Há um ano e meio, Vigando Pscheidt tinha uma rotina agitada. Dançava no clube de idosos da Ilha da Figueira nas terças, quintas no Centro e sexta-feira no Botafogo. “Eu gosto de dançar a rancheira, Conhece a rancheira? Ela é picadinha”, diz. E, certamente, ele estaria nessa rotina não fosse a pandemia da Covid-19.

Completando 100 anos de idade nesta terça-feira (20), Opa Pscheidt, como é mais conhecido, sente falta desse movimento, dos amigos e dos abraços - que diz ser o essencial da vida.

Se preparou para a entrevista tomando um banho e vestindo um terno azul. Sentado na cadeira na varanda da casa do filho Carlos e da nora Neide, onde vive, foi relembrando alguns momentos, mas com bom humor, adiantou que seria impossível resumir uma jornada como essa.

“Eu não consigo nem responder. É uma longa vida, você chega lá pra depois me contar”, comentou, rindo.

De origem alemã, o Opa Pscheidt nasceu em Canoinhas no ano de 1921, numa família de lavradores. Eram 17 irmãos, cinco deles morreram ainda nos primeiros anos.

“Eu fiz várias mudanças, fui de Canoinhas, de pequeno, pra Corupá, depois fiquei lá um tempo. Depois fomos pra, hoje é Cambé, antigamente era Nova Dantzig, Paraná”, comenta.

Era uma época muito diferente. Em uma das idas de Corupá a Cambé, que na época estava sendo bastante procurada por agricultores pela fertilidade do solo, ele e o irmão ficaram cerca de 13 dias na estrada, viajando de carroça.

“Se alimentando, dormindo, tudo na carroça”, relembra.

Entre os movimentos de cidade, Opa se casou com a Cecília, em Corupá, isso em 1945. Do casamento nasceram 4 filhos, mas dois morreram ainda crianças.

Ao centro, Opa e a esposa Cecília, com os filhos Carlos e Mario. Foto Reprodução/Arquivo Pessoal

Ao longo dos anos teve muitas profissões. Depois dos anos de lavoura, passou a plantar e colher café.

Na quarta mudança, para Maripá, virou taxista, atuando por 17 anos, e também foi delegado da cidade por indicação - como acontecia na época.

De tantas histórias vividas, lembra do tempo que ficou no Rio de Janeiro, de fevereiro a setembro de 1944, em preparação para embarcar para a Segunda Guerra Mundial.

“Fui até o Porto do Rio de Janeiro, no embarque para a Segunda Guerra. Aguardamos a segunda ordem, mas a segunda ordem não veio”, conta.

Na foto, seu Vigando na época de Pracinha. Foto Natália Trentini/OCP News

O retorno à região, onde decidiu morar em Jaraguá do Sul, aconteceu há mais de 40 anos por conta da mudança do filho Carlos. Aqui trabalhou alguns anos como pedreiro, marceneiro e “faz tudo” em um jardim de infância.

A esposa Cecília se foi um pouco antes de completarem 50 anos de casados. Depois de viúvo, passou um tempo com os filhos e, já na casa dos 70, casou novamente com Olga Schneider, com quem viveu até ela falecer, há cerca de 10 anos.

Opa dirigia veículo do Jardim de Infância Emanuel, em Jaraguá do Sul. Foto Reprodução/Arquivo Pessoal

Recorde da família

Seu Vigando diz não saber como chegou aos 100 anos de idade. Mas fica feliz com a longa vida.

“Eu desejei assim, no pensamento, que eu queria bater recorde da família. E não é verdade?”, comenta sobre a façanha de ter ultrapassado os pais que morreram aos 94 e todos os irmãos, que já são falecidos.

“Eu passei horas boas, horas ruins, de tudo um pouco”, diz. “Pois eu vou falar o que nesse momento? A gente sempre rezou, pra que tudo fosse bem, a família tudo bem. Nunca fiquei falando: você é culpado”, comenta, indicando, com simplicidade, a importância de não julgar e guardar rancor no coração.

Seu Vigando sempre prezou por ter bons amigos. Foto Reprodução/Arquivo Pessoal

O bom humor presente nas largas risadas também aparece como um bom indicativo de quem sabe ver beleza e alegria na vida.

“Eu sou muito piada, né”, diz, e faz questão de emendar com um “causo”.

“Tem uma boa foi, faz dois anos agora. Eu fui lá na escola Rio da Luz, fizemos a inscrição (para um evento), e chega uma, justamente no dia, de 100 anos. Aí ela fez a inscrição também e dali a pouco eu falei para ela: ‘ô dona, vamos nos casar?’ Aí ela olhou pra cima e disse assim: ‘se a mamãe deixar’”, conta, dando uma série de boas gargalhadas.

Segundo o filho e a nora, o momento da pandemia tem sido desafiador para o Opa justamente pelo isolamento social. Eles se recolheram no sítio em Rio dos Cedros.

“Isso para mim, essa coisa de máscara, isso me dói muito. A gente luta para não entrar na depressão”, comenta e emenda contanto que faria “uma boa festa” para os amigos, mas que isso também foi cortado.

Bom humor faz parte da personalidade do Opa. Foto Natália Trentini/OCP News

Falamos que o Opa vai ter que guardar a festança para os próximos anos. Ele que havia se dito satisfeito de alcançar os 100 anos, rebate, em um sorriso, dizendo que vai "esperar mais um pouco".

Da história de vida, o que mais deixa ele feliz é ser querido, bem visto e cumprimentado com carinho aonde quer que vá.

“Eu só sei dizer que amigos eu devo ter milhões, porque todo lugar que vou sou bem visto. Todo mundo que me vê: ‘Oi, Opa”. Só não sabem meu nome”, diz. “A melhor coisa da vida é ter muitos amigos abraçando, pra mim é”.

Centenários em Jaraguá do Sul

Segundo dados da Secretaria Municipal de Assistência Social e Habitação, estão cadastrados junto aos programas oferecidos pelo poder público três pessoas com 100 anos: 2 homens e uma mulher. Um deles é o próprio Vigando, o outro é o seu Rudolf Morch, nascido em 1918, tendo 103 anos. A mulher mais idosa da cidade é Amanda Schwartz, com 102 anos.

Com mais de 90 anos, existem 29 homens e 73 mulheres participando das atividades. O secretário André de Carvalho Ferreira pontua que as atividades de integração voltadas à terceira idade estão suspensas no momento por conta da pandemia.

Mas o trabalho realizado no município é de referência, oferecendo oficinas de diversas atividades, como ginástica, pilates, música, marcenaria, além dos 35 grupos que são coordenados nos bairros.