O Ministério da Saúde anunciou na semana passada que, a partir de 2017, incluirá meninos de 12 a 13 anos na campanha de vacinação contra o HPV, o vírus do papiloma humano, sexualmente transmissível, que causa uma série de doenças. O plano é ampliar a faixa etária gradativamente até que, em 2020, a vacinação seja oferecida a meninos dos 9 aos 13 anos, como já ocorre com meninas desde 2014. Segundo o Ministério da Saúde, a medida faz do Brasil o primeiro país da América do Sul e o sétimo do mundo a incluir meninos em um programa nacional de imunização de HPV. Tanto em mulheres quanto em homens, ele pode causar problemas como verrugas genitais, que são mais fáceis de tratar, até doenças graves. Subtipos do vírus estão relacionados a quase todos os casos de cânceres no colo útero, o que explica o foco inicial no sexo feminino. No entanto, ainda que em números menores e sem o mesmo nível de divulgação, o vírus está também relacionado a cânceres como o de pênis, ânus e boca, tornando necessária a imunização de ambos os sexos. Para tirar dúvidas sobre o vírus e a vacinação, o Curso de Biomedicina da Católica de Santa Catarina em Joinville promoveu uma palestra gratuita sobre HPV, na Mitra Diocesana de Joinville. A palestra foi ministrada pelo patologista Hugo de Carvalho, do Centro de Anatomia, Patologia e Imunohistoquímica (CAPI) de Joinville, com quase 50 anos de experiência na especialidade. O evento fez parte da 5ª Semana de Estudos do Curso de Biomedicina, promovida entre os dias 19 e 21. Na entrevista abaixo, o patologista esclarece sobre a relação entre HPV e alguns tipos de câncer e fala sobre a importância de se vacinar meninos e meninas para evitar o avanço da do vírus. Católica de Santa Catarina – Qual a relação entre o HPV e o câncer de colo do útero? Hugo de Carvalho - O HPV e o câncer de colo do útero têm quase uma linha direta. Existe uma variedade muito grande de tipos de HPV e, por isso, o vírus pode ser considerado quase o responsável automático do câncer de colo do útero e outras partes do corpo. Porém, nem sempre o HPV leva ao câncer de colo do útero, pois o vírus também causa lesões menos danosas, que não chegam a virar um carcinoma. Quanto tempo o HPV pode levar para se manifestar após o contágio? Pode levar de três a quatro semanas até meses. Depende muito do tipo do HPV e da carga viral que é infectante na pessoa. Às vezes a incubação é mais longa, por causa das defesas do organismo, e o período de latência pode ser maior. Não é muito comum, mas pode acontecer. Além disso, o HPV não tem cura definitiva porque nem sempre o vírus é eliminado do corpo. Quais problemas o HPV pode causar ao homem? Assim como a mulher, o homem está sujeito a diversos sintomas, como verrugas no órgão genital e ânus. Mais raramente, também pode acometer a uretra, faringe, laringe e esôfago e causar alguns tipos de câncer nas regiões atingidas. O exame de Papanicolau deve ser feito todos os anos para prevenir o câncer de colo do útero? Fazer o exame anualmente é uma boa forma de prevenção. Se a mulher tiver algum tipo de suspeita, esse prazo pode ser encurtado. Se, por três anos seguidos o exame der normal, o período pode ser alongado. Há casos de pais que não autorizam que a filha se vacine com medo que ela comece a vida sexual mais cedo. Existe relação entre uma coisa e outra? De forma alguma. Isso é um mito e é muito prejudicial, pois os pais não sabem o futuro das suas filhas. E agora, com a vacina gratuita para os meninos, eles têm de se imunizar também. Um dos dois, homem ou mulher, é contagiante, então é preciso vacinar os dois para quebrar essa cadeia. Hoje, a vacina protege apenas contra alguns tipos de HPV, mas, quem sabe, um dia surja uma vacina completa. Também seria um avanço se pessoas de qualquer idade pudessem se vacinar de graça contra o HPV.