Em dois anos, o número de agricultores certificados aumentou 62,5% e demanda pelo segmento é cada vez maior

Na busca pela qualidade de vida por meio de uma alimentação saudável, os alimentos orgânicos saem na frente. Cultivados sem o uso de agrotóxicos, adubos químicos ou substâncias sintéticas que agridam o meio ambiente, esses produtos compõem um mercado em expansão. As vantagens são muitas, tanto para quem planta, quanto para quem consome. Em Jaraguá do Sul, dois grupos de produtores, com aproximadamente 17 integrantes no total, possuem certificação ou estão em processo de adequação para atingir o padrão exigido para a produção de orgânicos (quatro deles estão em processo de transição). No Brasil, o sistema orgânico está regulamentado pela Lei Federal 10.831 de 2003, que contém normas disciplinares para todo o processo de produção até chegar ao consumidor final. Bananicultor Organico - em (3)-2 O bananicultor Alberto Carlos Uecker, 37 anos, assim como seu pai, Nelso Uecker, 67, migrou do sistema convencional para o orgânico e possui certificação há quatro anos. Ele coordena o Grupo de Orgânicos Jaraguá e atua no processo de certificação participativa da rede Eco Vida. Há dois anos, quando concedeu entrevista ao Jornal OCP, Uecker ainda mantinha os dois formatos de plantio na propriedade. Durante o período, ele viu o mercado de orgânicos crescer cada vez mais. Em 2015, apenas oito produtores eram certificados no município, hoje são 13, um aumento de 62,5%. “Para nós, triplicou a produção, tanto em trabalho, quanto na procura pelos orgânicos. Naquela época, eu estava iniciando no ramo. Hoje, eu compro uma parte da produção jaraguaense para levar a outros municípios, como Curitiba, por exemplo”, diz. Ele explica que no grupo há seis propriedades certificadas e três em transição. Devido à experiência e organização dos produtores locais, hoje, uma propriedade de São Bento do Sul também faz parte do grupo. “Estamos nos expandido e aumentando a nossa oferta”, garante. O produtor explica que a produção de orgânicos exige mais mão de obra. “Para manter, precisamos que a família pegue junto, porque se empregarmos outras pessoas já descaracteriza a agricultura familiar. E, embora este seja um mercado novo, há muita exigência. Nossos produtos são fiscalizados praticamente todo o mês”, revela. “No sistema orgânico, há o produtor que planta um pouco de tudo e existe a alta produção. A nossa região se encaixa na alta produção. No nosso caso, sobrevivemos somente da banana”, complementa sua esposa, Cintia Uecker, 31 anos. O casal observa que a maior dificuldade de produção na região recai sobre as frutas orgânicas, com excessão da banana. “Na parte das folhosas, falta um pouco mais de incentivo aqui em Jaraguá. Existem hortas comunitárias, mas não são orgânicas. Há diferença. Quando uma pessoa planta em casa e consome o que cultiva, ela está consumindo um alimento natural, mas que não é orgânico. A agroecologia é outra coisa. Existem normas de produção rígidas que precisamos seguir”, ressalta Uecker., Preservação da natureza Para ser considerado orgânico, o processo produtivo contempla o uso responsável do solo, da água, do ar e dos demais recursos naturais, respeitando as relações sociais e culturais. “O foco da agroecologia é preservar. A questão das abelhas, por exemplo, que estão morrendo por causa do veneno utilizado na produção do sistema convencional, hoje, elas estão sobrevivendo nas propriedades onde os orgânicos são cultivados. A abelha preta, que faz a distribuição de polen do maracujá, estava sumindo. Mas, nós temos ela dentro da terra conosco. Marcamos o local onde elas vivem para não pisar. Se fosse passado o veneno, não teríamos mais estas abelhas. O orgânico trabalha com a preservação da natureza”, destaca o bananicultor. Cintia também auxilia na produção. Além do trabalho direto no cultivo, ela também cuida da parte burocrática e busca outros meios de aproveitar melhor a safra. Assim, pesquisando os subprodutos, hoje a família produz farinha e passas de banana, também comercializados. IMG_0531 Em Jaraguá, há cultivo de batata, cebola e outros produtos pelo sistema orgânico. “Tudo depende da época. Em alguns períodos, a banana orgânica fica mais bonita que a convencional, em outros, ela não chega a ficar tão bonita. E uma das dificuldades que vemos muito é que, mesmo que a nossa fruta esteja mais barata, o consumidor não compra, porque a convencional é bonita, e as pessoas escolhem pela aparência. Muitos não sabem qual a diferença entre a orgânica e a convencional”, relata