Saudável, pouco calórico e que pode compor grande variedade de receitas, o palmito é um alimento muito consumido no Brasil. Dados da Embrapa indicam que o país é o maior produtor e consumidor mundial de palmito, sendo que o estado do Pará contribui com a maior fatia da produção nacional (cerca de 90%). Em Santa Catarina, com o esgotamento da espécie nativa, a juçara, a palmeira-real australiana tornou-se alternativa. Hoje, a agrissilvicultura – como é chamada a combinação de cultivos agrícolas e árvores – com essa espécie é tecnicamente viável e economicamente rentável, auxilia na recuperação de áreas degradadas e possibilita o desenvolvimento sustentável da cadeia produtiva do palmito de qualidade.
Conservas podem conter o palmito inteiro, a banda, a rodela ou o picadinho | Foto Eduardo Montecino/OCP
Em Jaraguá do Sul, a família Berri dedica-se ao cultivo e beneficiamento da palmeira-real há duas décadas. Com o apoio da Prefeitura Municipal e da Epagri, o produtor rural Ivanor Berri, 58 anos, resolveu diversificar os negócios e, paralelamente à rizicultura, deu início à indústria e comércio de conservas há 17 anos, localizada no bairro Vieira. Junto aos filhos Kelly Berri, 33 anos, Elaine Berri Vassão, 28, Diego Berri, 27, e à esposa Rita, 57, ele toca a empresa familiar, que ainda emprega outros colaboradores, totalizando 13 pessoas. Ainda produzindo arroz, ele diz que se um setor não vai bem, a família conta com o outro. “Sempre lidei com a terra, desde que morava em Massaranduba. Eu vim de lá faz 34 anos. Quando resolvi diversificar, tive muito apoio. A Prefeitura queria uma empresa de palmito dentro do município. E como eu comecei a plantar essa palmeira-real, eles incentivaram a gente, tanto a Prefeitura quanto a Epagri. Foi um apoio importante”, recorda. Desde então, a empresa enfrenta os altos e baixos de um mercado cada vez mais competitivo, cujos desafios vão desde a mão de obra até a produção clandestina de palmito – que não é fiscalizada pela Vigilância Sanitária ou tem autorização para funcionamento. Kelly, que cuida da administração, diz que a concorrência de uns dois anos para cá é cada vez maior. “Com o preço tão abaixo, a gente não consegue competir. Às vezes, tentamos fazer um preço melhor para as vendas em grande volume, mas é difícil. Sem contar os produtores de fundo de quintal. É preciso levar em conta as licenças, os alvarás. O imposto muda de uma região para outra, se a empresa tem produção própria também muda. Há uma série de questões que contam”, aponta. Elaine complementa destacando que um dos grandes problemas atualmente é a falta de funcionários. “Há muita rotatividade, daí falta muito e acaba prejudicando o negócio. A produção é todo manual, não tem nada mecanizado”, diz a responsável pela produção, embalagens e outros setores da empresa. Maior mercado do palmito Berri está em Curitiba Trabalhando com a palmeira-real e também com a pupunha, a Berri produz cerca de 600 cabeças por dia e aproximadamente 12 mil vidros de palmito por mês. Nas conservas, oferece o palmito inteiro, que é o primeiro corte e a parte mais mole; a banda, que é quando a peça se abre e fica em miolo; e também a rodela e o picadinho, o último corte da palmeira, conforme explica Eliane. Os outros produtos vendidos em conserva, como beterraba, cebolinha e pepino, são terceirizados e dependem da oferta. No sabor, ela diz que o palmito tipo pupunha é um pouquinho mais amargo, enquanto o da palmeira-real é mais suave. Segundo informa, a maior parte da produção, cerca de 80%, vai para Curitiba, saindo uma carga por semana. As entregas na capital paranaense são feitas por Diego, que também ajuda na produção e atende os fornecedores de matéria-prima. Em Jaraguá do Sul, os produtos Berri podem ser encontrados no Mercado Público Municipal. Projeto sustentável e renda extra Apostando na sustentabilidade, a família está aproveitando a casca da palmeira para a produção de composto orgânico. De acordo com Eliane, os irmãos participaram de um curso oferecido pela Epagri, que resultou no projeto de reutilização da casca após triturada. “O projeto do meu irmão foi reaproveitar a casca, que seria jogada no lixo, para compostagem. O material leva um tempo sendo processado, e a nossa expectativa é comercializá-lo depois, para aplicação em jardinagem”, ressalta.
