Ao mesmo tempo em que a internet criou um elo global e aproximou de maneira irreversível pessoas e culturas de diferentes partes do planeta, estamos vivenciando, também, a propagação da mentira. As redes sociais são uma fonte permanente de notícias falsas. É cada vez mais comum haver dúvidas no momento de compartilhar um conteúdo. No entanto, essa proliferação de fofocas, boatos ou informações sem embasamento traz à tona a importância do jornalismo (veículos e profissionais) como fonte de verdade e credibilidade. Neste sábado, 1 de abril, considerado o Dia da Mentira, o OCP aborda a insegurança dos leitores diante do conteúdo duvidoso. De acordo com o Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação da USP, na última semana do impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff, em abril de 2016, a cada cinco notícias compartilhadas no Facebook em relação ao tema, três eram falsas. O site G1.com apurou que as notícias falsas sobre a eleição nos Estados Unidos tiveram mais alcance que as notícias reais. bollling Tais estudos mostram que há muita dificuldade em identificar quem está dizendo a verdade sobre qualquer conteúdo, especialmente a respeito de temas tão relevantes. A complexidade é ainda maior quando a população jovem busca informações. Segundo um estudo da Universidade de Stanford, apesar de constituírem a geração mais familiarizada com as novas tecnologias de comunicação, crianças e jovens têm, no geral, pouca capacidade de diferenciar notícias produzidas por fontes confiáveis e informações falsas na internet. Os fakes: proibição da amamentação, morte de ator e retirada de programa do ar Um clássico “fake” debatido até hoje nas redes sociais é a lei que proíbe mulheres de amamentarem seus filhos em público. A notícia que gerou revolta em muitas pessoas não é verdadeira, já que esta lei não existe no Brasil. Segundo informações do blog Jurídico Certo, a postagem falsa, propagada em janeiro de 2016, destacava que a proposta de lei teria sido aprovada por esta ter se tornado uma das principais causas de estupro no país. Entretanto, o blog ressalta que as leis existentes são opostas a esta mentira. O site G1, por exemplo, traz notícia de 2015 intitulada: “Lei que multa quem proibir mãe de amamentar em público entra em vigor”, referindo-se a uma legislação da cidade de São Paulo. Esta prevê a punição a quaisquer estabelecimentos “destinados a atividades comerciais, culturais, recreativas ou à prestação serviço público ou privado” que impedirem a mãe de amamentar o filho, dentro de suas instalações. “A incoerência desse episódio torna-se ainda mais gritante quando se sabe que os deputados apontados como responsáveis pela autoria da lei existem, de fato, porém, são mexicanos. Isso mesmo, Oscar Garcia Barron e Rogério Castro Vazquez são políticos do México”, destaca o blog Jurídico Certo. eolrds Na semana que antecedeu o impeachment da presidente Dilma Rousseff, as “virais falsas” tomaram conta do Facebook. Levantamento do Grupo de Pesquisa em Políticas Públicas de Acesso à Informação da USP apontou algumas delas: “Polícia Federal quer saber os motivos para Dilma doar R$30 bilhões a Friboi”, do site Pensa Brasil (190.150 compartilhamentos); “Presidente do PDT ordena que militância pró-Dilma vá armada no domingo: ‘Atirar para matar’”, do site Diário do Brasil (65.737 compartilhamentos). A morte de atores famosos, entre os quais Edson Celulari, Fernanda Montenegro e Tarcísio Meira, também é muito utilizada para gerar comoção nos internautas e, de quebra, o compartilhamento em massa de notícia falsa. Noticias falsas A produção desse material sai de páginas clones dos maiores portais, como o G1, R7 e Uol. Edson Celulari, por exemplo, acabou usando seu próprio perfil em redes sociais para desmentir o boato, depois que seus fãs lhe enviaram inúmeras mensagens de pesar. O ator lutava contra um câncer na época. Ele permanece vivo. Já uma notícia veiculada no final de fevereiro de 2017 afirmava que o Ministro Gilmar Mendes havia determinado o cancelamento imediato do BBB17. O pedido do ministro, segundo o que se espalhou nas redes sociais, foi feito depois dele ter assistido a cenas mostrando um casal de participantes do reality show namorando debaixo do edredom. No entanto, a notícia é falsa e foi criada exclusivamente com o intuito de ganhar curtidas e compartilhamentos. Ela surgiu em um blog de origem duvidosa, chamado The Jornal Brasil que, mesmo sem citar nenhuma fonte ou provar nada, conseguiu com que outros sites e blogs copiassem a matéria sem questionar. Não caia nessa Alguns passos podem ajudar o leitor a não cair em boatos que circulam na internet e a identificar a veracidade de uma notícia. O primeiro é verificar a fonte da informação, pois as “fakes” normalmente não citam fontes ou relatam fontes anônimas (um amigo da família, um delegado, etc). A estrutura do texto também pode ser um indício, já que os textos falsos geralmente trazem erros ortográficos, de concordância e tom alarmista. Os boatos também, normalmente, pedem o compartilhamento da informação (essa é a forma básica de sobrevivência das mentiras). Na dúvida, consulte nos sites de notícias dos veículos tradicionais. O papel dos jornais e portais de notícias Na contramão da produção desenfreada de conteúdo “raso” ou mentiroso estão os jornais e sites que fazem parte de grupos de comunicação, veículos considerados confiáveis e seguros devido à forma fidedigna com que produzem e publicam a notícia. Segundo o presidente da Associação Nacional de Jornais (ANJ) e do Fórum Mundial de Editores, Marcelo Rech, mais que transmissores de notícias, os jornais são certificadores da realidade. “No mundo atual, não há escassez de informação. O que há é carência de informação confiável, lastreada em valores éticos, na independência, em técnicas profissionais e na cultura de perseguir a todo o custo a verdade e a pluralidade. E os jornais são grandes fornecedores desse bem escasso”, ressalta Rech. A chefe de redação e colunista de política do OCP, Patrícia Moraes, lembra que os veículos de comunicação têm diferentes linhas editoriais, porém, estão sempre na busca pela informação verdadeira e são cobrados pelo seu público a dar espaço para os diferentes lados envolvidos na mesma história. “Exemplo bem claro disso é o que estamos enfrentando com a greve dos servidores. De um lado, o governo reclama do espaço que o movimento grevista tem ganhado no jornal. De outro, há servidores diariamente se queixando que o jornal escuta mais o governo. Entretanto, o leitor que não é servidor e nem partidário do prefeito ou de um candidato derrotado percebe que estamos buscando a máxima isenção. Todos têm tido espaço e tratamento respeitoso. Isso é trabalho de uma empresa séria e profissionais comprometidos. Publicar informação qualquer um pode, fazer jornalismo, porém, demanda recursos, conhecimento e pessoal qualificado. As pessoas estão percebendo cada vez mais a diferença entre jornalismo e amadorismo e como é importante buscar fontes confiáveis”, ressalta a jornalista. Por: Ana Paula Gonçalves