Grandeza pelo Trabalho” não consta apenas na bandeira de Jaraguá do Sul: sintetiza o espírito que move os que trabalham e vivem na cidade-polo do Vale do Itapocu. E para prestar homenagem aos que contribuem ao desenvolvimento da cidade, O Correio do Povo - repercutindo o 1º de maio, Dia do Trabalhador - traz três personagens representativos dos que aqui chegaram e se estabeleceram com a promessa de uma vida melhor: de um haitiano e dois paranaenses. Cada um deles trouxe na bagagem uma história de lutas e de superação, carregada de esperança. O número de demissões e admissões no primeiro trimestre deste ano pode ter caído 61% em Jaraguá do Sul, com o fechamento de 299 vagas, porém, para os trabalhadores que se mantém na ativa, o momento é de se dedicar e investir no conhecimento. Segundo a Diretoria de Desenvolvimento Econômico do Instituto Jourdan, 57% dos empregos no município são gerados pela indústria, 25% serviços, 14% comércio, 3% da construção civil e 0,2% agronegócio. Os números do Cadastro Geral de Emprego e Desemprego (Caged) referentes ao mês de março, nos últimos dois anos, fornecem um comparativo que comprova o momento delicado da economia. Em março de 2016, foram 1.820 admissões, 2.119 demissões, que resultaram no saldo negativo de 299 vagas. Em 2015, no mesmo período, 3.093 admitidos, 2.061 demitidos e saldo de 492 vagas. Já em março de 2014, o Caged apontou 3.737 admitidos, 3.153 demitidos e saldo de 584 postos de trabalho. Mesmo com o quadro atual desfavorável, o diretor de Desenvolvimento Econômico do Instituto Jourdan, Márcio da Silveira, se mostra otimista: “A expectativa é melhorar. Se o Brasil demonstrar que tem perspectiva, tudo pode mudar para melhor”. Da pacata Jardim Alegre para cidade industrial A vida em Jardim Alegre, próximo a Londrina (PR), era tranquila e pacata para Denis José Clarimundo, de 26 anos. Dos 18 aos 20, foi professor estagiário de informática, contratado pela Prefeitura da cidade paranaense, mas ao acabar o contrato, apareceu o impasse: Como crescer profissionalmente em um lugar sem oportunidades para os jovens? Foi aí que ele decidiu seguir os passos de sua tia Janete e vir para Jaraguá do Sul, no Estado vizinho, em 7 de janeiro de 2011. “Queria conhecer outra cidade, pessoas, culturas diferentes, sair da rotina do interior. Lá onde morava não tem nem semáforo”, conta, rindo. Exatamente um mês depois de chegar, foi contratado como operador de produção em uma grande empresa. Inicialmente retraído, pouco a pouco venceu o espanto dos primeiros tempos e hoje se sente perfeitamente familiarizado com o ritmo pulsante de Jaraguá do Sul, a vida social e cultural. “Sempre que posso, vou assistir as apresentações de balé da filha da minha tia Luísa”, observa. Nesses cinco anos, a velha motocicleta de 125 cilindradas deu lugar a um Uno Mille e à moto Web 100, mais moderna. Hoje Denis é operador de máquinas, recepciona os visitantes da unidade fabril onde trabalha, juntamente com a equipe de marketing da empresa, no segundo turno, e ganha pouco mais que o dobro do salário inicial. Com formação em Magistério e Ensino Médio, pretende estudar Publicidade e Propaganda. “Preciso estudar para evoluir mais ainda”, diz, convicto. A iniciativa bem sucedida de Denis motivou até mesmo os pais de, Claudecy de Jesus Clarimundo e Maria Márcia de Souza Clarimundo, a deixarem para trás a vida rural de Jardim Alegre, há 15 dias, para ficarem mais perto do filho aqui em Jaraguá do Sul. A oportunidade de trabalho surgiu para eles também: Eles são os novos caseiros da igreja italiana Chiesetta Alpina, no alto do Morro da Boa Vista: “Eles estão muito felizes com o novo trabalho, e o lugar lá é lindo!”, fala contente o filho e, agora, jaraguaense de coração.

