode entender e regular o que ele precisa fazer.
Como dar início a essas mudanças?
Tudo isso passa pela formação do professor, que iremos trabalhar nos cursos que estamos programando. Os professores do programa Professor Nota Mil irão ministrar, justamente para repassar as ideias que aprenderam. Estes cursos irão começar em maio.
O último ponto então tem a ver com estimular a participação dos pais?
Hoje temos um índice de participação familiar muito pequeno. Vimos que lá está no DNA das famílias. Fomos a uma escola onde tinham duas mães trabalhando na cantina e duas na copiadora. Eles possuem um sistema de trabalho em que os pais são estimulados a trabalhar 30 horas por ano como voluntários na escola. Em uma escola com 500 pais, isso representa 15 mil horas de trabalho por ano. Isso é muito importante para a realidade da escola. Um dos pais que não podia atuar na escola, levou os alunos da turma de artes para o seu atelier e ensinou xilogravura. É o que eu faria enquanto pai. No Brasil ainda vemos isso como um castigo e lá eles tem orgulho de fazer.
E como incentivar que os pais se envolvam mais?
Temos um desafio grande pela frente. Tenho tentado junto à 8ª Promotoria de Justiça para reformular o que chamamos de escola de pais. A ideia é fazer palestras para os pais explicando a importância de participar da escola. E claro, isso passa pela formação do gestor também. Queremos que eles aprendam a chamar os pais na escola. Hoje já temos participações importantes, mas precisamos ampliar essa questão.
Entre as ideias trazidas, fala-se na construção de um centro infantil modelo. É plausível?
É uma ideia viável, mas não para a situação atual, por conta do momento financeiro que enfrentamos. Mas é extremamente saudável pensar nisso, formular um local que sirva como link entre todos os profissionais. Temos articuladores, professores referência que auxiliam nos problemas pontuais de outras escolas. Isso também existe lá.
Primeiros passos
Conheça as ideias utilizadas no ensino alemão que Jaraguá pretende aplicar nas escolas em curto prazo
1 - Melhor o aproveitamento do ambiente e do espaço escolar: inclui uma reformulação na maneira como são utilizadas as salas de aula, criando um ambiente mais livre, que crie múltiplos estímulos de aprendizado.
2 - Mais autonomia para o aluno: criação de um ambiente e metodologia de ensino que estimule a autonomia dos alunos no aprendizado, aumentando a capacidade de reflexão e análise das situações e ampliando o desenvolvimento.
3 - Participação efetiva dos pais: busca atender uma antiga demanda das instituições de ensino, que é o envolvimento direto e aprofundado dos pais no processo educacional, de forma que possam contribuir ativamente na formação dos alunos.