Quem vê o sorriso de Leomar Barsenas, minutos antes de se apresentar para o primeiro dia de trabalho em uma empresa de Guaramirim, não imagina o que este venezuelano de 27 anos passou para atingir esse objetivo.

Em busca de uma vida digna para a família, ele e a companheira, Carolina Salazar, 24 anos, fizeram uma travessia difícil e dolorosa da Venezuela para o Brasil no início deste ano.

A crise em seu país natal chegou a tal ponto que o salário do mês não lhe permitia alimentar os filhos, Eglismar, 5 anos, e Eliazar, 2 anos, por mais de uma semana.

Diante de tanta dificuldade, o casal vendeu todos os seus pertences e partiu de Maturín com a esperança de trabalhar e poder buscar as crianças, deixadas com familiares. Os filhos só vieram para o Brasil mais tarde.

Já na saída do país, ambos sofreram o primeiro revés da jornada. A venda de todos os pertences não foi suficiente para pagar as passagens de Pacaraima até Boa Vista, capital do estado de Roraima, no Brasil.

“A moeda bolívar fuerte está tão desvalorizada que não alcançou o valor necessário. Mesmo assim, passamos um dia na fronteira esperando a permissão da Polícia Federal para poder entrar no Brasil de maneira legal”, conta Carolina.

Uma jornada perigosa

Pastor Rudi diz que o trabalho da ONG já vem beneficiando os guaramirenses há alguns anos e hoje se estende a haitianos e venezuelanos | Foto Eduardo Montecino/OCP News

Enquanto esperavam junto de outros conterrâneos, decidiram fazer a travessia a pé. No dia seguinte, começaram cedo a jornada de 220 quilômetros, enfrentando todo o tipo de privações.

Junto de outras pessoas que tinham o mesmo objetivo – conseguir emprego para ajudar os familiares que ficaram na Venezuela – caminharam 75 quilômetros.

“Com sol forte, meu rosto foi queimando e os lábios racharam. Levou meses até que se curassem. Os pés passaram a sangrar muito. Eu carregava duas bagagens e, quando ela não conseguiu mais caminhar, ainda a levei nas costas por algum tempo”, conta Barsenas.

Durante o trajeto, contaram com a solidariedade de índios, que lhes davam comida, água e um lugar para dormir. Às vezes conseguiam carona e, quando finalmente chegaram a Boa Vista, foram surpreendidos com o número de venezuelanos na cidade, dormindo na praça Símon Bolivar.

“A mesma em que dormimos por vários meses”, diz Carolina.

Ajuda humanitária

Foi nesta praça que o casal conheceu o pastor da Comunidade Batista Vida Nova, Rudi Sano, representante da ONG (Organização Não Governamental) Cristo Sem Fronteiras, de Guaramirim.

Depois de realizar um trabalho humanitário em Roraima para dar as mínimas condições aos milhares de venezuelanos que atravessaram a fronteira, a ONG agora dá suporte aos que migram para a região.

Hoje, 14 pessoas, entre adultos e crianças estão acolhidos em Guaramirim, número que deve subir para 23 até o fim de setembro. Na casa base do projeto, há um haitiano acolhido, além da família de Barsenas.

Outras dez pessoas estão na casa pastoral da igreja. A ideia é aumentar a estrutura da casa base para que outras famílias possam se instalar no espaço.

Há oito meses no Brasil e pouco mais de um mês em Guaramirim, Leomar se apresentou ontem à tarde para o primeiro dia de trabalho, em empresa local | Foto: Eduardo Montecino/OCP News

Depois de passar alguns dias atuando como voluntário em Boa Vista, veio a decisão de ampliar o apoio aos imigrantes. Na capital não há trabalho e, segundo o pastor Rudi, a rede não suporta nem a parte de saúde, nem segurança, ou seja, está sobrecarregada.

“Estamos oferecendo aos venezuelanos o mesmo que oferecemos aos haitianos. Auxiliamos com a documentação, roupas, material de higiene pessoal, uma casa, suporte em saúde, currículos e aulas de português. Aqui é uma casa de passagem, um espaço onde essas famílias se estruturam até caminharem sozinhas”, assegura o pastor.

Auxílio para todos

A ONG já é conhecida dos guaramirenses. Por meio do projeto Novos Caminhos, iniciado há cinco anos, atende gratuitamente 130 crianças e adolescentes do município com oficinas de violão, violino, capoeira, futebol, dança, taekwondo e fotografia, além de assistência social às famílias.

O pastor enfatiza que o trabalho que já vem sendo feito na cidade e é voltado aos munícipes está sendo estendido aos haitianos, venezuelanos e todos aqueles que buscarem auxílio, independente da etnia.

“Continuamos recebendo pedidos de socorro o tempo todo. Quem conhece a história do país, vai entender que nós fomos colonizados e que veio gente do mundo todo para constituir o Brasil. Essas pessoas estão vindo buscar uma vida melhor”, enfatiza.

De acordo com o secretário de Desenvolvimento Social e Habitação de Guaramirim, Valério Verbinem, a pasta não foi procurada para prestar auxílio às famílias venezuelanas.

“A legislação do SUAS (Sistema Único de Assistência Social) regulamenta o atendimento e vamos seguir essa regulamentação. Atenderemos dentro da possibilidade do município”, afirma o secretário.

Ajude a ONG Cristo Sem Fronteiras:

  • Banco 085
  • Agência 0101
  • Conta 756.792-8

Contatos: 98498-0784, com pastor Rudi, ou 99654-0907, com Josiane. Outras doações podem ser encaminhadas à Comunidade Batista: localizada na rua 28 de Agosto, 1983, Centro de Guaramirim, que atende a partir das 14 horas.

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