William Bretzke é pastor da Comunidade Evangélica Luterana Apóstolo Pedro e Voluntário do Grupo de Trabalho de Articulação do Jaraguá Mais Saudável.

 

O movimento Jaraguá Mais Saudável é uma iniciativa pioneira no Brasil, que contribui para melhorar os indicadores de saúde e qualidade de vida da população, e que aos poucos vem ganhando força na cidade.

Lançado oficialmente em abril deste ano, o movimento está ganhando cada vez mais adeptos e tem como eixo central estimular a população para os hábitos saudáveis por meio de informativos e ações que estimulem a mudança de comportamento.

Essas ações estão vinculadas aos seus pilares: “Comer, Mover e Pertencer”.

Jaraguá do Sul impressiona pelas muitas iniciativas que a mobilizam. O que não causa surpresa são as tantas pessoas engajadas voluntariamente às causas sociais, são muitas opções de atuação na comunidade.

Sendo destaque também a presença e o envolvimento dos empresários nas causas humanitárias, o que contagia a população jaraguaense. Há um enorme coração que prima pelo bem-estar das pessoas.

Um dos anseios do Jaraguá Mais Saudável é promover o pertencimento das pessoas. A Organização Mundial da Saúde (OMS), em 1947, muito bem definiu que “saúde é muito mais do que não estar doente, é um estado de completo bem-estar físico, mental e social”.

Mas o que o pertencimento tem a ver com saúde? É necessário criar estímulos para motivar as pessoas para os encontros sociais, bem como a busca da espiritualidade.

Pesquisas no âmbito global têm alertado para o mundo cada vez mais tecnológico e eficaz em termos de comunicação, na contramão, os índices de solidão têm crescido drasticamente.

Não se trata apenas de um problema da terceira idade, mas em especial da geração mais jovem, os que crescem acompanhando esse universo tecnológico.

Um estudo aplicado com 20 mil norte-americanos com mais de 18 anos, realizado através da Universidade da Califórnia em Los Angeles, revela resultados preocupantes.

De um modo geral, mais de 50% da população americana sente-se solitária.

Dividindo os entrevistados por faixa etária, os mais jovens, como a chamada Geração Z (18 a 22 anos) apresentam o índice mais elevado de solidão, 60%. A geração Y, chamados de Millenial (23 a 37 anos), 56%. Da geração X (38 a 51 anos) e dos Boomers (52 a 71 anos) o índice foi de

53%. Finalmente os veteranos ou Greatest Generation (72 anos ou mais) apresentaram índice de 48%. A mesma pesquisa também apontou questões relacionadas a qualidade de sono, exercício físico, tempo de qualidade com a família e no trabalho.

Nada substitui o abraço

Ocupar-se com o assunto da solidão é muito mais do que um aspecto emocional ou físico, mas é uma questão de saúde pública. O antídoto para a solidão é o pertencimento. Não basta simplesmente responsabilizar e condenar o ciberespaço, que leva a muitas relações superficiais, e até utilitaristas.

Este universo tende a expandir a cada dia, e o desafio é tomar consciência que muitos espaços do nosso ser não podem ser preenchidos pela tecnologia.

Por exemplo, quando uma criança cai e machuca o joelho, uma mensagem compreensiva ou uma chamada pelo Skype não substitui o abraço de consolo dos seus pais.

Considerando essas necessidades, vários países, particularmente a Dinamarca e o Reino Unido, estão incrementando em suas políticas públicas programas nacionais para a conscientização do público sobre a solidão crônica, difundindo um melhor conhecimento de suas consequências.

Percebendo os inúmeros grupos comunitários, igrejas, ONG’s, grupos de reflexão, grupos de apoio como Rede Feminina, AMA, APAE, clube de mães, grupo de idosos. Clube do jipe, moto, carros antigos. Grupos de ciclistas, skatistas, surfistas, futebol, vôlei, judô ou arte marcial.

Sociedades de tiro, dança, do livro, das recreativas, dos vizinhos, da escola, do happy hour e muitas outras, o que se percebe é que o ser humano deseja estar junto e dividir. O dividir torna os momentos muito mais especiais. Mas por quê?

