Isolamento social. Necessidade de se manter em casa. Insegurança quanto a um vírus que se prolifera rapidamente. Lidar com a pandemia de coronavírus é difícil para qualquer um, mas tem sido especialmente desafiador para as mães.

Crianças e adolescentes estão sem aula, sem ter como brincar com os amigos. Nada de atividades, cursos e oficinas. Tudo isso enquanto, profissionalmente, muitas adequações têm sido necessárias. Home office ou aflição a cada saída. Uma maré de transformações que não tem hora para baixar.

“Muitas famílias vêm de uma realidade na qual as escolhas profissionais consideram a escola e os avós como principal rede de apoio”, comenta a psicóloga e especialista em carreira e liderança feminina Lize Calvano. “No entanto, com a parada das aulas há dois meses e o distanciamento social dos grupos de risco, muitas famílias ficaram ‘sem chão’.”

Lize comenta que essa situação deixou muitas mulheres em uma condição de extrema vulnerabilidade e tensão.

“As mães, como protagonistas disso, tiveram que reinventar a rotina, fazer novas escolhas e estabelecer novas prioridades em relação a agenda de trabalho, a divisão entre home office e o funcionamento de tudo com as crianças em casa”, comenta.

Como normalmente as mulheres têm esse papel de equilibrar as coisas dentro de casa, Lize comenta que as demandas vão desde manter a estabilidade emocional, aprender a se planejar de maneiras novas e mais efetivas, aprender a se vincular com mais intensidade com as necessidades dos filhos e dialogar mais com o companheiro ou pai das crianças sobre novas configurações possíveis para atravessar este momento.

Rotina das crianças teve que ser alinhada com a profissional, como na casa de Flávia. Foto: Arquivo Pessoal

A psicóloga ressalta que as mulheres acabam tendo pouquíssimo tempo para elas mesmas. E para lidar com isso, é preciso entender as prioridades dentro daquilo que é possível nesse momento de vida.

Outra coisa importante, aponta a psicóloga, é lidar com a expectativa de reconhecimento, uma das coisas que mais traz inquietação emocional.

“A mulher sofre muito com a dupla jornada e isso é legítimo porque é exaustivo, mas muitas vezes este sofrimento se amplia porque nem ela mesma reconhece a importância da sua presença enquanto mãe. Ela não se sente reconhecida, se frustra e se afasta. A maternidade é um projeto de longo prazo, não linear, cansativo, árduo e que tem recompensas vividas em segredo, muitas vezes imperceptível aos olhos dos outros”, reflete.

E Lize completa: “É comum pessoas não lembrarem que por trás de um ser humano relevante existiu um trabalho incrível de uma mãe”.

Vida real de mãe

A consultora de imagem e personal stylist Flávia Christina, 39 anos, tem acordado mais cedo para trabalhar e seguido até tarde da noite. A estratégia é focar a produção nos horários em que a pequena Isabelle, 2 anos, está dormindo.

Durante o dia, Flávia vai cumprindo algumas tarefas com a filha no colo, ajudando a cuidar das bonecas e inventando mil brincadeiras.

E essa rotina tão realista em muitas casas mundo afora acaba sendo acompanhada pelos mais de 200 mil seguidores dela no Instagram.

Flávia e Isabelle nos looks do dia. Foto: Arquivo Pessoal

“Comecei a gravar os conteúdos para o meu instagram e os meus looks com ela sempre por perto, foi uma situação que para acontecer o trabalho era preciso adaptar, trazendo até mais um conceito ‘vida real de mãe’. É possível nos cuidar, do nosso estilo e bem-estar e ao mesmo tempo estar com os nossos pequenos”, conta.

Isabelle no colo, no chão, puxando a mãe, mas os looks do dia estão ali - e todos eles com mãe e filha combinando.

Flávia conta que a rotina em home office já era parte do seu dia a dia, apenas os atendimentos presenciais também passaram a acontecer de forma virtual. Mas antes, Isabelle passava um período na creche, às vezes ficava com os avós - agora é o tempo todo em casa, o que pediu um novo ritmo.

Dar conta dessa readequação toda na rotina, alinhando os cuidados com a filha e o trabalho só foi possível pela parceria com o pai Rogério. Todas as tarefas são divididas para que eles possam conciliar suas rotinas profissionais com a vida familiar.

“Não é fácil, para quem estava com muitos planos para esse ano é preciso se reinventar a todo tempo, pois temos essas pessoinhas que dependem de nós e é por elas que vamos passar por tudo isso como mães valentes que todas somos”, afirma.