Ivanor Berri mostra resíduo orgânico que é reutilizado para a compostagem | Foto Eduardo Montecino/OCP
A compostagem é o processo de reciclagem da matéria orgânica que propicia um destino útil para os resíduos orgânicos, evitando sua acumulação em aterros e melhorando a estrutura dos solos. Esse processo também permite dar um destino aos resíduos da palmeira. A compostagem é largamente utilizada em jardins e hortas, como adubo orgânico, devolvendo à terra nutriente, aumentando sua capacidade de retenção de água, permitindo o controle de erosão e evitando o uso de fertilizantes sintéticos. A inciativa faz bem para o meio ambiente e é uma solução rentável. Introdução da Palmeira-Real australiana em SC A introdução dessa planta exótica no Estado tomou força a partir de 1998, quando a Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri) começou a se dedicar ao seu estudo. A palmeira-real é a alternativa ecológica para que o Brasil aumente a produção de palmito. Mais precoce e rústica que o palmito nativo brasileiro, a palmeira-real pode ser plantada sem necessidade de sombreamento e numa densidade de até 13 mil árvores por hectare, segundo a Epagri. Fica pronta para o corte quando tem entre dois anos e meio e quatro anos de idade. É natural da região australiana de Queensland, mais ou menos na mesma latitude do Sul e do Sudeste brasileiros. A planta gosta de solos úmidos, mas bem drenados, sem água acumulada. No corte, cada árvore rende em média o equivalente a pouco mais de meio vidro de 300 gramas de palmito cortado em toletes – o miolo da palmeira – e mais um vidro inteiro de palmito picado, feito de uma parte mais dura, chamada de ripa pelos produtores. A palmeira-juçara produz quase 1,3 vidro por árvore, mas leva 12 anos para produzir, quase três vezes o tempo de corte da palmeira-real. Jaraguá do Sul apresenta uma produção expressiva de palmitos, onde aproximadamente 150 agricultores produzem 140 toneladas por ano em área de aproximadamente 200 hectares. A Prefeitura atua no intuito de diversificar a safra das palmáceas. Receita diferente
Macarrão de palmito é alternativa saudável e menos calórica | Foto Eduardo Montecino/OCP
Palmito na pizza, no pastel, na salada, no empadão… A fome surge instantaneamente. Mas tem uma receita diferente que também faz bastante sucesso, especialmente para quem quer cortar calorias: macarrão de palmito. Para preparar o prato, é necessário um fatiador de legumes. O espaguete de pupunha é desfiado no sentido do comprimento, assim, dando formato de macarrão. Em alguns supermercados é possível encontrar esse item pronto, tanto em conserva quanto resfriado. Bastante nutritivo: rico em proteínas e minerais como cálcio, fósforo e potássio, o palmito pode ser feito “salteado” (até aquecer) no tempero e misturado a outros legumes ou carne de sua preferência.

O palmito na mesa

A família Berri também é grande consumidora de palmito, que cai bem tanto como acompanhamento quanto como prato principal. “Às vezes a gente faz in natura para diversificar um pouco. Tem gente que faz a peça na grelha in natura. Abre ela, coloca temperos e assa. Fica parecido com o palmito juçara, o gosto é bem parecido”, conta Elaine. De maneira geral, o palmito é saudável e pouco calórico: 100 gramas do alimento não chegam a contar 30 calorias. No entanto, conforme alguns nutricionistas, é melhor deixá-lo de molho antes de consumir, já que em conserva tem muito sódio. Além disso, é bom tomar cuidado com a bactéria Clostridium botulinum, agente causador do botulismo, doença grave e potencialmente fatal. Para evitar problemas, os profissionais indicam cozinhar o palmito antes de consumi-lo, fervendo o produto durante 15 minutos. Quando se fala em produção clandestina, esse é um dos principais perigos em relação ao palmito. *Com informações de Ana Paula Gonçalves da Rede OCP News