O primeiro ponto é que o ser humano é social, faz parte da sua integridade. Sua concepção, já pressupõe um encontro de pessoas e de afeto que nasce a partir de um relacionamento.

Esta criança é aguardada e acariciada, mesmo antes de nascer, e quando nasce ela é paparicada e acompanhada dia após dia, em um ambiente de relacionamento afetivo. E partindo do pressuposto desse ambiente, sua experiência social vai se ampliando, aumentando seus círculos sociais.

Dependendo como estas relações vão sendo construídas, muito da vida emocional, cognitiva e até biológica, será o resultado dessas experiências.

Também é verdade que há pessoas que preferem o isolamento, mas que ainda é diferente da solidão. Alguns se isolam, por conta das feridas de relacionamentos passados e optam por proteger-se da dor.

Este convívio social acaba acontecendo em grande parte pela aprendizagem dos vínculos familiares. Com isso estamos diante do segundo ponto, bons vínculos familiares. Não estamos falando de famílias perfeitas, pois não existem.

Mas ainda assim, saber que podemos contar com a família como um refúgio e um ponto de encontro emocional e afetivo é reconfortante. A família dá origem ao que temos de melhor, mas simultaneamente pode também dar origem ao que temos de mais doloroso.

Infelizmente vivemos esta ambiguidade, e é na infância que são impressos o texto do script da nossa vida. E o que for impresso, dependendo, torna-se nossos registros positivos ou negativos para a vida.

Mas isso não pode ser tomado de um modo fatalista, pelo contrário, o ser humano pode ser trabalhado e transformado, todos temos a capacidade de aprender o tempo todo, podendo avançar e adaptar-se, mudar e amadurecer.

Ter pessoas confiáveis ao lado, sem dúvida propicia segurança e afasta a solidão tóxica. Também é bom lembrar que ninguém começa a construir amizades aos 70 anos.

Lá será o resultado da jornada, a colheita. Amizade requer trocas e investimentos mútuos constantes e dedicação de tempo.

Todos precisam e querem ser amados

Como último item, a espiritualidade também é apontada como uma característica de importante valor nas cidades mais longevas. Quando falamos de espiritualidade, nos referimos a muito mais do que a religião como aspecto sociológico.

Não há como separá-las por completo, mas nos ajuda a desconstruir algo que tem trazido muita dor. Falamos de algo que vai além destas estruturas e organizações muitas vezes humanas e muitas vezes arbitrárias, mas do ser humano que busca por transcendência e harmonia.

Como cristãos, não religião, mas a partir do Cristo, entendemos que há uma fonte de fé que visa o amor, o perdão, o cuidado e a solidariedade. Esta afirmação transcende qualquer barreira cultural, social e étnica, pois faz parte da necessidade humana.

Todos precisam e querem ser amados, todos precisamos ser perdoados para uma nova chance, todos precisamos de cuidado e de um ombro amigo, e todos temos algo dentro de nós que se compadece com o seu semelhante.

Por isso, ao falar de religião estaremos falando de dogmas, de experiências pessoais e de opiniões, e imediatamente nos tornamos subjetivos. Mas ao falar e exercer o amor, o perdão, o cuidado e a solidariedade, nos aproximamos enquanto pessoas e nações.

Neste sentido, como um depoimento pessoal, eu creio e desejo continuar a fazer a minha parte para que as pessoas tenham uma vida melhor, e foi para isso que falamos de Jesus Cristo. “Eu vim para que tenham vida e vida em abundância” (João 10.10).

O Jaraguá Mais Saudável tem sido uma linda oportunidade para o encontro de pessoas motivadas pelo mesmo propósito, de contribuir com a saúde e o bem-estar de toda a comunidade, tornando esta cidade cada dia melhor.

Desejo de coração ajudar a escrever essa história, motivado pela minha família, pelo enorme círculo de pessoas bem-intencionadas, conhecidos e amigos, e finalmente para minha experiência de fé, com a certeza de poder respirar significado e felicidade.

Acredito na vida, continuo apostando no ser humano, pois creio em Deus.

 

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