Desafios entre o lar e o hospital

Caroline Zuge de Oliveira, 24 anos, sentiu na pele as consequências da pandemia. Durante 15 dias da quarentena total, ela ficou sem ver a pequena Serena, de 1 ano, que estava sob os cuidados da avó.

Caroline trabalha como técnica de enfermagem na Central de Material e Esterilização do hospital. E apesar do afastamento ter sido uma decisão para preservar a saúde da filha e dos pais, o sentimento de culpa foi grande.

Caroline lida todos os dias com a pressão de estar dentro do ambiente hospital e voltar para casa, com a filha Serena. Foto: Arquivo Pessoal

“Era 'chororô' tanto meu, quanto do pai dela, todos os dias. Foi um período muito complicado e mudou nossa rotina drasticamente, porque a gente tinha um dia a dia e de repente a gente chegava em casa e sentia muita culpa. Por que enquanto a gente estava em casa tranquilo ela estava sob cuidado de outra pessoa, sendo eu e ele com muita capacidade de cuidar da nossa filha”, conta. O marido de Caroline, Jean, é radiologista no hospital.

Caroline conta que a filha acabou adoecendo, o que fez eles retomarem o contato físico. Com o passar dos dias, as medidas de proteção contra o vírus também foram ficando mais claras e trazendo um pouco mais de segurança, mas a pressão ainda é grande.

“Trabalhar assim é complicado porque parece que você está afundada em um mar de coronavírus, você nunca sabe. A gente vai nadando. Hoje em dia a gente trabalha mais tranquilo porque isso entrou na nossa rotina, depois de quase 50 dias. Mas, no começo a gente ia trabalhar com muito medo, era uma coisa super nova”, relembra.

Como profissional de saúde, Caroline não parou na quarentena. Fotos: Arquivo Pessoal

Apesar de não lidar diretamente com pacientes, o setor de Caroline é responsável por higienizar tudo que passa pelo hospital. É uma área que exige extremo cuidado, não se pode cometer erros ou um material pode ficar infectado.

“Exercer a maternidade nesse contexto atual é um desafio em dobro. Tem o desafio da maternidade e tem o de lidar com o estresse, e não pode passar tudo isso para o seu filho. Tudo que eu sinto ela obviamente vai sentir”, comenta.

Ela acredita que, de uma forma ou de outra, todas as mães acabam sobrecarregadas nesse período, até mesmo aquelas que, como ela, têm companheiros que entendem e desempenham a paternidade ativamente.

“Quando o bicho pega, quando a criança se estressa, quer atenção, ela sempre vai para a mãe”, reflete.

 

Parceria dentro do lar

Não foi somente os filhos que Eunice Jandrey Voss, 49 anos, precisou ajudar. Desde que as medidas de isolamento social foram implantadas no país, a coordenadora educacional também foi braço direito de professores, pais e alunos da escola Renato Pradi para adequação às aulas online.

Apoio em casa tem ajudado na rotina de Eunice. Foto: Arquivo Pessoal

Ser esse suporte faz parte da função, mas são muitas novas demandas envolvidas e o ritmo é de correria. “Sempre tive pouca afinidade com a tecnologia, mas agora aulas virtuais são a nossa realidade, então foi necessário me adaptar, e a cada dia é um novo aprendizado junto com minha equipe de trabalho”, conta.

Alinhar tudo isso com a rotina dentro de casa, ressalta Sandra, foi tranquilo graças à parceria com as filhas Larissa, 19 anos, e Sarah, 11 anos, e com o marido Fausto.

“Como mãe, acredito que tomei uma decisão certa, minhas filhas têm uma diferença de idade razoável, a mais velha está na universidade, e a mais nova no ensino fundamental, são quase nove anos, isso é de grande ajuda no dia a dia, pois nesse momento minha filha mais velha auxilia a mais nova em todas as tarefas escolares, assim, restam poucas atividades para eu ajudar quando chego do trabalho”, comenta.

Da função profissional, mas com o olhar de mãe, ela observa o quanto as famílias estão se empenhado para fazer com que os filhos consigam acompanhar as aulas, assim como os professores, que também têm suas próprias famílias, estão descobrindo como fazer tudo funcionar.

Com tanta coisa acontecendo, Eunice confessa que tenta se dedicar ao que realmente é essencial, mas nem sempre é possível.

“Neste momento, ser mãe é sinônimo de ser o porto seguro de minhas filhas, elas entendem a gravidade do que atualmente ocorre no mundo, então, tento passar a confiança de que enfrentaremos esse tempo delicado juntas, e que tudo vai ficar bem. Em um contexto geral, é desafiador, mas tenho o privilégio de ter uma família que está sempre junta, para o que der e vier”, diz.

