Por determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), entrou em vigor ontem uma norma que obriga a indústria alimentícia a declarar, nos rótulos dos produtos, a presença dos principais componentes que podem causar alergias alimentares. Apesar de ter sido publicada há um ano, a regra causou grande reação na indústria, que tentou suspendê-la até o último momento. A resolução busca aperfeiçoar os atuais rótulos com a inserção dos ingredientes (ou traços) alergênicos. Médicos denunciam a falta de informações sobre frações de alimentos que estariam contidos no produto e o texto, quanto existe, é considerado pouco acessível ao leigo ou escrito em etiquetas ilegíveis. “As indústrias compartilham equipamentos para a produção de vários alimentos. Por isso, é comum que frações de alguns ingredientes apareçam involuntariamente em um produto diferente que passará logo depois pela mesma máquina”, descreve José Carlos Perini, presidente da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia. A norma também proporcionará mais destaque aos rótulos, que terão fundo branco ou amarelo, com letras pretas e garrafais. Hoje é comum ver estes avisos com fundo azul e inscrições brilhantes. “Não dá para ler nem com lupa”, cita o especialista. A linguagem também é alvo de críticas: “Antes falava-se, por exemplo, que um produto contém albumina. Pelo menos 99% da população não deve saber que isso é o mesmo que clara de ovo. Também escrevem caseína, quando poderiam simplesmente escrever “leite””, explica Perini. Segundo o alergista, as multinacionais são mais zelosas na elaboração dos rótulos, para que a entrada de seus produtos seja facilitada em todos os países. A alergia alimentar aflige cerca de 10 milhões de brasileiros, o equivalente a 5% da população. Os produtos mais evitados variam de acordo com a região. No litoral, por exemplo, a alergia mais comum é a crustáceos. No interior, a leite. E depois estão castanhas, nozes e soja. Médica da Unidade de Alergia e Imunologia do Instituto da Criança da USP, Ana Paula Moschione Castro acredita que a norma da Anvisa trará uma “uniformização da mensagem” e benefícios ao consumidor. O estabelecimento de um padrão a ser seguido beneficiará principalmente as crianças”, diz. Hoje, estima-se que entre 6% e 8% delas são alérgicas no país, um percentual mais alto do que o visto entre adultos. “A criança não tem o sistema imunológico amadurecido. Por isso, a alergia pode acarretar problemas de desenvolvimento, como diarreia e dificuldade de absorção de nutrientes. Seu crescimento pode ser comprometido a partir dos 3 ou 4 anos de idade” alerta.