Cintia, acrescentando que há dúvidas sobre o produto quando este está mais barato. “As pessoas associam o orgânico a um produto sempre mais caro. Mas, dentro do sistema orgânico, nós lutamos muito para tabelar um preço e mantê-lo, porque assim não desvalorizamos o produtor”, complementa. Em termos de saúde, a família também já sentiu diferença de lidar apenas com orgânicos. “Ao lidar com o veneno, sangrava o nariz, ele (o marido) precisava tomar leite para se desintoxicar, ficava sempre ruim, com tonturas. O veneno ataca o sistema nervoso, altera o humor da pessoa. Hoje, apesar de mais trabalhoso, pois atuamos em todo o processo, desde a plantação até a venda, nossa qualidade de vida é bem melhor”, revela a produtora. No sistema orgânico, a planta adquire imunidade e se reestrutura praticamente sozinha, mas também podem ser usados os biofertilizantes.  Apoio técnico No município, os produtores ainda estão em tratativas para promover uma feira de produtos orgânicos. Conforme o engenheiro agrônomo da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Rural e Abastecimento, Jackson Schütz, os produtores locais mostram interesse em aumentar a produção ou começar a cultivar os orgânicos. “A Secretaria dá todo o apoio técnico e orienta sobre as etapas a serem seguidas, especialmente em relação ao controle de pragas e outras normas. Auxiliamos também no sentido de ampliar e melhorar a produção. Existem dois tipos de certificação, a participativa e a por auditoria. Nem todos conseguem se certificar, cada caso é um caso”, salienta. Na certificação participativa, que é o caso da Eco Vida, os produtores ajudam a fiscalizar as propriedades e orientam sobre as mudanças necessárias. Ao não se adaptar, a propriedade pode perder o certificado. “É preciso consciência agroecológica”, enfatiza o agricultor Alberto Carlos Uecker.  Produção diversificada Há aproximadamente 10 anos, o casal Silvio e Ieda Meurer já fazia planos para depois da aposentadoria. Como possuem uma área favorável ao cultivo de orgânicos, decidiram implantar uma infraestrutura adequada para começar o negócio. “Estamos aqui há mais de um ano, em definitivo, plantando. Antes, vínhamos somente aos finais de semana. O que nos motivou foi a procura dos clientes, que tinham mais interesse nos orgânicos. Foi aí que buscamos a certificação. Procuramos mais informação, pois exige muito estudo. Hoje, estamos atuando numa área excelente, que é apreciada justamente por pessoas que valorizam a qualidade de vida, que buscam saúde”, diz Ieda. Na propriedade, localizada na Vila Lenzi, há pupunha, aipim, batata doce, rúcula, alface, alcachofra, repolho, abóbora, espinafre, cebola, salsinha, chás (hortelã, boldo, entre outros), pimentão, quiabo, fava, alho poró, tomates, alface, morango, maracujá, fruta do conde e uvas. colhendo acerola Além do casal, o filho, Leandro, de 25 anos, também auxilia na produção, que exige muita mão de obra. Em razão da certificação, existem procedimentos padrão, como identificar os canteiros e colocar a data de plantio, além da rotatividade da cultura. O comércio é feito na própria propriedade. “Nós também utilizamos a permacultura, onde as plantas são cultivadas mais soltas e em meio a outras plantas. O diferencial é não saber onde começa o mato e onde termina a plantação, sendo o método o mais natural possível”, observa Leandro. “As pessoas vêm buscar aqui. Algumas famílias trazem as crianças para conhecer e aproveitar esse contado com a natureza, colhendo o próprio alimento e aprendendo mais sobre as culturas. Recebemos a visitação de escolas também e temos um projeto de preparar um espaço mais adequado para isso”, conclui Ieda. Mercado em crescimento De acordo com dados do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, a agricultura orgânica cresce 30% ao ano e movimenta R$ 2,5 bilhões. Em Jaraguá do Sul, conforme Ronaldo de Oliveira, chefe de loja de uma da rede de supermercado de Santa Catarina, a procura dos jaraguaenses por produtos orgânicos vem aumentando. “As pessoas estão se interessando mais, mas ainda falta divulgação, falta entender melhor o que é um alimento orgânico. O preço também é diferenciado. Na parte de hortifruti a aceitação é maior, mas outros produtos, como os secos (arroz orgânico, por exemplo), nem tanto”, destaca. Segundo pesquisa do Instituto Kayrós, os alimentos orgânicos podem ser de duas a quatro vezes mais caros nos supermercados em relação aos convencionais. Mas o valor é relativo ao canal de comercialização escolhido pelo consumidor. Por: Ana Paula Gonçalves