Durante o primeiro semestre desse ano, 10 pessoas morreram por suicídio em Jaraguá do Sul e outra 104 foram internadas em decorrência de violência autoprovocada. Falar não é fácil, mas esse é um assunto vital. E sim, conscientização é o primeiro passo para a prevenção.

Não existe perfil, uma única causa ou explicação. A psicologa do Centro de Atenção Psicossocial - Caps II, Mariana Stringari, comenta que o suicídio é multifatorial.

Ou seja, são diversos fatores que podem levar um ser humano ao sofrimento ou trauma durante a vida - nem mesmo essa matéria pode abranger esse universo de possibilidades.

Alguns convivem com depressão e outras doenças mentais mais nítidas para quem está no convívio. Pode ser um sofrimento de longa data ou algo recente que gere um comportamento impulsivo.

E nem sempre as pessoas falam sobre esses pensamentos negativos. Seguem cumprindo papeis sociais, tendo um vai e vem com momentos de felicidade ou aparentando esse bem-estar, comenta a psicóloga do Capsi - Centro de Atenção Psicossocial Infanto-juvenil, Taís Danna.

“Muitas até usam desse lado mais cômico ou feliz para mascarar seus reais sentimentos porque muitas tem vergonha de falar sobre o tema, ou pensam que não serão compreendidas, ou não querem preocupar os familiares”, comenta a especialista.

Ou seja, é preciso esquecer estereótipos para realmente estar aberto a tratar desse assunto tão complexo.

“Precisamos compreender o sofrimento daquela pessoa, entender os motivos pelos quais ela não deseja mais a vida e, então, a gente precisa sim ter mais empatia com todos. Acolher mais essa demanda, de quando as pessoas falam que estão sofrendo, poder olhar isso mais de perto, acolher, entender, porque ainda há muitos mitos em relação ao suicídio”, completa Mariana.

Os agravantes

A situação mundial vivenciada nesse ano, com a pandemia de Covid-19 e o decorrente isolamento social, acabou agravando quadros de doenças mentais e sofrimento emocional. Todo mundo, em algum momento, deve ter sentido essa angústia.

“Acredito que este momento que vivemos de mais incerteza, inclusive com prejuízos econômicos, pioram a situação. As pessoas passam a ver mais fatos negativos na vida e pensam que não há saída ou que a vida não vale a pena uma vez que sentem que há muito sofrimento no mundo”, comenta Taís. “Inclusive culturalmente vivemos um mundo com menos empatia e as pessoas se sentem menos apoiadas”.

A psicóloga Mariana Stringari percebe crescimento nos atendimentos do Caps II - que trata transtornos mais graves - nos últimos três anos. O que, para ela, também se deve a muitos fatores.

“A partir do que escuto todos os dias das pessoas, é porque a nossa sociedade hoje está ansiosa, todo mundo precisa fazer tudo ao mesmo tempo, dar conta de tudo. Precisa ser bem-sucedido, precisa estar fitness, precisa estar assim… E vai gerando um monte de sintomas. É um ciclo que gera sofrimento e ninguém dá conta de continuar”, pontua.

O mundo virtual, tão efervescente de críticas e padrões, não colabora. Se antes esses julgamentos aconteciam em pequena escala, no convívio - e já eram prejudiciais -, hoje, são publicados nas redes sociais.

Sentimento de não pertencimento, problemas de relacionamento são frequentes entre jovens adultos e podem também afetar crianças.

Entre adultos, a responsabilidades no cuidado com a família, questões de trabalho e renda, situação de assédio moral e muitas outras acabam surgindo - além de vivências traumáticas da infância e adolescência que seguem machucando por nunca ter sido devidamente tratadas.

Mariana também ressalta quanto as violências, sejam físicas, emocionais, aparecem muito nos atendimentos e precisam ser tratadas com atenção pela sociedade.

Exercitar a empatia

A capacidade de sentir o que o outro sentiria caso você estivesse na mesma situação vivida por ele. Assim pode ser definida a empatia. É essa ação de buscar a compreensão dos sentimentos e das emoções alheias através de uma análise aprofundada e racional, sem qualquer julgamento ou interferência da sua própria vivência.

