No corredor da escola estadual Lino Floriani, Matheus, Allie e Eduarda conversam animadamente. A cena típica entre adolescentes merece ser narrada porque a comunicação entre eles não acontece pela fala, mas sim com as mãos e expressões, utilizando a Língua Brasileira de Sinais (Libras).

A raridade é porque Allie e Eduarda são ouvintes, mas por iniciativa própria vêm aprofundando o aprendizado dos sinais desde que começaram a estudar com o Matheus, que é surdo.

A troca acontece dos dois lados: as amigas ajudam Matheus a realmente vivenciar a vida escolar, e Matheus ensina Libras e ainda dá dicas de matemática. A interação deles tem sido contagiante, e motivado outros alunos a aprender os sinais.

Allie, Eduarda e Matheus expandem horizontes nas trocas de aprendizados | Foto Natália Trentini/OCP News

A intérprete de Libras da escola, Clery Dreher, com mais de 20 anos de experiência na área, se emociona ao ver a interação e a inclusão acontecendo na prática. “Eu não preciso estar interpretando, eles trocam ideias sozinhos e é muito bom isso, é um sonho”, conta sobre os alunos.

Allie Pauloski, de 16 anos, já havia tido contato com a língua e tinha curiosidade em aprender mais. O mesmo aconteceu com a Eduarda dos Santos Kirschner, 17 anos, que se entusiasmou ao ver o Matheus e a Clery durante as aulas e se motivou a aprender.

A troca com os colegas possibilitou ao Matheus dos Reis, também de 16 anos, uma interação além da aprendizagem em sala de aula - possível com a mediação de Clery e pela motivação da escola, que inclusive preparou sinalizações nos corredores em Libras.

“Para mim como surdo nessa sociedade, eu me sinto incluso interagindo com meus colegas, nas atividades em grupo, fora da sala, num passeio no shopping, ou qualquer outra coisa. Se não tiver essa interação, para o surdo é difícil, se sente excluído, não tem essa autoestima, essa iniciativa de poder falar o que pensa”, conta o jovem.

A troca tem ajudado Matheus a aprender melhor o português, por exemplo, que é uma segunda língua para surdos e deficientes auditivos. É como aprender um outro idioma, comenta Clery, destacando que o português tem na sua estrutura mais de 300 mil palavras, enquanto a Libras tem 15 mil sinais.

Inclusão na prática

Segundo a professora, intérprete e secretária da Associação de Pais e Amigos dos Surdos de Jaraguá do Sul, Clery Dreher, a estimativa é que existam mais de 2 mil pessoas surdas em Jaraguá do Sul. As crianças e jovens recebem suporte nas escolas, onde existem intérpretes para possibilitar o processo de aprendizagem.

No entanto, fora do ambiente escolar e nos espaços de convivência e trabalho, as iniciativas precisam ser mais abrangentes, efetivas e realmente inclusivas, pontua Clery, que cita alguns exemplos que demonstram desconhecimento dessa realidade.

“As empresas colocam a legenda para surdos. Isso é o mesmo que colocar uma legenda em alemão para nós. Alguns até podem entender, mas a maioria não. Os surdos entendem o mundo pelo que eles veem. Por isso, Libras para eles. A língua portuguesa é uma segunda língua, por isso eles precisam de um intérprete de Libras”, explica.

Clery observa integração entre o grupo de alunos | Foto Natália Trentini/OCP News

Ensino da Língua

Tirando iniciativas particulares e pontuais, não existem cursos básicos gratuitos e continuados para pessoas interessadas em aprender Libras. Existe uma proposta de lei que tramita no Senado para inserir nos currículos do ensino fundamental e do ensino médio, para todos os alunos, conteúdos relativos à Língua Brasileira de Sinais, o que efetivamente prepararia a sociedade para interagir com pessoas surdas.

Clery comenta que a necessidade de Libras precisa ser constantemente lembrada em vários contextos, o que ainda demonstra a necessidade de um debate. “Existem leis mas só são cumpridas porque alguém exigiu. Acessibilidade não é favor”, ressalta.

Matheus sente o mesmo. “Eu como surdo penso que a sociedade se limita à língua portuguesa, os ouvintes precisam entender que os surdos precisam da língua de sinais. Se o surdo quer ir a uma loja comprar uma roupa, ele tem dificuldade, barreira na comunicação, essas barreiras na comunicação acontecem em vários lugares.”

“É muito difícil um surdo adulto hoje viver nessa sociedade, as leis existem, mas precisam ser cobradas. Na prática, não acontece”, finaliza Matheus.

 

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