Nova vida e de olho no futuro

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O haitiano Feguens Desir comemora a recente promoção no trabalho em uma rede de supermercados de Jaraguá

“Cheguei a Jaraguá do Sul em junho de 2014 e em agosto comecei a trabalhar. Queria viver em uma cidade mais segura, estruturada, e soube que aqui tinha bastante emprego na indústria. No começo estranhei, é um povo mais fechado, com tradições diferentes. Mas a gente não pode desistir, é preciso ter foco, objetivo”, declara o haitiano Feguens Desir, com 26 anos, e um português fluente e perfeitamente ambientado com as gírias e expressões brasileiras. Nascido em Cabo Haitiano, cidade turística e histórica do Norte do Haiti, antes de aportar no Vale do Itapocu, ingressou no país pelo Rio de Janeiro, em 18 de maio de 2011. Trouxe no currículo dois anos de Administração e dois anos de Direito. No Brasil, estudou língua portuguesa por seis meses e trabalhou como laboratorista em fábrica de artefatos de concreto. Porém, mesmo após receber o visto permanente, a falta de segurança em viver no Rio o levou a optar pelo Sul do país, mais precisamente Jaraguá do Sul, indicado por um conhecido, para buscar crescimento profissional e pessoal. Foi aqui também que ele conheceu a mulher, Vanessa, também haitiana, que trabalha como cozinheira em um restaurante da cidade. Há pouco mais de uma semana, os esforços de Feguens foram recompensados: passou de operador de caixa para líder de caixa em unidade de uma grande rede de supermercados. Filho de uma família de classe média e com mais cinco irmãos, apesar da saudade, não pretende voltar ao país de origem, mas sim, seguir com os estudos de inglês e Administração por aqui. O irmão Fegerson, de 23, segue seus passos e há pouco veio morar com ele e a mulher. “Hoje me sinto muito feliz e não pretendo sair daqui”, afirma ele, com brilho no olhar.

Da roça ao ativismo e liderança sindical

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Helenice Vieira dos Santos é conhecida na cidade por sua liderança na busca dos direitos dos trabalhadores

A vida da sindicalista Helenice Vieira dos Santos, 52 anos, não estava fácil quando deixou a roça em Maringá (PR), em 1982, para tentar a vida de costureira industrial em Jaraguá do Sul. Na época, as placas de “Há vagas” se proliferavam pela cidade. A saudade da vida rural bateu forte e ela voltou em 1983 para casar com José Pendiuk dos Santos, mas retornou definitivamente à cidade do Vale do Itapocu no final de 1986. Com altos e baixos, também trabalhou de diarista até o início de 1993. Foi a partir de 12 de abril de 1993, dessa vez em fábrica de estofados, que a guinada começou, paralelamente à conclusão do ensino médio e capacitações. “Via que as pessoas tinham medo de falar, e foi essa indignação que senti no trabalho que me fez reivindicar direitos”, conta Helenice, hoje na segunda gestão da presidência do Siticom (Sindicato dos Trabalhadores das Indústrias da Construção Civil e do Mobiliário de Jaraguá do Sul e Região). Mãe de Claudinéia, 31, e Fernanda, 24, avó de Camila, de seis, Felipe, dois, e na expectativa da chegada de Luana, hoje Helenice é apontada como uma das lideranças femininas da cidade, atuante em conselhos municipais e na comunidade. “A família toda hoje vive aqui. As filhas, sobrinhos, todos fizeram faculdade e têm profissão definida”, afirma, orgulhosa. “Ser feliz na vida não é acumular bens, fortunas. O bem maior são as amizades, na comunidade e nos movimentos sociais, o respeito que se tem.”