Exercitar essa capacidade pode colaborar e muito para que possa existir um ambiente neutro de compreensão nos relacionamentos - o que muitas vezes abre caminho para as pessoas compartilharem seus sofrimentos, um passo importante na busca de tratamento.

“Quando valorizamos a vida do outro, a gente acolhe o sofrimento não julgando. A melhor forma de lidar com isso é acolher, falar ao amigo ou familiar que está junto, que pode contar e, claro, orientar e tentar ajudar a busca a ajuda especializada”, ressalta.

O tratamento com psicólogo ou psiquiatra precisa ser procurado, ressalta Mariana, mesmo que exista essa conversa e noção de que o assunto pode ser resolvido no meio familiar. Isso porque o juízo pessoal pode aparecer em algum momento afetar a situação.

No convívio, o papel é acolher com afeto e buscar esse atendimento.

Relações realmente próximas

Com essa abertura para a fala, a psicologa Tais Danna ressalta o olhar atendo no convívio familiar, se importando com a vida do outro.

No caso de crianças e jovens, observar mudanças de comportamento como insonia ou dormir demais, aumento ou falta de apetite e a falta de vontade de fazer coisas que antes gostava.

Por isso, é imprescindível que as famílias mantenham diálogo e uma rotina e oportunizem momentos de convivência - para que essas nuances possam ser realmente percebidas.

“A melhor forma de tratar o assunto é buscar ser direto e demonstrar apoio. Com frases como: tenho percebido que você não está bem, estou preocupada com você, você quer me contar algo ou posso te ajudar?”, comenta.

Direitos básicos e ajuda especializada

Nos últimos anos se caminhou muito em direção da prevenção com criação de serviços públicos de saúde mental, campanhas mundiais como o Setembro Amarelo e trabalho de organizações voluntárias gratuitas, como o CVV (Centro de Valorização a Vida).

A psicóloga Mariana também ressalta que existem fatores comunitários que precisam ser observados por todos.

“A gente tem que cuidar para que as pessoas tenham as suas necessidades básicas atendidas”, comenta.

“Não sofrer violência, ter diálogo, ter alimentação, moradia, poder ter cuidado e proteção na infância e adolescência, ter acesso ao trabalho e renda na vida adulta, a relacionamentos saudáveis, isso tudo é prevenção. Ter lazer, ter descanso. Quando temos acesso a todas essas coisas, é prevenção”.

Foto: prostooleh/Freepik

Apesar de parecer utopia a garantia de todos esses direitos, a psicóloga reforça a importância de cada um, nos próprios núcleos familiares, entre amigos e comunidades, buscarem esse cuidado com o outro.

Além disso, observar políticas públicas que agreguem todos e que olhem para as pessoas em sofrimento.

“Porque a gente consegue. Esse é um dado que não aparece, o Caps sim, já perdeu alguns dos nossos pacientes infelizmente, a gente lembra de cada um deles. Mas a gente conseguiu também que muitas pessoas passassem por isso e conseguissem ressignificar e conseguissem compreender o sofrimento, e voltar a ter sentido na vida, voltar ter vontade de viver, e isso é possível mesmo diante de alguns transtornos mentais mais graves”, enfatiza Mariana.

Como conseguir ajuda?

Você sente que precisa de amparo para conseguir lidar com alguma situação difícil, algo que vem incomodando? Conhece alguém que está emocional abalado, estressado ou angustiado?

Existem formas gratuitas de conseguir ajuda. O CVV presta serviço voluntário e gratuito de prevenção do suicídio e apoio emocional para todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo.

Os mais de 3 milhões de atendimentos anuais são realizados por 4.200 voluntários em mais de 120 postos de atendimento pelo telefone 188 (sem custo de ligação), ou pelo www.cvv.org.br via chat, e-mail ou carta.

Para quem busca encaminhamento para serviços do Capsi e Caps II, o caminho ideal é pela unidade básica de saúde o bairro. Lembrando que é importante deixar clara a necessidade pelo atendimento, passando com clareza o estado emocional.

O Caps II de Jaraguá do Sul atende diretamente no caso de pessoas que estiverem passando por um surto com ideações suicidas, e nesses casos pode ser procurado diretamente. O telefone é o (47) 3276-0604.

 

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