MARISTELA AMORIM, A CONVITE DO OCP NEWS Florianópolis Seu filho passa horas com os olhos focados naquela luz intensa da tela do celular. Não ouve e nem fala com ninguém, mas tem expressões faciais curiosas, fica sério, ri sozinho, tudo isso sem largar o dedo do teclado virtual. Você vai perder tempo se ficar irritado. Mas é preciso estar alerta. Aliás, muito alerta! Os novos hábitos de consumo de comunicação revelam uma revolução de comportamento muito maior do que aquela provocada do Graham Bell, quando inventou o telefone e mudou radicalmente a história. As cartas não desapareceram, mas pra que escrever se era muito mais fácil falar? Desde que Steve Jobs apareceu com suas ideias fantásticas de iTudo, mudando radicalmente a maneira como todos nós vivemos, uma geração que já nasceu conectada resolveu calar. Pra que falar se é mais barato escrever? E do jeito deles foram criando novos conceitos e se valendo muito naturalmente de toda a dinâmica dos programas e aplicativos que fazem o mundo girar em rede. Debatem em circuito fechado, cobiçam o sucesso alheio e, às vezes, constroem seu mundo todo particular. IMEDIATISMO E FRUSTRAÇÕES A comunicação continua essencial para a vida em sociedade, mas vem sendo feita de uma forma que parece muito estranha, pelo menos para os adultos. E preocupante, para psicólogos e professores. Fernanda Michelon realça que a conexão em excesso afeta especialmente a socialização. Psicóloga da linha Junguiana, ela atende crianças e adolescentes e, não raro, trabalha com casos específicos de ansiedade, estresse e até depressão. “Os hábitos virtuais afastam do envolvimento físico. Eles ficam arredios à questão do toque, do olho no olho, o que dificulta o desenvolvimento da afetividade. Por outro lado, nutrem admiração ao inacessível, a busca ela perfeição aumenta, querem ser ou ter as mesmas coisas que os youtubers com milhões de inscritos no canal”, descreve a profissional apontando para o que pode gerar frustração e suas consequências. Fernanda sinaliza outra causa relevante para os desequilíbrios: “as respostas rápidas da Internet levam à ansiedade, a perspectiva de reações imediatas em todas as situações. E a vida não é assim”. A psicóloga também levanta a situação de dependência, as reações de abstinência e o crescimento de internações em clínicas de recuperação que antes atendiam especificamente dependentes químicos e hoje abrem espaço para recuperar viciados online. “Os pais precisam estar bem presentes, porque tudo o que envolve socialização tem base na família. É importante acompanhar, assistir junto, saber com quem estão se relacionando e quais os tipos de valores que ele estão expostos”, recomenda. E exemplifica com a relação que tem com a própria filha, de sete anos, e que já segue celebridades mirins. “Outro dia as youtubers estavam trolando com a mãe. E isso não e engraçado. É preciso conversar, orientar, mostrar limites”, recomenda. NOMOFOBIA Ficar longe do celular e estar inacessível às redes pode causar muita angústia e irritabilidade. E isso já tem nome: nomofobia. Mesmo quem não é dependente, nem na sala de aula abre mão do acessório, deixando os professores em situação desconfortável. A situação é bem comum em todos os anos letivos, inclusive em pós-graduação. Entretanto, em alguns casos, é possível se render e usar o aparelho como ferramenta de ensino, através de aplicativos específicos para algumas atividades, como anuncia Berenice Damerau Ouriques. “Mas com muita atenção, porque no primeiro descuido eles vão para um outro espaço que não é o da pesquisa”, realça a perspicaz professora de língua portuguesa para o 6º ano do ensino fundamental 2 (o que já foi chamado de ginásio quando não existia celular). “É um recurso para um momento específico. Tem que ser usado na medida, porque atrapalha a concentração”, continua a mestre experiente que sabe que relógio hoje é só na tela e dicionário é Google. “Tem que estar aberta a isso. O mundo deles é virtual, o pensamento mais rápido que a escrita. Existe muita dificuldade em entender, fazer de novo é difícil, assim como escrever, as frases ficam soltas, interrompidas. Eles cansam, criam calos, as mãos adormecem” relata ternamente, mas ciente da interferência na questão da linguagem -  já que online tudo é abreviado - e da sua responsabilidade na amplitude do pensar e de cobrar a construção de texto, da ortografia. Assim como a psicóloga Fernanda Michelon, Berenice Ouriques também compartilha a ideia de que o mundo virtual facilita a comunicação, mas interfere nas relações interpessoais. “O objeto fica entre as pessoas, entre o abraço, entre o olhar. Há muito individualismo, mas percebo como gostam quando a gente passa a mão na cabeça, dá um abraço”, relata. Ao mesmo tempo, a professora percebe a intolerância, o não saber esperar e nem dividir o tempo com o outro. “A saída é buscar soluções dinâmicas, de acordo com o movimento deles”, resume com toda inteligência.