Escritório dentro de casa

Entre um atendimento, uma reunião e outra, uma pausa para um abraço, um beijinho ou para ver se as tarefas do dia foram cumpridas. Assim tem sido a rotina no cantinho do escritório, o “cantitório”, como foi batizado o novo local de trabalho da analista de negócios Cintia Parodes Corrêa, 40 anos.

A rotina pessoal e profissional está levemente misturada desde o dia 18 de março, afinal, o Samuel, 12 anos, e a Maria Cristina, 6 anos, não conseguem resistir a ter a mãe por perto o dia inteiro.

Como em todas os lares, o dia a dia mudou completamente com todo mundo em casa, mas Cintia tem dado conta de tudo deixando as tarefas bem determinadas. O celular desperta para avisar das atividades que precisam ser cumpridas, especialmente as escolares.

“Eles dormem um pouquinho mais que de costume, estão mais envolvidos nos afazeres da casa: arrumar a mesa para almoço, lavar a louça, organizar os quartos, varrer a casa, tirar o pó, fazer o lanche da tarde, adoram fazer bolo, pipoca”, conta.

Existe uma escala de dias e tarefas, e quando tudo for concluído, vem o tempo para usar o celular, assistir filmes e dar uma voltinha para pegar um pouco de sol, explica a mãe.

Cintia conta que estabelecer horários para as atividades foi fundamental. Foto: Arquivo Pessoal

Essa organização, ajuda do irmão Alexandre, que mora com eles, e o próprio empenho do Samuel e da Maria têm sido fundamentais para tudo se ajustar dentro de casa.

“Devido a minha função na empresa estar envolvida diretamente com a legislação e com todas essas alterações que houveram na área trabalhista, temos bastante trabalho para fazer as atualizações necessárias para atender a necessidades dos nossos clientes”, comenta.

Como antes as crianças tinham dias cheios, estudavam em um período e no outro faziam atividades extracurriculares, esse movimento tem feito falta para eles. Especialmente o contato com outras crianças.

“Nos primeiros dias, foram bem complicados, o mais velho achava que era eu que não queria que eles fossem brincar com os amiguinhos. Depois, eles acompanhando as notícias, viram que não era só nossa casa que estava em isolamento social”, relembra.

Vivenciar esse momento global com as crianças, reafirma Cintia, exige que a mãe seja essa fonte de segurança. “E também ao mesmo tempo usar isso tudo como forma de aprendizado, pois, até então não tínhamos passado por isso, todos vamos aprender juntos”, diz.

 

Dicas para equilibrar as emoções, pela psicóloga Lize Calvano

Antecipação é a palavra da vez: antecipar como será a rotina, quem será responsável pelas crianças em cada momento do dia, prever refeições, estabelecer horários para as tarefas da escola, definir e cumprir horários de brincadeira, leitura, banho, sono. Quanto mais previsível e cumprida uma rotina mais fácil é levar o dia a dia e passar por este momento difícil. Não se trata de rigidez, exceções são bem-vindas, mas uma ordem é necessário existir.

Não compare e viva o agora: cada mulher tem a sua realidade, algumas contam com flexibilidade no trabalho, outras não. Algumas contam com participação mais efetiva do companheiro, outras não, e assim por diante. Olhe para sua realidade e reflita: O que é possível para mim? De qual maneira eu posso tornar a minha realidade melhor para mim e para todos? Como eu posso passar por tudo isso sem que meus filhos tenham mais impacto do que já é inevitável? Se propor a fazer o melhor não significa ser perfeita e se equiparar a alguém, mas sim entender que dentro da nossa realidade é sempre possível aprender, existem coisas que a gente não faz porque simplesmente ainda não aprendeu e não porque somos piores.

Psicóloga dá dicas para equilibrar as emoções nesse período. Foto: Arquivo Pessoal

Não se desespere: é um momento difícil, mas também um momento de que teremos que aprender. Não se desespere pensando que você não é uma boa mãe, pergunte-se: o que eu ainda posso aprender para ser melhor neste aspecto? Exercer a maternidade é como crescer em uma profissão, a gente vai desenvolvendo habilidades emocionais e comportamentais que vão nos deixando melhores a cada dia.

Reconheça a si mesmo: é por isso que eu acredito que nós mulheres é que precisamos reconhecer isso sem precisar de aplausos ou que nos digam: olha que belo trabalho! É nós que precisamos nos lembrar disso todos os dias, resgatar o valor que há em ser mãe. Maternidade é doação, serviço e entrega pelo outro, talvez a maior de todas que um ser humano pode fazer, é abrir mão. Só que não cabem condições, necessidade de recompensas, enquanto mais a mulher perceber e sentir isso, mais ela terá leveza em cumprir este ofício e sentir prazer nele.

 

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